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‘Essa música não é minha’: dilemas do presente em poesia


O ‘Nexo’ publica trecho de um livro de 28 poesias, escritas entre 1991 e 2018. Do poema 1 ao 14, o autor discorre sobre a impessoalidade. Depois, há um poema que o divide ao meio: uma carta ficcional a uma mulher desaparecida em 2011. Por fim, do poema 15 ao 27, o livro adquire um tom mais amoroso e memorialístico, voltado para espaços familiares e pessoais. Leia abaixo os poemas 1 a 6

#1

 

istambul, cairo, pequim, moscou, reikjavik, e eu aqui

em frente a uma escola desprezada pelo mundo,

a uma padaria onde assam farinha branca como não houvesse istambul, cairo, pequim, moscou, reikjavik, em frente

três postes de concreto cinza

cobertos por fungos de mata atlântica

que já não há

 

— um deles, abandonado, pende para o lado

 

#2

 

e também nisso há sofisticação que impede a melancolia, a nostalgia

qualquer tipo de fetichismo

não

é real demais para ser complicado

é simples

às vezes é cruel

 

 

 

#3

 

Há no quilômetro 412 da Raposo Tavares, sentido Ourinhos, uma grande propriedade onde se planta cana-de-açúcar. À mar- gem do terreno correm os de arame farpado presos a estacas pré-fabricadas de concreto. Junto a cada uma delas, um pé de planta qualquer. Quase uma centena. Ultrapassam as estacas em altura, os caules nos, as folhas verde-escuras, uns pequenos chumaços de copa, e ores.

 

#4

 

o casal

sobre as folhas secas

do parque central

            tão coloridas em suas mortes

            sazonais

 

não sentem

moverem-se por eles

os segundos e os elétrons

os soldados, seus exércitos

 

#5

            carros passam

 

as pombas da praça

da república voam, pousam

 

            voltam os carros

 

e depois voam

 

            vez ou outra um ônibus

                        passa

                        e não para

 

#6

 

Por um minuto, por entre frestas mal calculadas, um feixe de luz solar trespassa o prédio de leste a oeste e se perde no ar para só se repetir daqui a um ano — se as cortinas não estiverem fechadas, se o dia não estiver nublado, se uma parede não for levantada, se ainda houver alguém sentado aqui.

 

Roberto Taddei publicou os romances “Existe e está aqui e então acaba”, em 2014, e “Terminália”, em 2013. Escreve para o jornal Folha de S.Paulo e colaborou com O Estado de S. Paulo, além dos extintos Jornal da Tarde e Diário do Comércio. É coordenador da pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz, mestre em criação literária pela Columbia University e editor da revista Revera – escritos de criação literária.

 

Essa música não é minha

Roberto TaddeiQuelônio48 páginasLançamento em setembro de 2019

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