‘Escravidão’: do 1º leilão à morte de Zumbi dos Palmares


O ‘Nexo’ publica trecho do primeiro volume de trilogia dedicada à história da escravidão no Brasil. O livro de estreia reúne ensaios e reportagens sobre o período de 250 anos entre o primeiro leilão de cativos africanos registrado em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares. Para a obra, o autor realizou seis anos de pesquisa, em doze países de três continentes. Leia abaixo, parte do 9º capítulo, “A África”

“Um grande e contínuo formigueiro negro.”Missionários capuchinhos, ao descrever o Reino de Aladá, em 1662

 

Cerca de duzentos anos antes das viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, mansa Mohamed, rei do Mali, maior produtor mundial de ouro até a descoberta de pedras e metais preciosos em Minas Gerais, no século 18, teve um presságio. Ao contemplar o Atlântico a partir de seus domínios na costa da África, Mohamed intuiu que seria possível chegar à outra margem do oceano, ou seja, ao lugar que muito mais tarde seria chamado de Brasil. Para isso, organizou uma expedição de duzentas embarcações que se lançaram ao alto-mar. Apenas uma voltou, com a notícia de que todas as demais haviam perecido. Inconformado, Mohamed preparou uma segunda flotilha, com 2 mil canoas, água e provisões para muitas semanas de viagem. Em uma delas, seguia o próprio soberano. E novamente partiram todas em direção poente. Dessa vez, porém, nunca mais se teve notícia de nenhum dos viajantes. Essa fabulosa epopeia foi contada anos mais tarde na cidade do Cairo, capital do Egito, por mansa Musa, filho e sucessor do rei desaparecido no mar, e foi registrada pelo cronista árabe Al Umari.

 

Mansa Musa foi, ele próprio, personagem de outra aventura épica. Em 1324, fez uma peregrinação a Meca, a cidade santa do islã situada na atual Arábia Saudita, à frente de uma comitiva composta por milhares de pessoas, incluindo nobres, soldados e escravos, além de cem camelos cobertos de ouro. Os cativos, entre 9 mil e 14 mil no total, funcionavam como os modernos cheques de viagem, que iam sendo resgatados ao longo do caminho de acordo com as necessidades da caravana. Só no Cairo, mansa Musa teria vendido 4 mil escravos. Antes de entrar em Meca, enviou de presente ao sultão Al-Malik al-Nasir 50 mil dinares em moedas de ouro, cada uma delas pesando cerca de quatro gramas. Depois, entrou a cavalo na cidade seguido de quinhentos escravos, cada um deles carregando um bastão de ouro. Ao longo de toda a viagem, que teve meses de duração, mansa Musa teria esbanjado mais de uma tonelada de ouro. Tanto metal precioso despejado de uma só vez no mercado fez com que, durante anos, o seu preço se desvalorizasse em relação à prata em toda a região do Oriente Médio. Essas duas histórias, que bem caberiam nas páginas de As mil e uma noites, obra clássica da literatura islâmica, são um exemplo do quão complexa, diversa, culturalmente sofisticada e até mesmo rica, em algumas regiões, era a África antes do início do tráfico de escravos para a América. É, no entanto, uma perspectiva que se perdeu no tempo. Infelizmente, a visão que se tem ainda hoje do continente reflete o preconceito e a ignorância dos próprios europeus que, na época, viam todos os africanos como bárbaros, selvagens e infiéis, estranhos à fé católica e distantes da supostamente avançada civilização europeia. O desconhecimento a respeito da história, dos costumes e da geografia da África aparece nas denominações que os navegadores portugueses atribuíam aos lugares e povos que iam encontrando à medida que avançavam pela costa do continente.

Expressões genéricas como Etiópias (no plural), Guiné ou Negrolândia eram usadas na cartografia da época para identificar regiões desconhecidas ou nunca exploradas. Em 1730, um mapa desenhado sob orientação do geógrafo real da França, Guillaume Delisle, mostrava uma dessas regiões inventadas, a Nigrita (Nigritie, em francês). Situada entre a Barbária e a Guiné, a Nigrita dos franceses ocuparia uma vasta região abaixo do deserto do Saara, entre a Núbia, vizinha do Egito, até as nascentes do rio Níger — que, por sinal, alguns cartógrafos europeus julgavam ser um braço do Nilo, embora os dois cursos d’água estejam a 5 mil quilômetros de distância um do outro. Segundo acreditavam os capitães dos navios negreiros, viriam da Nigrita os escravos vendidos no Golfo da Guiné, mais ao sul. A expressão Guiné — que hoje dá nome a três países africanos, a Guiné-Bissau, a República da Guiné (também chamada de Guiné-Conacri) e a Guiné Equatorial — foi uma construção imaginária dos cartógrafos europeus, tanto quanto as Etiópias, a Nigrita ou a Barbária. Ao longo de vários séculos foi usada para denominar diferentes partes do continente. No mapa de 1730, de autoria do francês Delisle, Guiné servia para identificar todo o trecho da costa africana entre os rios Senegal e Gabão, enquanto, em outro mapa do ano anterior, também desenhado na França, a Guiné começava no rio Serra Leoa e terminava no rio Camarões. Entre o primeiro e o segundo, haveria uma diferença de quase 2 mil quilômetros. Ao norte da Guiné, entre os atuais Senegal, Gâmbia e Mauritânia, ficava a Senegâmbia, mais uma invenção cartográfica europeia e a primeira das grandes fontes de escravos na história do tráfico no Atlântico.

 

Laurentino Gomes é formado em jornalismo e tem pós-graduação pela Universidade de São Paulo. Membro titular da Academia Paranaense de Letras, é seis vezes ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura. É autor de “1808”, sobre a fuga da corte portuguesa de dom João para o Rio de Janeiro; “1822”, sobre a Independência do Brasil; e “1889”, sobre a Proclamação da República. O seu primeiro livro, “1808”, foi eleito o Melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras.

 

 

Escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares

Laurentino GomesGlobo Livros 480 páginasLançamento em 30 de agosto de 2019, na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro

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