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‘Columbine’: a história do massacre. E uma crítica à mídia 


O ‘Nexo’ publica trecho da primeira tradução para o português do livro que reúne nove anos de pesquisa sobre o massacre ocorrido em Columbine, em 1999, nos Estados Unidos. Além de relatar o episódio em si, Cullen critica as publicações na imprensa de então – que, para ele, deveriam ter promovido uma discussão sobre saúde mental e desarmamento. Leia abaixo nota do autor e um excerto da primeira parte da obra 

Grande parte desta história foi gravada em fita ou registrada em cadernos e diários na mesma época — pelos assassinos antes dos homicídios e por investigadores, jornalistas e pesquisadores em seguida, e muito mais foi reconstruído ou elaborado a partir das lembranças dos sobreviventes. Tudo encontrado entre aspas foi capturado em fita, gravado por mim, por outros jornalistas ou por investigadores da polícia na época, publicado em documentos oficiais ou, no caso de conversas casuais, relembrado por um ou mais depoentes com alto grau de precisão. Quando o depoente estava menos certo a respeito dos termos, usei itálico. Abreviei algumas conversas sem usar reticências e corrigi alguns erros gramaticais. Nenhum diálogo foi inventado.

A mesma convenção foi aplicada para as citações dos assassinos, que escreveram e gravaram a si mesmos de maneira extensa. Seus escritos são reproduzidos aqui como foram registrados, com grande parte de suas idiossincrasias intacta.

Passagens deste livro que sugerem seus pensamentos vêm principalmente de diários e vídeos. Enorme quantidade de fontes corroborativas foi empregada, incluindo tarefas escolares, conversas com amigos, familiares e professores; diários mantidos por figuras-chaves; e uma enxurrada de registros policiais compilados antes dos homicídios, principalmente resumos das sessões de terapia. Com frequência, usei os pensamentos dos assassinos verbatim, com base em seus diários, sem aspas. Outros sentimentos são resumidos ou parafraseados, mas todos se originaram deles.

Os assassinos deixaram brechas significativas em seus pensamentos e tentei preenchê-las com a ajuda de especialistas em psicologia criminal que passaram anos trabalhando no caso. Todas as conjecturas a respeito dos pensamentos dos assassinos são indicadas de acordo.

Todos os nomes citados aqui são verdadeiros, com uma exceção: o pseudônimo Harriet, que identifica a garota sobre quem Dylan escreveu de modo obsessivo. Para simplificar, personagens menos importantes não são nomeados no texto, mas todos são identificados na versão expandida das notas on-line. Todos os horários do massacre são baseados no relatório do delegado do condado de Jefferson. Alguns familiares das vítimas, contudo, acreditam que o ataque começou alguns minutos antes. Os horários usados aqui são estimativas, exatos em relação uns com os outros.

Como jornalista, fiz a cobertura da história extensivamente, começando por volta do meio-dia do dia do ataque. Os episódios recontados aqui misturam minhas reportagens da época com nove anos de pesquisa. Isso inclui centenas de entrevistas com a maioria dos diretores envolvidos, a análise de mais de 25 mil páginas de evidências policiais, incontáveis horas de vídeo e áudio, e o trabalho extenso de outros jornalistas que considerei confiáveis.

Para evitar introduzir a mim mesmo na história, costumo me referir à imprensa em terceira pessoa. Contudo, em relação às gafes cometidas pela grande mídia durante a cobertura inicial da história, em que quase todo mundo entendeu de maneira errônea os fatores centrais, estive entre os culpados. Espero que este livro contribua para corrigir a história.

 

01SR. D

Ele lhes disse que amava a todos, a cada um deles. Falou sem entonação, mas escolheu as palavras com cautela. Frank DeAngelis aguardou a rotina de pompons, os prêmios acadêmicos e os vídeos feitos pelos estudantes. Após uma hora de folia, o homem baixo de meia-idade atravessou a quadra brilhante de basquete para se dirigir ao seu corpo discente. Caminhou sem pressa; sorria, conforme passava pela banda marcial, pelas animadoras de torcida e pelo logo dos Rebels pintado sob faixas farfalhantes que proclamavam recentes vitórias esportivas. Fitou os dois mil alunos do Ensino Médio, eletrizados nas arquibancadas de madeira, e eles lhe deram total atenção. Então, contou-lhes o quanto eram importantes para ele, como seu coração se partiria caso perdesse um só deles que fosse.

Era sentimento peculiar para ser expresso por um administrador diante de uma assembleia de adolescentes. Mas Frank DeAngelis fora técnico por mais tempo do que diretor, e acreditava com sinceridade em motivação por meio da candura. Fora técnico das equipes de futebol americano e basquete durante dezesseis anos, mas se parecia com um lutador: corpo compacto, postura de fuzileiro naval, mas sem a bravata. Tentava disfarçar seu passado de técnico, mas ele o projetava.

Era possível ouvir o medo em sua voz e ele não tentou escondê-lo, nem se preocupou em conter as lágrimas que encheram os olhos, e não foi criticado por isso. Aquela garotada era capaz de farejar impostores com uma fungada e expressar desagrado por risadinhas, se remexendo ou com corrente audível de inquietação. Só que eles adoravam o sr. D., que podia dizer quase qualquer coisa para os estudantes, exatamente porque era o que ele fazia. Não escondeu nada, não mascarou nada e não simplificou nada. Na manhã de sexta-feira, 16 de abril de 1999, o diretor Frank DeAngelis foi alguém completamente transparente.

Todos os alunos no ginásio entenderam a mensagem do sr. D. Restavam pouco menos de 36 horas para o baile de formatura, o que significava beber muito e dirigir muito. Dar um sermão iria apenas incitar olhos revirados, portanto, em vez disso, apelou para três tragédias da própria vida. Seu amigo do Ensino Médio que morreu em acidente de moto: “Consigo me lembrar de estar na sala de espera, olhando o sangue dele”, contou. “Então, não venham me dizer que isso não acontece.” Depois, descreveu como abraçou a filha adolescente depois que a amiga dela morreu nos destroços incendiados de um acidente. E o outro, em que o mais difícil tinha sido reunir o time de beisebol de Columbine para lhes dizer que um de seus amigos tinha perdido o controle do carro. Ele engasgou com as lágrimas outra vez: “Não quero ter que ir a outro velório.”

“Olhem para a sua esquerda”, disse a eles. “Olhem para a sua direita.” Ele os instruiu a estudar os rostos sorridentes, e então a fechar os olhos e imaginar que um deles faleceu. Pediu que repetissem: “Sou membro valioso da Escola Secundária Columbine e não estou sozinho.” Então disse que os amava, como sempre fazia. “Abram os olhos”, pediu. “Quero ver cada um desses rostos alegres e sorridentes de novo na segunda-feira de manhã.” Pausou. “Quando pensarem em fazer algo que possa meter vocês em problemas, lembrem-se: eu me importo com vocês”, disse. “Amo vocês, mas lembrem-se: quero que fiquemos todos juntos. Somos uma grande família, somos...”

Ele deixou a frase no ar e aquele era o sinal para os estudantes. Então, eles se puseram em pé de um pulo e gritaram: “Co-lum-bine!”

Ivory Moore, professor cheio de energia e agitador de multidões, correu e gritou: “Nós somos...”

“Co-lum-bine!”

Foi mais alto dessa vez, e seus pulsos se agitavam no ar.

“Nós somos...”

“Co-lum-bine!”

“Nós somos...”

“Co-lum-bine!”

Mais alto, mais rápido, mais intenso, mais rápido — ele os levou ao frenesi. Então, os liberou.

Os estudantes se espalharam pelos corredores para encerrar o último dia de aulas, a poucas horas do grande fim de semana.

 

•••

 

Todos os 2 mil alunos iriam voltar em segurança na manhã de segunda-feira, após o baile de formatura. Porém, na tarde seguinte, terça-feira, 20 de abril de 1999, 24 dos alunos e membros do corpo docente do sr. D seriam carregados para ambulâncias e levados para hospitais. Treze corpos permaneceriam no prédio e mais dois no terreno da escola. Esse viria a ser o mais grave tiroteio escolar da história dos Estados Unidos — caracterização que teria horrorizado os garotos que naquele instante finalizavam seus planos.

 

02“REBELS”

 

Eric Harris queria um par para o baile de formatura. Eric era veterano, prestes a deixar a Escola Secundária Columbine para sempre e não estava disposto a ser deixado de fora do principal evento social de sua vida. Ele queria muito um par.

Garotas não costumavam ser um problema. Eric era crânio, mas de uma subcategoria incomum: crânio descolado. Fumava, bebia, namorava, era convidado para festas, chapava. Dava duro no visual: corte de cabelo militar da moda — curto e espetado com generosa quantidade de gel — além de camiseta preta e calça cargo. Ele detonava rock industrial hardcore alemão em seu Honda, gostava de disparar foguetes feitos com garrafas e de dirigir até o Wyoming para reabastecer o estoque de maconha. Quebrava as regras, se chamava pelo apelido de Reb, mas entregava as lições de casa e tirava muitas notas 10, fazia vídeos descolados e conseguia transmiti-los no sistema de circuito fechado da escola. E conquistava as garotas. Muitas e muitas garotas.

No derradeiro quadro de resultados do Ensino Médio, Eric ultrapassava grande parte do time de futebol americano, pois era um pequeno sedutor. Abordava sem rodeios as gatinhas no shopping, conquistava-as com perspicácia ligeira, covinhas encantadoras e sorriso irresistível. Seu emprego no Blackjack Pizza lhe proporcionava grande vantagem: se passassem por ali mais tarde, ele daria às garotas uma fatia de graça — e elas costumavam passar. O Blackjack era uma rede medíocre, um nível abaixo da Domino’s: fachada minúscula em pequeno centro comercial descendo a rua da casa de Eric. Era, em grande parte, um negócio de comida para viagem e para entrega, mas havia um punhado de mesinhas redondas e uma fileira de bancos alinhados ao longo do balcão para os desafortunados que não tinham lugar melhor para ir. Eric e Dylan eram chamados de internos, o que queria dizer que faziam tudo, exceto entregas — normalmente faziam pizzas, trabalhavam no balcão, limpavam a sujeira. Era um trabalho difícil e árduo na cozinha abafada, e chato à beça.

Eric tinha aparência marcante logo de cara: maçãs do rosto proeminentes, encovadas na parte inferior — feições proporcionais, bem-definidas e tipicamente norte-americanas. O perfil apresentava um pequeno problema, no entanto: o nariz longo e pontudo acentuava a testa inclinada e o queixo recuado. O cabelo espetado agia contra ele de maneira estética, alongando seu perfil anguloso — mas estava na moda e combinava bem com sua arrogância. O sorriso era seu trunfo, e sabia exatamente como usá-lo: acanhado e sincero, porém paquerador. E as garotas não se cansavam dele. Chegara ao baile de volta às aulas como calouro de dezessete anos, e se dera bem com uma moça de 23 e se pavoneava disso.

Mas o baile de formatura tinha se tornado um problema. Por alguma razão — azar ou tempo mal calculado —, não conseguia fazer com que aquilo desse certo. Ele enlouquecera procurando por um par, convidara uma garota, mas ela já tinha namorado e isso foi embaraçoso. Convidara outra; recusado de novo. Não teve vergonha de pedir a ajuda dos amigos. Seus camaradas convidaram, as garotas com quem ele andava convidaram, ele convidou — nada, nada, nada.

Seu melhor amigo, Dylan, tinha um par. Que loucura era essa? Dylan Klebold era submisso, inseguro e autenticamente tímido, sequer conseguia falar com estranhos, especialmente garotas. Seguia Eric em silêncio nas conquistas do shopping, tentando parecer invisível. Eric cobria as garotas de elogios; Dylan lhes passava biscoitos Chips Ahoy durante as aulas, para que soubessem que ele gostava delas. Os amigos de Dylan diziam que ele nunca tivera um encontro; talvez nunca tivesse convidado uma garota para sair — incluindo a que levaria ao baile.

Dylan Klebold também era crânio, mas não tão descolado. Pelo menos, não se via assim. Ele tentava imitar Eric com tanto afinco — em alguns de seus vídeos, ficava todo afetado e agia como um cara durão; então, com o olhar, buscava a aprovação de Eric. Dylan era mais alto, e até mesmo mais inteligente do que o amigo, mas consideravelmente menos bonito. Dylan odiava as feições desproporcionais de seu rosto um tanto assimétrico. Em especial, o nariz — o enxergava como uma bolha gigante. Dylan via a pior versão de si mesmo.

Barbear-se teria ajudado. A barba começava a aparecer, mas em lugares dispersos, pequenos pontos cobertos de penugem ao longo do queixo. Ele parecia se orgulhar das primeiras penugens, alheio ao verdadeiro efeito. Dylan, no entanto, passava impressão mais convincente como rebelde: cachos longos e desleixados balançavam na direção dos ombros e se elevava acima dos colegas. Com longa distância ainda a percorrer pela puberdade, já tinha um 1,90 m de altura, com 65 kg bem-esticados. Poderia envergar sua estatura com orgulho, lançar olhares depreciativos aos adversários, mas morria de medo, todo exposto ali em cima e, por isso, se curvava uns três ou quatro centímetros. A maioria dos seus amigos tinha mais de 1,80 m — Eric era a exceção, com 1,75 m, e seus olhos se alinhavam com o pomo de Adão de Dylan.

Eric também não se sentia empolgado com a própria aparência, mas era raro que transparecesse isso. Ele passara por cirurgia quando estava no Ensino Fundamental para corrigir um defeito congênito de nascença: pectus excavatum, o esterno encovado de maneira anormal. Desde o início, isso solapara sua confiança, mas ele superou o fato se fazendo de durão.

Mesmo assim, foi Dylan a conseguir companhia para o baile. Smoking alugado, corsage comprado e combinou com cinco outros casais para dividir uma limusine. Seu par era uma adorável nerd cristã que os ajudara a adquirir três das quatro armas, que gostava de Dylan o bastante para acreditar na história contada por Eric de que iam usá-las para caçar. Robyn Anderson era loira, bonita e baixinha, e se escondia atrás de longos cabelos lisos, que usava para cobrir boa parte do rosto. Era ativa em seu grupo de jovens da igreja e, naquele momento, estava em Washington, D.C., para a viagem de uma semana com os outros membros do grupo, mas se programou para voltar a tempo para o baile. Robyn conseguira uma série de 10 em Columbine e estava a um mês de se formar e ser a oradora da turma. Ela via Dylan todos os dias nas aulas de Cálculo, passeava pelos corredores e passava algum tempo com ele sempre que podia. Dylan gostava de Robyn, e adorava a adulação, mas não estava interessado nela para namorar.

Dylan se envolvia bastante em eventos escolares, assim como Eric. Frequentavam os jogos de futebol americano, os bailes e os shows de variedades, e trabalhavam juntos em produções de vídeos para a Rebel News Network. Peças escolares eram muito importantes para Dylan, que nunca quis encarar o público, mas nos bastidores, na mesa de som, aquilo era excelente. Antes, naquele ano, salvara Rachel Scott, a queridinha da turma de calouros, quando sua fita emperrou durante o show de talentos. Em poucos dias, Eric a mataria.

Eric e Dylan eram desprovidos de habilidades atléticas, mas gostavam de esportes. Ambos foram membros da liga infantil de beisebol e jogaram futebol quando crianças. Eric ainda praticava, mas para Dylan isso agora era em grande parte material para espectador. Eric torcia pelo Colorado Rockies e considerava os treinos da primavera empolgantes, Dylan torcia pelo Boston Red Sox e usava seu boné sempre. Assistia a bastante beisebol, estudava placares e compilava as próprias estatísticas. Estava em primeiro lugar na liga imaginária organizada por um de seus amigos. Ninguém era capaz de fazer análises melhores do que Dylan Klebold, visto que se preparava para as escalações de março com semanas de antecedência. Seus amigos ficavam entediados depois das primeiras rodadas, mas Dylan permanecia atento para assegurar um forte banco de reservas. Na semana final, notificou o dirigente da liga que acrescentaria um lançador novato à sua lista. E continuaria trabalhando nas trocas ao longo do fim de semana, até a segunda-feira, sua última noite. “A vida dele era o beisebol”, disse um de seus amigos.

Eric se considerava um não conformista, mas ansiava por aprovação e se enfurecia diante do menor desrespeito, sempre levantava a mão nas aulas e sempre tinha a resposta certa. Eric escreveu um poema para a aula de Escrita Criativa naquela semana sobre acabar com o ódio e amar o mundo. Gostava de citar Nietzsche e Shakespeare, mas fracassou em notar a ironia do próprio apelido, Reb: tão rebelde que chamava a si mesmo pelo nome da mascote da escola.

Dylan era conhecido como Vodka, às vezes usando suas iniciais em letras maiúsculas no nome da bebida favorita. Bebia muito, e tinha bastante orgulho disso; supõe-se que ganhou o apelido depois de emborcar uma garrafa inteira. Eric preferia Jack Daniel’s, mas escondia isso dos pais de maneira escrupulosa. Aos olhos dos adultos, Eric era obediente. Mau comportamento tinha consequências, com frequência envolvendo o pai, que restringia sua liberdade. Eric era um pequeno controlador que avaliava as ações e determinava o quanto podia fazer e sair impune. Era capaz de puxar o saco loucamente para as coisas saírem do seu jeito.

O dono do Blackjack Pizza conheceu bem o lado selvagem de Eric durante a maior parte da permanência deles no emprego. Depois de fechar a pizzaria, Robert Kirgis às vezes subia no telhado, e levava Eric e Dylan consigo para emborcar cervejas enquanto os garotos disparavam foguetes de garrafas por cima do centro comercial. Kirgis tinha 29 anos, mas gostava de passar tempo com aquela dupla. Eram jovens inteligentes; até falavam como adultos às vezes. Eric sabia quando era hora de brincar e quando era hora de falar sério. Se acontecesse de um policial aparecer naquele telhado, todos se voltariam para Eric e ele se encarregaria da conversa. Quando clientes se amontoavam no balcão e motoristas entravam apressados para pegar pedidos e alguém precisava assumir o controle, Eric era a pessoa certa: era como um robô sob pressão. Nada conseguia perturbá-lo, não quando se preocupava com o resultado. Além do mais, precisava daquele emprego; tinha um hobby dispendioso e não estava disposto a comprometê-lo por gratificação a curto prazo. Kirgis deixava Eric no comando quando ia embora.

Ninguém deixava Dylan no comando de nada, não era alguém confiável. Entrara e saíra da folha de pagamento no último ano. Candidatara-se para um emprego melhor em uma loja de computadores e apresentara seu currículo, que impressionara o dono, e Dylan conseguiu o emprego. No entanto, sequer se deu ao trabalho de aparecer.

Contudo, nada distinguia melhor a personalidade dos rapazes do que um encontro com as autoridades. Dylan hiperventilava; Eric mantinha tranquilidade calculista. O sangue-frio de Eric os mantinha longe da maioria dos problemas, mas eles tinham sua cota de brigas no pátio da escola, pois gostavam de implicar com as crianças mais novas. Dylan fora pego rabiscando obscenidades no armário de um calouro e ao ser repreendido pelo diretor, Peter Horvath, perdeu a cabeça. Xingou o diretor, pulou contra as paredes, agiu como um ensandecido. Eric poderia ter se safado com desculpas, evasões ou alegações de inocência — qualquer coisa à qual o indivíduo fosse suscetível. Era rápido em ler as pessoas e calculava as respostas. Eric era inabalável; Dylan explodia. Não fazia ideia de como o diretor Horvath iria reagir, nem se importava, ele era pura emoção. Dylan soube que seu pai iria à escola para discutir o incidente do armário, e se complicou ainda mais. Lógica era irrelevante.

Ambos os garotos eram analíticos talentosos, gênios da matemática e obcecados por tecnologia. Engenhocas, computadores, videogames — qualquer nova tecnologia os fascinava. Construíam websites, adaptavam jogos com os próprios personagens e aventuras, e gravavam uma porção de vídeos — temas curtos e breves que escreviam, dirigiam e estrelavam. É surpreendente perceber que o tímido e desengonçado Dylan era o ator mais envolvente, pois Eric era tão calmo e tranquilo que não conseguia sequer fingir intensidade. Pessoalmente, exalava ar charmoso, confiante e simpático; representando um jovem emotivo, era enfadonho e pouco convincente, incapaz de se emocionar. Dylan era cheio de energia. Na realidade, era tímido e acanhado, mas nem sempre quieto: era só acionar sua raiva que explodia. Em vídeo, liberava a raiva e era aquele maluco, se desintegrando diante da câmera: os olhos pulavam das órbitas e a pele do rosto se afastava deles; toda a pele se acumulava nas extremidades, fissuras profundas em volta do nariz saliente.

Exteriormente, Eric e Dylan pareciam jovens normais prestes a se formar. Desafiavam as autoridades, testavam suas proezas sexuais — um pouco frustrados com os imbecis com quem tinham de lidar, um pouco cheios de si mesmos. Nada incomum para o Ensino Médio.

 

•••

 

A Rebel Hill sobe gradualmente, se eleva apenas 12 metros acima de Columbine, que se aninha em sua base. Isso é o suficiente para dominar as cercanias imediatas. A meio caminho encosta acima, no entanto, as Rochosas de repente surgem espetacularmente. Cada passo adiante abaixa o planalto ao nível dos olhos, e as montanhas saltam por trás, uma parede marrom irregular erguendo-se direto das Grandes Planícies, que estão entre 600 e 900 metros acima das planícies — intermináveis e aparentemente impenetráveis, desaparecendo acima de todo o horizonte ao norte e na mesma distância ao sul.

Os habitantes as chamam de sopés. A Front Range, que se ergue acima de Columbine, é a cadeia montanhosa mais alta do que os picos mais altos de todos os Apalaches. Estradas e moradias comuns terminam de repente na base do sopé; até mesmo a vegetação luta para sobreviver. Apenas 5 quilômetros de distância e ela passa a impressão de ser o fim do mundo.

Não cresce muita coisa no planalto de Rebel Hill, pois ele é coberto de barro rachado, pontilhado pela ocasional erva daninha mirrada que fracassa em firmar apoio. Mais acima, na metade da distância, a humanidade por fim retorna na forma de loteamentos. Em ruas amplas e serpenteantes e em ruas sem saída, sobrados confortavelmente espaçados surgem por entre os pinheiros. Centros comerciais e campos de futebol, e igrejas, igrejas, igrejas.

A Escola Secundária Columbine fica assentada em um prado com ondulações suaves nos limites de extenso parque, nas sombras das Montanhas Rochosas. É uma instalação grande e moderna — 210 m² de construção sólida, sem firulas. Com exterior de concreto bege e poucas janelas, a escola se parece com uma fábrica de quase todos ângulos. É prática, como as pessoas do sul do condado de Jefferson. Jeffco, como é conhecido pelos habitantes locais, mesquinha nas afetações arquitetônicas, mas generosa nos investimentos em laboratórios químicos, computadores, instalações de vídeos e força de ensino de primeira classe.

Na manhã de sexta-feira, após a assembleia, os corredores estavam um alvoroço de vertiginosa exuberância adolescente. Estudantes debandavam para fora do ginásio e riam, flertavam, corriam uns atrás dos outros e se acotovelavam. Ainda assim, do lado de fora da entrada norte, onde os picos das Rochosas espreitavam ao redor das bordas de Rebel Hill, o clamor de 2 mil adolescentes escandalosos desvanecia para o nada. A estrutura de dois andares e o complexo esportivo envolvendo-a em dois lados eram a única indicação da vigésima maior metrópole dos Estados Unidos. O centro de Denver é apenas 16 quilômetros a nordeste, mas um denso bosque obscurecia a linha do horizonte. Em dias mais quentes, as portas deslizantes da marcenaria ficavam escancaradas, os garotos colocavam as ferramentas de corte em blocos de madeira giratórios e o súbito zumbido dos tornos mecânicos competia com o sistema de exaustão. Mas uma frente fria tinha varrido as altas planícies na quarta-feira, e a temperatura pairava por volta de zero grau enquanto o sr. D dizia aos alunos que os amava.

O frio não impedia os fumantes, e em qualquer dia do ano era possível encontrá-los perambulando por perto, mas raramente dentro, do “fumódromo” oficial, o retângulo de 3 metros por 2,5 metros de grama isolado por postes de telefone de madeira pouco além do estacionamento, a pequena distância do terreno da escola. Era pacífico ali, nada de professores, nada de regras, nada de comoção, nada de estresse.

Eric e Dylan eram presença constante na área dos fumantes. Ambos fumavam a mesma marca: Camel com filtro. Eric a escolheu; Dylan o seguiu.

Nos últimos tempos, os amigos notaram que eles matavam mais aulas e faziam menos tarefas. Dylan se encrencava por dormir nas aulas, Eric estava frustrado e zangado, mas curiosamente impassível também. Certo dia naquele ano, um amigo o gravou em vídeo, sentado à mesa do almoço com outros amigos. Conversavam de ressaltos e válvulas, e o bom preço para um Mazda usado. Eric parecia hipnotizado pelo telefone celular, girava-o em círculos, a esmo. Não parecia ouvir, mas absorvia tudo.

Um rapaz entrou na cantina lotada. “Vai se foder!”, exclamou um dos amigos de Eric, bem abaixo de seu alcance auditivo. “Odeio aquele idiota rançoso!” Outro amigo concordou. Eric se virou devagar e olhou por cima do ombro, com sua indiferença característica. Estudou o rapaz e se virou de volta com menos interesse do que demonstrara em relação ao telefone. “Odeio quase todo mundo”, respondeu inexpressivo. “Ah, sim. Quero arrancar a cabeça dele fora e comer ela.”

O tom de voz de Eric era monótono. Nada de malícia, nada de raiva, quase desinteressado. Ergueu as sobrancelhas quando disse Ah, sim — branda felicitação pela fala inteligente que viria e voltou a se distanciar depois de proferi-la.

Ninguém achou aquela reação incomum, pois estavam todos acostumados com Eric.

Então se lembraram do calouro com quem implicavam e Eric imitou um garoto da educação especial com dificuldades para falar. Uma garota com seios grandes passou por eles e Eric a chamou com um aceno e eles deram em cima dela.

 

03PRIMAVERA

 

A primavera irrompeu sobre a Front Range. As árvores se enchiam de folhas, formigueiros eram erigidos, os gramados ficavam vibrantes durante a breve transição do marrom dormente do inverno para o marrom ressecado do verão. Milhões de pequenas hélices de vagens de sementes de bordo rodopiavam na direção do chão. A febre da primavera infectava as salas de aula: os professores passavam depressa pelos capítulos remanescentes; a garotada se estressava com as provas finais e sonhava com o verão, já os veteranos pensavam no outono vindouro. Columbine tinha uma das melhores reputações acadêmicas do estado; 80% dos formandos seguiam para cursos universitários. Faculdades dominavam as conversas agora: grandes pacotes volumosos de aceitação e envelopes finos de rejeição; visitas de última hora ao campus para reduzir o número de finalistas. Estava na hora de se comprometer com uma universidade, preencher cheques e começar a selecionar as aulas do primeiro semestre. O Ensino Médio tinha praticamente chegado ao fim.

No topo das Rochosas, ainda era inverno. As encostas estavam desimpedidas, mas a neve recuava. A garotada implorava aos pais por um dia de folga da escola para a última descida de snowboard. Uma segundanista evangélica convenceu os pais a deixá-la ir no dia anterior à assembleia do sr. D. Cassie Bernall dirigiu até Breckenridge com o irmão, Chris. Nenhum deles conhecia Eric ou Dylan ainda.

A hora do almoço ainda era importante evento diário e a cantina da Columbine era espaço aberto que se projetava do espaçoso corredor entre a entrada dos alunos no canto sul e a gigantesca escadaria de pedra que podia comportar mais de uma dúzia de estudantes lado a lado. A garotada se referia ao lugar como “área comunal”, que era rodeada por fachada aberta de treliça de traves brancas de aço e toldos, e entrelaçado decorativo de cabos de aço. Em seu interior, uma agitação parecida com colmeia se inflamava na hora do almoço. No início do almoço do turno “A”, mais de seiscentos alunos entravam apressados. Alguns iam e vinham depressa, usavam-na como ponto de encontro ou para pegar um pacote de bolinhos de batatas Tater Tots para viagem. O lugar ficava lotado por cinco minutos, depois esvaziava depressa. De trezentos a quatrocentos jovens algumas vezes se acomodavam durante toda a duração da hora do almoço, em cadeiras de plástico ao redor de mesas móveis que acomodavam de seis a oito pessoas.

Duas horas depois da assembleia, o sr. D trabalhava de monitor do almoço — sua parte favorita do dia. A maioria dos administradores delegava essa tarefa, mas o diretor DeAngelis não se cansava dela. “Meus amigos riem de mim”, contou. “Monitor do almoço! Eca! Mas adoro aquele lugar. É quando você consegue ver a garotada, é quando você consegue conversar com eles.”

O sr. D caminhava pela área comunal, batendo papo com a garotada em cada mesa, parava quando estudantes ansiosos corriam até ele para pedir um pouco de atenção. Ele aparecia na cantina para o início do almoço “A” quase todos os dias. Suas incursões eram joviais e abertas a um papo, pois prestava atenção às histórias dos alunos e os ajudava a resolver os problemas, mas evitava disciplinar no almoço. A única situação em que simplesmente não conseguia se controlar, contudo, era quando via bandejas abandonadas e sobras de comida. A Columbine que o sr. D herdou não tinha muitas firulas, mas ele insistia que permanecesse limpa.

Ficava tão irritado com privilégios e desleixo que tinha mandado instalar quatro câmeras de segurança na área comunal. Um zelador trocava a fita todas as manhãs, por volta das 11h05, e as câmeras rotativas varriam a área de maneira contínua, gravando explosões de ação a cada quinze segundos, automaticamente cortando de uma câmera para outra. Dia após dia, gravavam as imagens mais banais imagináveis. Ninguém poderia imaginar o que essas câmeras capturariam apenas quatro meses após serem instaladas.

 

•••

 

Uma aflição assustadora infectara as cidadezinhas e os subúrbios dos Estados Unidos: o atirador escolar. Sabíamos disso porque víamos essas coisas na TV. Tínhamos lido isso nos jornais. O evento se materializara de maneira inexplicável dois anos antes: em fevereiro de 1997, um adolescente de dezesseis anos na remota Bethel, no Alasca, levou uma espingarda para a escola e abriu fogo. Matou o diretor e um aluno, e feriu dois outros. Em outubro, outro garoto abriu fogo na escola, dessa vez em Pearl, no Mississippi. Dois estudantes mortos, sete feridos. Mais dois ataques irromperam em dezembro, em locais remotos: West Paducah, no Kentucky, e Stamps, no Arkansas. Sete mortos ao final do ano e 16 feridos.

O ano seguinte foi pior: dez mortos e 35 feridos em cinco incidentes isolados. A violência se intensificava na primavera, conforme o ano escolar chegava ao fim, a temporada de tiro, como começou a ser chamada. O autor dos disparos era sempre um garoto branco, adolescente, em cidade plácida que poucos tinham sequer ouvido falar. A maioria dos atiradores agia só e cada ataque irrompia inesperadamente e terminava depressa, portanto a TV nunca capturava o tumulto. A nação assistia aos resultados: cenas intermináveis de escolas cercadas por ambulâncias, dominadas por policiais, vertendo crianças aterrorizadas.

À época da formatura de 1998, a coisa parecia epidemia em grande escala. A cada agravamento, cidadezinhas e subúrbios ficavam cada vez mais tensos. Escolas em grandes centros urbanos eram campos de guerra havia décadas, mas os subúrbios deveriam ser seguros.

O público estava abismado; o pânico era real, mas era justificado? Isso pode acontecer em qualquer lugar se tornou um refrão. “Mas isso não acontece em qualquer lugar”, argumentou o diretor do Instituto de Política Judiciária, Vincent Schiraldi, no Washington Post. “E raramente chega a acontecer.” Um editorial do New York Times destacou o mesmo ponto. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (cdc, na sigla em inglês) fixaram as chances de uma criança morrer na escola como uma em um milhão e se mantinham assim. A “tendência” estava, na verdade, em descendente contínua, dependendo do quão para trás se olhasse.

Mas era novidade para os pais brancos de classe média. Cada novo horror fazia milhões balançarem negativamente a cabeça, se perguntarem quando o próximo pária iria atacar. E então... nada. Durante todo o ano letivo de 1998—99, não surgiu um único atirador sequer. A ameaça desvaneceu, e uma luta distante tomou conta dos noticiários. A lenta desintegração da Iugoslávia voltou a irromper. Em março de 1999, enquanto Eric e Dylan finalizavam seus planos, a Otan decidiu colocar um fim à agressão sérvia em um lugar chamado Kosovo. Os Estados Unidos iniciaram a maior campanha aérea desde a Guerra do Vietnã e enxames de esquadrões de F-15 massacraram Belgrado. A Europa Central estava um caos; os Estados Unidos estavam em guerra. A ameaça suburbana de atiradores escolares reduziu.

 

Dave Cullen é jornalista e escritor, e contribuiu para inúmeras publicações, como o jornal The New York Times. É considerado um dos principais especialistas dos Estados Unidos sobre os assassinos de Columbine.

 

 

Columbine

Dave CullenDarkside480 páginasLançamento em setembro de 2019

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