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‘Sete faces de Eduardo Coutinho’: um olhar além do cinema


O ‘Nexo’ publica trecho do livro que explora diferentes facetas do documentarista Eduardo Coutinho, de diretor de cinema e teatro a roteirista, ator, crítico e até autor de horóscopo. Mattos observa as transversalidades entre vida e obra de Coutinho e as circunstâncias que influenciaram seus filmes e preferência pelo cinema de encontro. Leia abaixo, parte do último capítulo, ‘Personagem’

Viver com pouco, filmar com poucoEduardo Coutinho tinha uma vida extremamente frugal, ao ponto mesmo da imprudência. Vestia-se franciscanamente e dispensava qualquer luxo. Quem abrisse sua mala durante uma viagem encontraria, provavelmente, umas poucas peças de roupa, muitos pacotes de cigarros, saquinhos de iguarias vagabundas e nada mais.

Sua dieta alimentícia era paupérrima. Se dependesse de sua vontade, comeria somente salgadinhos (de preferência frituras), batatas chips ensacadas, pão de alho e coisas do gênero. Saladas e frutas eram consideradas piores que veneno. Em matéria de bebidas, apreciava o café, o licor Amaretto, as caipirinhas e o uísque barato. Certa feita, repreendeu João Moreira Salles por lhe presentear com um uísque escocês mais requintado: “Não gaste dinheiro com uísque caro pra mim”.

Nunca formou uma poupança. Gabava-se de só ter tido seu primeiro talão de cheques aos 38 anos. Na juventude, influenciado por familiares adultos, frequentava pistas de turfe, hábito readquirido nos tempos de vacas magras, anos 1990, quando voltou a frequentar as cadeiras populares do Jockey Clube e fazer pequenas apostas. Perdia muito mais que ganhava, voltando para casa com a bolsa a tiracolo cheia de livros e vazia de dinheiro. 

Coutinho era genial e modesto também na hora de filmar. Cedo na carreira, mudou-se do casarão da ficção para o casebre do documentário, querendo com isso livrar-se da carga pesada do cinema. A progressiva depuração do seu método foi uma maneira de se desfazer de efeitos e adereços, acercando-se do que considerava essencial. João Moreira Salles deteve-se largamente sobre esse processo, que chamava de “o cinema mínimo de Coutinho”.

No dizer de Laura Liuzzi, ele dava valor ao que não tem valor. Todo o seu processo criativo era plasmado em pequenos cadernos de espiral, como um quitandeiro de antigamente. Usava canetas esferográficas comuns para escrevinhar seus garranchos, numa caligrafia prejudicada por um dedo mínimo quebrado na infância. O máximo de tecnologia que adotava era uma máquina Olivetti Lettera 22, quando precisava escrever alguma coisa para olhos alheios.  

Suas produções requeriam equipes pequenas e recursos exíguos. Além da câmera, do microfone e da luz básica, bastavam duas cadeiras e gente na frente dele. “Um filme em que eu precise de mais de duas vans não serve, elimina!”

 

O fantasma do fracasso“Como você pode estar de bom-humor a esta hora da manhã?”, perguntava Coutinho ao sempre ensolarado Ernesto Piccolo nos dois períodos em que esteve hospedado na casa dele. As manhãs e o início de qualquer atividade (filmagens, entrevistas, palestras) eram contaminados pela indisposição. Quem o conhecia já estava a par: era um mau-humor de fachada, que logo se dissolvia à medida que as coisas avançavam, e ele quase sempre se punha divertido e comunicativo. Nos longos dias de montagem, Jordana Berg já sabia como se comportar quando ele chegava “péssimo”. Ela fingia não perceber ou se dizia igualmente “péssima”, o que o desarmava.

Havia certamente razões íntimas para aborrecimento, mas, com o passar dos anos, aquele estado já se tornara parte da composição do personagem. Um pessimismo militante e o fantasma do fracasso estavam definitivamente introjetados. Mas a conversa com seus personagens o retirava rapidamente do buraco. “Não tenho mais esperança em ser feliz, que meus filmes façam sucesso ou que o Brasil dê certo. A única coisa que me salva é aquela pessoa ali na minha frente. Ela percebe isso e quer me ajudar”, disse um dia a Beth Formaggini.

Ele admitia um componente estratégico no frequente pessimismo em relação ao trabalho. Era como um jogo de exorcismo, no qual, achando que o filme certamente fracassaria, alguma coisa haveria de resultar bem. Precisava do espectro da derrota para finalmente vencer. Nas filmagens de “Edifício Master”, Jacques Cheuiche decidiu colocar uma câmera por trás da equipe principal para fazer “um filme sobre o filme que não deu certo”. A uma das personagens de “Últimas conversas” ele se lamenta: “Tudo o que eu faço agora dá errado”. Certamente aquela entrevista foi uma das primeiras da manhã. Pouco depois, estava radiante de alegria na troca com os jovens estudantes.

Coutinho sabia que era folcloricamente considerado pessimista, mas dizia que, no cinema, via o mundo com “um olhar feliz”. Assim ganhava o afeto das pessoas, que, depois de aparecer em um de seus filmes, guardavam uma lembrança carinhosa do “velhinho legal”. Como disse Fátima Gomes, a personagem-cantora de “Babilônia 2000” e “As canções”, a um repórter pouco depois da morte de Coutinho: “A felicidade dele era ouvir as histórias dos outros”.

 

Materialista mágicoDefinindo-se como um “materialista mágico”, Coutinho tentava dar conta de suas vacilações entre a fé e a descrença. Afirmava que não tinha fé, mas adoraria ter. E respeitava plenamente quem tinha, fosse qual fosse o credo ou a crendice. Não se dizia ateu porque não queria afirmar nada sobre a existência ou não de Deus.

A falta de fé não o impedia de cumprir alguns rituais, por via das dúvidas. Nos tempos do “Globo Repórter”, usava uma correntinha que ganhou de uma mulher da umbanda. Perdeu várias vezes e, sempre que achava, redobrava a confiança no poder da peça. Em outras épocas, levava uma santinha de papel de Nossa Senhora de Guadalupe nas viagens de avião. “Não quero ser feliz. Que o avião não caia já está bom.” Enquanto fazia ‘Santo forte’, sempre por via das dúvidas, botava alimentos para um santinho na sala do Cecip. Houve um tempo em que frequentou assiduamente a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e de São Benedito, no centro do Rio.

Para ele, o comportamento mágico era algo sempre presente na vida. “O que é a neurose senão uma forma de magia? A repetição de rituais, coisas que fazemos sem perceber. É tudo magia. Não dá pra distinguir, na essência, uma religião ‘elevada’ da crendice.”

 

Carlos Alberto Mattos é jornalista, escritor, pesquisador e crítico de cinema desde 1978. Escreveu para Tribuna da Imprensa, IstoÉ, O Pasquim, Jornal do Brasil, Estadão, O Globo e editou o DocBlog, sobre a produção de documentários. Foi presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro e participou do júri da crítica nos festivais de Veneza, Berlim, Moscou e Amsterdã, entre outros. É autor de diversas obras, entre elas “Cinema de fato: anotações sobre documentário” (Jaguatirica, 2016), “Walter Lima Jr.: viver cinema” (Casa da Palavra, 2002), “Maurice Capovilla: a imagem crítica” (Coleção Aplauso, Imprensa Oficial do Estado SP, 2006), “Vladimir Carvalho: pedras na lua e pelejas no planalto” (Coleção Aplauso. Imprensa Oficial do Estado de SP, 2008). Edita o blog carmattos.

 

Sete faces de Eduardo Coutinho

Carlos Alberto Mattos Coedição Boitempo, Itaú Cultural e Instituto Moreira Salles352 páginasLançamento em outubro de 2019, junto à abertura da Ocupação Eduardo Coutinho, no Itaú Cultural, em São Paulo

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