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‘Três mulheres’: retratos sobre desejo e sexualidade


O ‘Nexo’ publica trecho do livro que reúne histórias de três mulheres  dos Estados Unidos, cujas vidas e sexualidade a autora acompanhou durante oito anos. Em dois casos, Lisa Taddeo chegou a se mudar para as cidades delas para compreender seus cotidianos. Leia abaixo o prólogo 

Quando minha mãe era jovem, um homem a seguia até o trabalho todas as manhãs e se masturbava enquanto andava atrás dela. Minha mãe tinha frequentado a escola até o quinto ano apenas e seu dote consistia de panos de prato de linho de qualidade média, mas ela era linda. Essa ainda é a primeira maneira que me ocorre de descrevê-la. Seus cabelos eram da cor dos chocolates dos Alpes Tiroleses e ela sempre os usava da mesma maneira: cachos curtos presos no alto da cabeça. Sua pele não era morena como a da família, mas de uma cor toda própria, o rosa claro do ouro barato. Seus olhos eram sarcásticos, sedutores, castanhos.

 

Ela trabalhava como caixa em uma venda de frutas e legumes no centro de Bolonha. A venda ficava na Via San Felice, uma grande rua no distrito de moda. Havia muitas lojas de sapatos, joalherias, perfumarias, tabacarias e lojas de roupas para mulheres que não trabalhavam. Minha mãe passava por essas butiques a caminho do trabalho. Pelas vitrines, ela observava o couro de qualidade das botas e os colares reluzentes.

 

Mas antes de chegar a essa zona comercial, saía de seu apartamento e caminhava tranquilamente por pequenas ruas e vielas onde não trafegavam carros, passando pelo chaveiro e pelo açougue de carne de cabra, atravessando pórticos desertos que cheiravam a urina e ao odor sombrio de água estagnada em poças sobre as pedras. Era por essas ruas que o homem a seguia.

 

Onde ele a teria visto pela primeira vez? Imagino que tenha sido na venda de frutas. Aquela linda mulher, cercada por uma cornucópia de produtos frescos — figos suculentos, montanhas de castanhas-da-índia, pêssegos dourados, bulbos de funcho brancos e brilhantes, couves-flores verdes, tomates na vinha ainda cobertos de terra, pirâmides de berinjelas de um roxo profundo, morangos pequenos mas magníficos, cerejas reluzentes, uvas, caquis — além de uma seleção variada de grãos e pães, taralli, friselle, baguetes, algumas panelas de cobre à venda e barras de chocolate amargo.

 

Ele estava na casa dos sessenta anos, tinha nariz grande e começava a ficar careca, com uma barba branca por fazer sobre o rosto encovado. Usava uma boina, como todos os outros homens idosos que percorriam as ruas de bengala em sua camminata diária. Um dia ele deve tê-la seguido até em casa, porque, em uma manhã ensolarada de maio, minha mãe abriu a pesada porta do edifício onde morava, saindo da escuridão para a súbita claridade — na Itália quase todos os prédios de apartamentos têm corredores escuros, as luzes diminuídas e cronometradas para cortar custos, o sol bloqueado pelas paredes de pedra, grossas e frias —, e lá estava aquele velho que ela nunca tinha visto, esperando por ela.

 

Ele sorriu, e ela sorriu de volta. Em seguida, começou sua caminhada para o trabalho, carregando uma bolsa barata e vestindo uma saia na altura da panturrilha. Suas pernas, mesmo depois de velha, eram absurdamente femininas. Posso me imaginar dentro da cabeça daquele homem, vendo as pernas de minha mãe e seguindo-as. Uma das heranças de ter vivido durante séculos sob o olhar masculino é que as mulheres heterossexuais com frequência olham para outras mulheres da mesma maneira que um homem faria.

 

Minha mãe sentiu a presença dele atrás de si por muitos quarteirões, passando pelo vendedor de azeitonas e pelo fornecedor de vinho do Porto e cerejas. Mas ele não se limitou a segui-la. Ao dobrar determinada esquina, ela percebeu um movimento com o canto do olho. As ruas de pedra estavam vazias àquela hora, no início da manhã, e ao se virar ela viu que ele estava com o pênis, longo, fino e ereto, para fora das calças, e que o estimulava com rapidez, para cima e para baixo, os olhos tão concentrados nela que parecia possível que o que acontecia abaixo de sua cintura fosse controlado por um cérebro completamente diferente.

 

Ela ficou assustada na época, mas, anos depois do episódio, o medo daquela primeira manhã se transformou em uma diversão sarcástica. Nos meses que se seguiram, ele apareceu diante do apartamento dela várias manhãs por semana, e por fim começou a acompanhá-la também na volta da venda até em casa. No auge do relacionamento, ele a seguia duas vezes por dia.

 

Minha mãe já morreu, portanto não posso perguntar por que ela permitiu isso, dia após dia. Perguntei então a meu irmão mais velho por que ela não fez nada, por que não contou a ninguém.

 

Era a Itália da década de 1960. Os policiais teriam dito: Ma lascialo perdere, è un povero vecchio. È una meraviglia che ha il cazzo duro a sua età. Deixe para lá, é só um coitado de um velho. É um milagre que consiga ficar de pau duro nessa idade.

 

Minha mãe deixou que aquele homem se masturbasse observando seu corpo, seu rosto, enquanto caminhava para o trabalho e de volta para casa. Ela não era o tipo de mulher que sentiria prazer nisso. Mas não posso ter certeza. Minha mãe nunca falava sobre seu desejo. Sobre o que a excitava ou o que lhe causava repugnância. Às vezes parecia que ela não tinha nenhum desejo próprio. Que sua sexualidade era apenas uma trilha no meio da floresta, do tipo sem sinalização, que é aberta por botas pisoteando a vegetação alta. E as botas pertenciam a meu pai. Meu pai amava as mulheres de uma maneira que era considerada encantadora. Ele era médico e chamava as enfermeiras de benzinho quando gostava delas e de querida quando não gostava. E, acima de tudo, amava minha mãe. Sua atração por ela era tão evidente que ainda me deixa desconfortável.

 

Embora eu nunca tenha me perguntado sobre o desejo de meu pai, algo em sua força, na força de todo desejo masculino, me cativava. Os homens não queriam, simplesmente. Os homens precisavam. O homem que seguia minha mãe até o trabalho e de volta todos os dias precisava fazer isso. Presidentes renunciam à glória em troca de boquetes. Em troca de um momento, um homem pode colocar em risco tudo que levou uma vida inteira para construir. Nunca concordei inteiramente com a teoria de que homens poderosos têm egos tão inflados que não conseguem conceber que um dia serão pegos; na verdade, acho que o desejo é tão intenso no instante, que tudo mais — família, lar, carreira — se funde em um pequeno líquido mais frio e mais ralo que o sêmen. Torna-se nada.

 

Quando comecei a escrever este livro, um livro sobre o desejo humano, achei que seria atraída pelas histórias dos homens. Seus anseios. A forma como podem virar um império de cabeça para baixo por uma garota de joelhos. Então comecei conversando com homens: com um filósofo em Los Angeles, um professor em Nova Jersey, um político em Washington, D.C. De fato fiquei atraída por suas histórias da mesma forma como uma pessoa se sente compelida a pedir repetidas vezes a mesma entrada do cardápio de um restaurante chinês.

 

A história do filósofo, que começou como um homem atraente cuja esposa menos atraente não queria dormir com ele, com todos os tormentos mesquinhos associados ao amor e à paixão que definham, se transformou na história de um homem que queria dormir com a massagista tatuada com quem vinha fazendo sessões por causa de uma dor nas costas. Ela diz que quer fugir comigo para Big Sur, ele mandou mensagem bem cedo em uma manhã de sol. Na próxima vez que nos encontramos, fiquei sentada diante dele em um café enquanto ele descrevia os quadris da massagista. Sua paixão não parecia digna, considerando o que ele havia perdido no casamento; na verdade, parecia superficial.

 

As histórias dos homens começaram a parecer todas iguais. Em alguns casos, havia um cortejo prolongado; às vezes esse cortejo mais parecia um aliciamento; mas na maior parte as histórias terminavam nos espasmos ofegantes do orgasmo. E ao passo que o ímpeto dos homens se esgotava na salva final do clímax, descobri que o das mulheres com frequência estava apenas começando. Havia complexidade, beleza e até mesmo violência na forma como as mulheres experimentavam o mesmo acontecimento. Dessa forma e de outras, a meus olhos, as partes femininas de um interlúdio passaram a representar o todo de como era o desejo nos Estados Unidos.

 

É claro que o desejo feminino pode ser tão impetuoso quanto o masculino, e quando o desejo era propulsor, quando procurava um fim que pudesse controlar, meu interesse desvanecia. Mas as histórias nas quais o desejo era algo que não podia ser controlado, quando o objeto do desejo ditava a narrativa, era aí que eu encontrava mais randiosidade, mais dor. Era como pedalar uma bicicleta para trás: a agonia e a inutilidade e, por fim, a entrada em um mundo completamente diferente.

 

Para encontrar essas histórias, atravessei o país seis vezes. Fiz um vago planejamento de meus destinos. Na maior parte das vezes, eu parava em um lugar como Medora, Dakota do Norte. Pedia torradas e café, e lia o jornal local. Foi assim que encontrei Maggie. Uma jovem mulher sendo chamada de puta e vadia gorda por mulheres ainda mais jovens do que ela. Ela supostamente tivera um relacionamento com um de seus professores do ensino médio, que era casado. O fascinante, em seu relato, era a ausência de intercurso sexual em si. Como ela relatou, ele tinha feito sexo oral nela, mas não a deixara baixar o zíper da calça jeans dele. Ele, no entanto, havia colocado bilhetes em post-its amarelo-claros no livro favorito dela, “Crepúsculo”. Ao lado de passagens sobre a ligação duradoura entre dois amantes malfadados, ele havia traçado paralelos com a relação dos dois. O que impressionou aquela jovem mulher, o que a fez se sentir enaltecida, foi o grande número de bilhetes e o fato de serem ricos em detalhes. Ela mal podia acreditar que o professor que tanto admirava tivesse lido o livro inteiro, menos ainda que ele tivesse se dado ao trabalho de fazer comentários tão profundos, como se estivesse ministrando uma aula de estudos avançados sobre amantes vampiros. Ele também tinha, ela contou, perfumado as páginas com sua colônia, pois sabia que ela amava seu cheiro. Receber aqueles bilhetes, viver uma relação como aquela e então vê-la chegar a um fim repentino: eu podia imaginar com facilidade o vazio que algo assim deixaria.

 

Tomei conhecimento da história de Maggie quando as coisas estavam indo de mal a pior. Ela me pareceu uma mulher cuja sexualidade e cujas experiências sexuais estavam sendo negadas de uma maneira terrível. Vou recontar a narrativa de seu ponto de vista; entretanto, uma versão dessa história foi apresentada a um júri, que viu os fatos de forma muito diferente. Parte da narrativa de Maggie expõe para o leitor a questão muito familiar de quando, por que e por quem as histórias das mulheres são levadas a sério — e quando, por que e por quem não são.

 

Ao longo da história, homens partiram o coração de mulheres de uma determinada maneira. Eles as amam, ou as amam pela metade, em seguida se cansam e passam semanas e meses se desvencilhando em silêncio, tirando o time de campo, se afastando, e nunca mais ligam. Enquanto isso, as mulheres esperam. Quanto mais apaixonadas estão e quanto menos opções têm, mais tempo esperam, nutrindo a esperança de que ele reaparecerá com um celular quebrado, ou com a cara quebrada, e dizer: me perdoe, fui enterrado vivo e a única coisa na qual pensava era você e tive medo de que você achasse que a esqueci, quando a verdade é apenas que perdi seu número, foi roubado de mim pelos homens que me enterraram vivo, mas passei três anos procurando em listas telefônicas e agora a encontrei. Eu não desapareci, tudo que eu sentia não foi embora simplesmente. Você estava certa em pensar que isso seria cruel, inconcebível, impossível. Case comigo.

 

Maggie foi, de acordo com seu relato, destruída pelo suposto crime de seu professor, mas ela tinha algo que as mulheres abandonadas não costumam ter. Um certo poder, determinado por sua idade e pelo cargo de seu ex-amante. O poder de Maggie, ela acreditava, estava estabelecido pelas leis do país. Em última instância, no entanto, não estava.

 

Algumas mulheres esperam porque, se não esperarem, há uma ameaça de efemeridade. Maggie acredita, no momento, que ele é o único que ela vai desejar na vida. O problema pode ser econômico. As revoluções levam muito tempo para chegar a lugares onde as pessoas compartilham mais receitas da revista “Country Living” do que artigos sobre o fim da submissão feminina.

 

Lina, uma dona de casa de Indiana que não era beijada havia anos, esperou para deixar o marido porque não tinha dinheiro suficiente para viver separada dele. As leis sobre pensão alimentícia no estado de Indiana não eram uma realidade disponível para ela. Então ela esperou que outro homem deixasse a esposa. Em seguida esperou um pouco mais.

 

A forma como o vento sopra em nosso país pode nos levar a questionar quem somos em nossa própria vida. Com frequência o tipo de espera a que algumas mulheres se submetem é para ter certeza de que serão aprovadas por outras mulheres, para que elas também possam aprovar a si mesmas.

 

Sloane, a séria proprietária de um restaurante, deixa que o marido assista enquanto ela transa com outros homens. De vez em quando, há dois casais na mesma cama, mas na maior parte das vezes ele apenas assiste, em vídeo ou ao vivo, enquanto ela transa com outro homem. Sloane é linda. Enquanto o marido vê ela transar com outros homens, uma cobiçada faixa do mar espuma diante da janela do quarto. Mais à frente na rua, ovelhas Cotswold cor de aveia pastam. Uma amiga minha, que considerou o ménage à trois sórdido e quase abominável no contexto de um grupo de praticantes de swing que conheci em Cleveland, achou a história de Sloane esclarecedora, crua, uma história com a qual conseguia se identificar. E a capacidade de identificação com algo é o que nos leva a sentir empatia.

 

Eu penso diariamente sobre o fato de ser filha de uma mulher que deixou que um homem se masturbasse enquanto olhava para ela, e penso em todas as coisas que permiti que fossem feitas comigo, nada tão escandaloso, talvez, mas não muito diferente no plano geral. Então penso no quanto já desejei dos homens. Quanto desse desejo era algo que eu queria de mim mesma, de outras mulheres até; quanto do que eu achava que queria de um amante vinha do que eu precisava de minha própria mãe. Porque as mulheres, em muitas das histórias que ouvi, têm um domínio maior sobre outras mulheres do que os homens. Somos capazes de fazer outras mulheres se sentirem desleixadas, vulgares, sujas, desprezadas, feias. No fim, tudo se resume ao medo. Os homens podem nos amedrontar, outras mulheres podem nos amedrontar, e às vezes nos preocupamos tanto com o que nos causa medo que esperamos até estarmos sozinhas para termos um orgasmo. Fingimos querer coisas que não queremos para que ninguém veja que não conseguimos aquilo de que precisamos.

 

Os homens não amedrontavam minha mãe. A pobreza sim. Ela me contou outra história; embora não me lembre das circunstâncias exatas do momento em que me contou, sei que ela não me pediu para sentar. A história não foi contada enquanto comíamos biscoitos de água e sal e bebíamos vinho rosé. É mais provável que tenham sido Marlboros à mesa da cozinha, nenhuma janela aberta, o cachorro piscando em meio à fumaça, sentado entre nossos joelhos. Ela estaria limpando a mesa de vidro. A história era sobre um homem cruel com quem ela estava se relacionando antes de conhecer meu pai. Minha mãe tinha algumas palavras que me intrigavam e me assustavam. Cruel era uma delas.

 

Ela cresceu em meio à pobreza, urinando em penicos e borrifando as sardas com urina porque diziam que isso suavizava os pigmentos. Havia apenas um quarto, que ela dividia com as duas irmãs e os pais. Quando chovia, a água entrava pelo telhado e pingava em seu rosto enquanto ela dormia. Passou quase dois anos em um sanatório tratando uma tuberculose. Ninguém a visitava, porque ninguém tinha dinheiro para custear a viagem. Seu pai era um alcoólatra que trabalhava em vinhedos. Um irmão mais novo morreu antes de completar um ano.

 

Ela acabou conseguindo sair de casa e foi para a cidade, mas pouco antes de isso acontecer, no início de fevereiro, sua mãe ficou doente. Câncer de estômago. Ela foi internada no hospital local, de onde não sairia mais. Certa noite, houve uma nevasca, o granizo se chocava contra os paralelepípedos, e minha mãe estava com esse homem cruel quando recebeu a notícia de que a mãe dela estava morrendo e não passaria daquela noite. O homem cruel estava levando minha mãe de carro até o hospital, em meio à tempestade de neve, quando eles começaram um briga horrível. Minha mãe não deu detalhes, mas disse que tudo terminou com ela no acostamento, debaixo de neve pesada, na noite escura. Ela viu as luzes traseiras do carro desaparecerem, e não havia nenhum outro veículo na estrada congelada. Não conseguiu estar com a mãe em seus momentos finais.

 

Até hoje não tenho certeza do que cruel significava naquele contexto. Não sei se o homem agredia minha mãe, ou se a violentava sexualmente. Sempre imaginei que crueldade, no mundo dela, envolvia alguma ameaça sexual. Em meus pensamentos mais góticos, eu o imagino tentando fazer sexo com ela na noite em que sua mãe estava morrendo. Imagino-o tentando mordê-la. Mas foi o medo da pobreza, não do homem cruel, que permaneceu nela. O fato de não poder chamar um táxi para ir até o hospital. O fato de não ter independência. De lhe faltarem recursos.

 

Mais ou menos um ano depois que meu pai morreu, quando conseguíamos chegar ao fim de um dia sem ter chorado, ela me pediu que lhe ensinasse a usar a internet. Minha mãe nunca havia usado um computador na vida. Digitar uma única frase levava vários e árduos minutos.

 

Apenas me diga o que você quer, falei, ao fim de um dia inteiro passado diante da tela. Nós duas estávamos frustradas.

 

Não posso, disse ela. É uma coisa que preciso fazer sozinha.

 

O quê?, perguntei. Eu já tinha visto tudo dela, todas as suas contas, bilhetes, até mesmo a carta escrita à mão que ela guardara para que eu encontrasse no caso de ela sofrer uma morte súbita.

 

Quero pesquisar sobre um homem, disse ela baixinho. Um homem que conheci antes do seu pai. Fiquei perplexa, e até mesmo magoada. Eu queria que minha mãe fosse para sempre a viúva do meu pai. Queria que a imagem que eu tinha dos meus pais permanecesse intacta, mesmo depois da morte, mesmo à custa da felicidade dela. Eu não queria saber sobre o desejo da minha mãe.

 

Esse terceiro homem, dono de um vasto império de joalherias, a amava tanto que fora até a igreja para tentar impedir o casamento dos meus pais no momento em que era celebrado. Muito tempo atrás, ela me deu um colar de rubis e diamantes, algo que parecia estar passando adiante para negar o quanto era valioso para ela. Eu disse para ela tentar se entender com o computador sozinha, mas ela ficou doente antes de conseguir.

 

Eu penso sobre a sexualidade da minha mãe e sobre como ela ocasionalmente a usava. As pequenas coisas, o modo como se maquiava antes de sair de casa ou abrir a porta. Para mim, isso sempre pareceu um sinal de força ou fraqueza, mas nunca de um coração batendo. Como eu estava errada.

 

Ainda assim, me pergunto como uma mulher pode ter deixado que um homem se masturbasse atrás dela por tantos dias. Eu me pergunto se ela chorava à noite. Talvez ela chorasse até pelo velho solitário. São as nuances do desejo que guardam a verdade sobre quem somos em nossos momentos mais brutais. Eu decidi registrar o ardor e o tormento do desejo feminino de forma que os homens e outras mulheres possam compreender melhor antes de condenar. Porque são os minutos cotidianos de nossas vidas que vão permanecer para sempre, que vão nos dizer quem fomos, quem nossas vizinhas e nossas mães eram enquanto nos esforçávamos para pensar que elas eram muito diferentes de nós. Esta é a história de três mulheres.

 

Lisa Taddeo é jornalista, mora nos Estados Unidos e colaborou com as revistas New York Magazine, Esquire, Elle, Glamour, entre outras. Sua obra de não ficção já fez parte de antologias e seus contos ganharam dois Prêmios Pushcart.

 

 

Três mulheres

Lisa TaddeoHarperCollins320 páginasLançamento em 15 de outubro de 2019

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