Ir direto ao conteúdo

‘O inimigo do povo’: os entraves ao jornalismo do governo Trump


O ‘Nexo’ publica trecho do livro escrito pelo correspondente da CNN na Casa Branca que chegou a ter sua credencial retirada pelo presidente dos Estados Unidos em 2018. O livro, que será lançado na 19ª Bienal do Rio, fala sobre as dificuldades e os perigos enfrentados por jornalistas durante o governo Donald Trump. Leia abaixo, parte do 2º capítulo, ‘A primeira mentira’

O dia da posse finalmente chegou, e eu tinha um trabalho a fazer. Minha missão naquele dia era cobrir o presidente, no caso o presidente Donald J. Trump, a partir da Casa Branca — bom, para ser mais preciso, eu estaria no meio do Gramado Norte da Casa Branca. Sim, bem lá no meio, de onde faria minha entrada ao vivo relatando aquele que seria o primeiro de muitos dias surreais do atual governo.

Era estranho ficar ali. Normalmente a imprensa entrava ao vivo da “Praia de Cascalhos”, o palanque preparado para a mídia, coberto por uma tenda no extremo oeste do Gramado Norte. Mas, naquele dia, a Casa Branca e o Serviço Secreto deram autorização para que trabalhássemos no meio do gramado da frente da Mansão Executiva, onde havia sido colocado um longo tapete azul ligando a porta da frente da Casa Branca ao palanque de honra construído para o Desfile de Posse. Essa posição invejável me permitiria observar os movimentos de Trump quando ele saísse do trajeto do desfile e caminhasse até a Casa Branca pela primeira vez como presidente.

Um pensamento me ocorreu: eu estava em posição gloriosa para fazer uma pergunta ao novo presidente.

Mas, antes mesmo de Trump chegar, já tínhamos uma notícia em nossas mãos. As arquibancadas ao longo do trecho para pedestres da avenida Pensilvânia em frente à Casa Branca estavam em grande medida vazias. Havia várias fileiras sem ninguém. Claro, havia milhares de pessoas ladeando o trajeto do desfile, mas a minha experiência na cobertura das posses de Barack Obama me dizia que esses lugares não deviam estar vazios. Trump notaria isso (qualquer um notaria). E, Trump sendo Trump, não ficaria feliz.

Os lugares vazios indicavam que ou a plateia reunida para a posse era muito menor do que a das duas posses de Barack Obama, ou o comitê encarregado da organização da posse tinha falhado ao não conseguir lotar aquelas arquibancadas — ou, talvez, um pouco dos dois. Essa imagem inequívoca das arquibancadas vazias, assim como as imagens de uma multidão em geral menor que as anteriores, se tornaria parte de uma história decisiva que estava prestes a ser revelada.

Apesar do tom sombrio do discurso de posse de Trump, em que ele falou que uma “carnificina americana” estava destruindo o país, o novo presidente estava de bom humor. Enquanto ele e a primeira-dama, Melania Trump, atravessavam o Gramado Norte, decidi perguntar — está bem, gritar — uma pergunta bastante tranquila. Pelo menos dessa vez, levantei para ele cortar.

“Como foi o dia, sr. presidente?”, perguntei.

“Foi incrível”, respondeu ele com um sorriso. Melania, que até aquele momento sempre tinha sido um rosto amigável, pareceu também estar genuinamente feliz.

Muitos colegas me mandaram e-mails me parabenizando por receber uma resposta de Trump. Que bom para você, Jim, alguns me disseram. Era um sinal, eles pensavam, de que haveria paz com a imprensa ou com a CNN, ou talvez apenas comigo. Mas, tendo feito a cobertura de sua campanha, eu sabia que aquilo era apenas Trump sendo Trump. Ele é capaz de ser encantador, mesmo com as pessoas que ele vê como oposição. Ainda assim, aquele era o dia dele. Era a posse dele. Não tem como eu gritar uma pergunta dura e me safar, pensei. O momento de fazer essas perguntas vai chegar. E chegou.

Na verdade, esse momento chegou muito antes do que qualquer um de nós poderia imaginar. Para muitos americanos que tinham votado contra Trump, as duas primeiras semanas do novo governo confirmaram que o pesadelo estava se tornando real. Embora eu achasse que tinha visto de tudo na campanha, houve alguns momentos chocantes até mesmo para mim. Na verdade, as duas principais controvérsias naquelas semanas, a guerra do governo contra a mídia e suas políticas duras contra a imigração, eram questões profundamente pessoais. E o surgimento delas num momento tão inicial ajudaram a dar o tom de como seria boa parte da minha cobertura nos anos que se seguiram.

Começou no sábado, 21 de janeiro, primeiro dia completo de Trump como presidente. Bastava olhar pelas janelas da residência da Casa Branca naquela manhã para que Trump visse e ouvisse que estava comandando uma nação dolorosamente dividida. O protesto em frente à Casa Branca era tão alto que se podia ouvir de dentro da sala do encontro diário com a imprensa. Portanto, Trump também podia ouvir.

Trump teria a oportunidade de ver com os próprios olhos um pouco dessa democracia em ação ao fazer seu trajeto rumo à Virgínia para o ponto alto de sua agenda naquele dia, uma visita à CIA, em Langley. Ele não estava feliz com a CIA na época. Trump culpava a comunidade de inteligência pelos vazamentos para a imprensa de informações comprometedoras que o governo russo poderia ter sobre ele, sem contar todas as histórias sobre a interferência do Kremlin a seu favor na eleição.

Mas o presidente estava agitado por outro motivo. Como faz com frequência, Trump tinha assistido ao noticiário naquela primeira manhã no cargo e ficou furioso com as reportagens informando que a multidão de sua posse, embora fosse decente, tinha sido bastante modesta quando comparada às últimas posses, especialmente as de seu desafeto, Barack Obama.

Mais tarde, Trump deixou clara sua mágoa em um discurso duro na CIA. De pé em frente a um memorial dedicado aos agentes falecidos da CIA, o presidente criticou severamente a imprensa, acusando os jornalistas de mentir deliberadamente sobre o tamanho de sua posse. “Fake news”, gritou ele.

“É uma mentira”, disse o novo presidente na CIA.

“Eu estou em guerra com a mídia”, continuou, como se estivesse em um comício de campanha. “Eles estão entre os seres humanos mais desonestos do planeta.” Para Trump, não havia diferença entre um ginásio de hóquei no oeste da Pensilvânia e o centro nervoso da comunidade de inteligência dos Estados Unidos.

“Tínhamos uma multidão imensa. Vocês viram. Lotado. Levanto hoje, ligo em um dos canais, e mostram um lugar vazio. Eu disse, espere aí, eu fiz um discurso. Eu olhei, parecia... parecia que tinha um milhão, um milhão e meio de pessoas. Eles mostraram um lugar em que não tinha praticamente ninguém.”

Não era verdade, mas ele foi em frente.

“Francamente, parecia ter um milhão e meio de pessoas. Não sei o número, mas que seja. Tinha gente até no Monumento a Washington. E eu ligo e, por engano, vou parar nesse canal, e mostram um lugar vazio. Disseram que havia 250 mil pessoas. Olha, não seria ruim, mas é uma mentira. A gente colocou 250 mil pessoas literalmente na área à nossa volta — vocês sabem, no pequeno ginásio que construímos. Ali tinha 250 mil pessoas. O resto da área de vinte quadras, até o Monumento a Washington, estava lotado.”

Eu sabia muito bem desde a época da campanha que Trump é obcecado com o tamanho de sua plateia. Ele reclamava em todo comício que os cinegras (o nome que o pessoal da TV usa para os operadores de câmera) em seus eventos não desviavam suas câmeras do palco para mostrar as milhares de pessoas que tinham ido assistir a seus discursos. Ele atormentava os repórteres se por acaso ousassem mostrar lugares vazios em suas matérias. Para Trump, o tamanho da plateia era tão importante ou mais do que qualquer coisa que um jornalista viesse a dizer sobre o conteúdo de seus discursos. Criticou sua retórica? Sem problemas. Disse que havia pouca gente na plateia? Problemão.

Ressuscitar tudo isso durante a visita à CIA era particularmente problemático. Com a população dividida quanto a seu novo presidente, Trump estava aumentando suas apostas nos ataques à mídia em um lugar sagrado — um local onde agentes da CIA são homenageados por seu sacrifício ao país, por defender a mesma democracia que deveria proteger uma imprensa forte e livre nos Estados Unidos. Para espanto de muitas pessoas na sala, e certamente de muitas pessoas no mundo, houve quem aplaudisse os novos disparos de Trump contra os jornalistas. Como tantos episódios que estavam por vir neste governo, era um fato a um só tempo chocante e perturbador.

Seja como for, o recado estava dado: essa era a CIA de Trump agora. Ele estava no comando de uma agência poderosa que, em tese, poderia ser usada para o mal. Era um lembrete desanimador para a imprensa, eu pensei, o fato de nossas liberdades estarem potencialmente em perigo. Mas Trump e sua nova equipe estavam longe de encerrar seus ataques raivosos contra a imprensa.

 

Jim Acosta é correspondente da Casa Branca da CNN. Atualmente, cobre o governo de Donald Trump. Foi responsável também pela cobertura do governo de Barack Obama. Acosta acompanha entrevistas coletivas, visitas de chefes de Estado e assuntos relacionados ao governo federal americano.

 

O inimigo do povo

Jim AcostaHarper Collins384 páginasLançamento em 1º de setembro de 2019, na Bienal do Livro Rio

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!