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‘História pública’: questões sobre a divulgação de história


O ‘Nexo’ publica trecho do livro que traz três entrevistas e seis artigos de historiadores que desenvolvem ou participam de projetos de divulgação de história no Brasil. Os textos abordam experiências em diferentes mídias, como a internet, o audiovisual, o jornalismo e os livros, e expõem estratégias, dados, erros e acertos. Leia abaixo, parte da introdução

Em entrevista concedida a Francesco Maiello no início dos anos 1980, o historiador francês Jacques Le Goff destacou o “triunfo da história” em nossa sociedade.

“Refiro-me à procura do grande público a que assistimos. Se lançarmos um olhar pela imprensa, pelas revistas, pelos livros, pelos mass media como o rádio e a televisão, pelo número de obras históricas publicadas pelas editoras e pelas respectivas vendas, o triunfo da história é inegável; é uma realidade para a qual os próprios interessados não estavam preparados.” (2009, p. 8)

Le Goff, contudo, de forma perspicaz, advertiu seu entrevistador logo adiante: “desejaria fazer-lhe notar que, quando falei de êxito e de triunfo, falei da História e não do historiador” (p. 11).

Passados 40 anos, o “triunfo da história” não apenas persiste como também se desdobrou em outros tantos objetos que são vorazmente consumidos no meio social: biografias, blogs, documentários, podcasts, filmes, palestras, jogos de tabuleiro, jogos eletrônicos, jogos de cartas, eventos comemorativos, aplicativos, vídeos, um canal de televisão totalmente dedicado à História e toda sorte de “produtos históricos”. A grande questão para nós que fazemos da interpelação do passado um ofício é que, tal como antes, essa demanda social continua a ser pela História e não por historiadores.

O antigo diagnóstico feito por Le Goff refere-se sobretudo aos países europeus e aos Estados Unidos, mas parece se aplicar também ao Brasil. No país, temas históricos têm desfrutado de grande popularidade, mas isso não quer dizer que os historiadores ocupem um lugar proeminente em nosso meio social, ou que sejam eles a principal referência desse enorme público interessado em História.

 

Na verdade, são ainda poucos os historiadores que têm se dedicado a divulgar o resultado de seu próprio trabalho para o grande público. Mesmo aqueles que se interessam pela audiência ampliada, a despeito de toda a qualidade que possam ter, estão longe de ser os mais influentes. São os jornalistas, os grandes veículos de mídia e os cada vez mais onipresentes criadores de conteúdo para a internet, em sua maioria independentes, que detêm os recursos e as habilidades para falar com o público leigo e o poder de determinar os temas e as discussões históricas circulantes no meio social. 

Outros tempos de divulgaçãoNem sempre foi assim. No século 19, antes de a disciplina se estabelecer na universidade, a imprensa foi um lugar de trânsito para aqueles que atuavam como historiadores. A História aparecia aí de forma bastante difusa. Esses historiadores escreviam colunas, memoriais, obituários, faziam análises políticas, descreviam perfis de homens poderosos, anunciavam livros de História que tinham acabado de chegar da Europa, documentavam suas viagens, descobertas e, em alguns casos, publicavam fascículos que mais tarde seriam lançados como livro. Também naquele século, podemos dizer que o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) esteve à frente de práticas que podemos considerar de divulgação de História. São conhecidos seus concursos sobre História do Brasil, notas publicadas na imprensa, revista e reuniões.

No século 20, esse tipo de divulgação vai ganhar um novo e grande impulso com o processo de modernização do mercado editorial brasileiro. O escritor Monteiro Lobato e o seu sócio, Marcondes Ferreira, tiveram aí um papel pioneiro quando fundaram, em 1925, a Companhia Editora Nacional. Repetindo uma prática já corriqueira no mercado europeu, a editora de Lobato e Ferreira investiu no formato de coleções. Em 1931, lançou uma das principais de seu catálogo, a “Brasiliana”, parte então de um projeto maior e mais ambicioso intitulado “Biblioteca Pedagógica Brasileira”. A coleção estreou justamente com uma obra histórica: Figuras do Império, de Antônio Baptista Pereira. No total, mais de 400 obras foram publicadas até 1993, quando a “Brasiliana” foi descontinuada (Hallewell, 2017, p. 78).

Muitos nomes da História e das Ciências Sociais no Brasil participaram da “Brasiliana”. Sérgio Buarque de Holanda publicou dentro da coleção um de seus mais famosos ensaios sobre o desenvolvimento histórico brasileiro, Visão do paraíso: Os motivos edênicos no descobrimento e na colonização do Brasil. Já Gilberto Freyre contribuiu com três obras: Sobrados e mucambos, Novo mundo nos trópicos e O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século 19. Estão na coleção ainda muitos outros livros que se tornaram famosos no pensamento historiográfico brasileiro, tais como História econômica do Brasil (1500-1820), de Roberto C. Simonsen, Estudos sobre história do Brasil, de Ernesto Ennes, e Estudos de história colonial, de Hélio Vianna.

A “revolução” editorial da Companhia Editora Nacional foi fundamental para conectar os historiadores e a sua produção com o público-leitor da primeira metade do século 20. Tamanho sucesso editorial certamente deve-se e muito ao pensamento inovador de seus autores. Mas a explicação do sucesso vai além da genialidade dessas obras. A Companhia Editora Nacional trouxe elementos técnicos importantes para a dinamização do mercado editorial brasileiro. A editora produziu obras que eram visualmente atraentes, com papel de boa qualidade, cores nas capas e desenhos de ilustradores renomados. A distribuição foi outro fator importante, já que impactou diretamente na circulação social dos livros. Seguindo “novos métodos comerciais, que incluíam a venda de livros em açougues, lojas de ferramentas, bazares, farmácias, bancas de jornal, papelarias da capital e do interior, de forma a alcançar o leitor nos lugares em que ele pudesse estar”, Lobato e Ferreira pareciam obstinados a realizar a missão que definiram para a empresa no ano de sua fundação: “inundar o país com livros” (Dutra, 2004, p. 5).

 

O exemplo da Companhia Editora Nacional foi seguido por diversas outras iniciativas no campo editorial. Nas décadas seguintes, surgiram as coleções Documentos Brasileiros, da Editora José Olympio, Reconquista do Brasil, da Editora Itatiaia, Memória Brasileira, da Melhoramentos, História Geral da Civilização Brasileira, da Difusão Europeia do Livro (Difel), Dimensões do Brasil, da Vozes, Retratos do Brasil, da Civilização Brasileira, Biblioteca Cultura Histórica, da Zahar e, mais recentemente, nos anos 1980, o sucesso estrondoso da Editora Braziliense, Tudo é história, coleção de bolso que marcou época. Em todas essas coleções, os historiadores estiveram presentes, difundindo suas ideias e formando leitores.

Além do mercado editorial, não podemos desconsiderar o papel que tiveram os museus históricos neste século, com destaque para o Museu Imperial e, principalmente, para o Museu Histórico Nacional, que, no período de 40 anos, entre 1920 e 1960, refletiu as grandes transformações da historiografia e da museologia, oferecendo ao público uma representação da história que ia da exaltação dos heróis e de mitos fundadores da nação, algo apregoado sobretudo pelo Museu Histórico Nacional dirigido por Gustavo Barroso, até uma visão mais crítica e questionadora quanto ao passado nacional, em sintonia com as mudanças no campo historiográfico internacional (Santos, 1984).

Mais recentemente, podemos destacar o sucesso da Revista de História da Biblioteca Nacional (RHBN) entre 2003 e 2015. Distribuída em escolas, vendida em bancas de jornal em todo o país, coordenada por um historiador e com um conselho editorial que reunia os grandes nomes da historiografia nacional, a RHBN foi, durante muito tempo, o principal meio de divulgação de História para o grande público. Inspirou outras publicações segmentadas na área de História e abriu caminho para que os historiadores estivessem mais presentes em jornais e em revistas não especializadas.

Os historiadores e a divulgação nos dias de hojePor que os historiadores não são os protagonistas na divulgação de História hoje? Nós temos duas hipóteses. Em primeiro lugar, devemos ter em tela que a divulgação da História para o grande público poucas vezes foi tomada como uma prioridade por historiadores, centros de pesquisa, departamentos e programas de pós-graduação em História. Uma vez institucionalizada, a História foi bem-sucedida no plano escolar, na pesquisa e na montagem de um robusto circuito de comunicação voltado aos pares, composto por congressos, periódicos científicos, seminários e conferências. Porém, a divulgação para o grande público, com algumas importantes exceções, permaneceu muito mais nas mãos de profissionais de outras áreas.

Esse afastamento da prática da divulgação talvez se explique pela permanência de certas desconfianças diante do processo de popularização da História, cujas manifestações podem ser encontradas desde o século 19, quando a disciplina estava em processo de institucionalização. Antonio Paulo Benatte sublinha que manuais de Introdução aos Estudos Históricos, como o desenvolvido por Charles Langlois e Seignobos no final daquele século, acreditavam que o desejo de “impressionar” o público levaria até mesmo os melhores historiadores a “afrouxarem, de certo modo, o rigor científico e a incidirem nos mesmos e condenados hábitos da antiga historiografia” (Benatte, 2000, p. 74). Pouco a pouco, assim, a retórica, a narrativa e o estilo foram deixados em segundo plano na escrita da História – o que, não se deve subestimar, trouxe prejuízos para a sua divulgação. José Murilo de Carvalho faz uma avaliação semelhante à de Benatte, porém levando mais em conta o caso brasileiro:

“Preocupados legitimamente em distinguir seu trabalho do de outros profissionais, sobretudo de jornalistas, nossos historiadores acabaram desenvolvendo um estilo que se aproxima da linguagem empolada e tortuosa condenada por [Carl von] Martius. Jargões, erudição desnecessária ou deslocada, ou pura obscuridade, afastam o grande público de nossos textos. Chegou-se ao ponto de identificar simplicidade com superficialidade.” (Carvalho, 2003, p. 96)

Mesmo quando os historiadores estiveram envolvidos com a divulgação de História, essa participação foi bem delimitada. Sérgio Buarque de Holanda se tornou muito conhecido por causa das coleções que coordenou e para as quais escreveu, sobretudo entre um público mais intelectualizado, mas jamais reproduziu, no Brasil, a popularidade que historiadores como Georges Duby e Jacques Le Goff tiveram na França.

Também jamais tivemos no Brasil um historiador como A. J. P. Taylor, que soube como poucos, na Grã-Bretanha, arregimentar a atenção do grande público com programas transmitidos pela televisão e pelo rádio (Burke, 2012, p. 138-9). No Brasil, quem mais chegou próximo desse tipo de popularização da História foi Viriato Corrêa (1884-1967), jornalista, bacharel em Direito, dramaturgo e político, que conduziu programas de rádio sobre História e escreveu livros históricos infantis. Seu História do Brasil para crianças, publicado pela Companhia Editora Nacional em 1934, se tornou um best-seller no país, chegando a ter tiragens de cinco mil exemplares e sendo adotado em escolas (Fernandes, 2009).

A partir da segunda metade do século 20, mesmo quando os departamentos de História estavam em plena atividade nas principais universidades brasileiras, não houve um grande projeto de divulgação de História por parte da academia para o “grande público”. A participação dos historiadores no meio social se deu, como vimos há pouco, em algumas ocasiões na imprensa e no mercado editorial. Mas essas participações, em grande parte dos casos, não surgiram de iniciativas universitárias, embora contassem, por vezes, com o importante envolvimento de historiadores que estavam na universidade; surgiram de projetos capitaneados por editoras e veículos de comunicação. O engajamento do meio acadêmico de História com o grande público no Brasil não foi maior não por uma incapacidade da área em falar com o grande público, mas porque a divulgação de História, a partir de uma perspectiva de divulgação científica para o público em geral, raramente foi pensada estrategicamente ou como projeto de longo prazo.

A relação dos historiadores profissionais com o grande público tem se resumido quase sempre ao período escolar, quando o aluno está em contato frequente com o profissional de História (professor) e com o conhecimento historiográfico. Trata-se de uma relação que tem, portanto, duração muito limitada: os anos da formação básica. Porém, depois que deixam a escola, as pessoas continuam a aprender sobre o passado e a formar sua consciência histórica. Nesse período, justamente o mais longo na vida de um indivíduo, a presença do historiador é, quase sempre, apenas episódica.

Em segundo lugar, é preciso levar em conta os impactos do paradigma digital no meio historiográfico, que alterou radicalmente os mecanismos de consagração e autoridade. Erudição, títulos, docência, pesquisa ou vinculação institucional não necessariamente asseguram, hoje, prestígio, credibilidade ou autoridade ao enunciador do discurso – elementos que o historiador costumava acumular no mundo analógico e que estavam no cerne do seu reconhecimento social. No meio digital, credibilidade e autoridade dependem principalmente de outros dois elementos: a capacidade de dominar a nova linguagem digital, garantindo presença no novo “espaço público”, e a capacidade de alcançar grandes audiências, medida pelo número de cliques, compartilhamentos, visualizações, curtidas, seguidores e outras interações.

A credibilidade no meio digital, dessa forma, assenta-se no alcance e no domínio da técnica, o que favoreceu situações em que a legitimidade do conhecimento científico produzido pelo historiador – e por profissionais de outras áreas acadêmicas, vide as polêmicas entre a área da saúde e parte do público geral sobre vacinas – seja levianamente questionada ou mesmo ignorada em um ambiente digital em que tantas outras vozes competem com discursos sobre o passado (Carvalho, 2018, p. 173).

A existência de narrativas históricas produzidas por não historiadores não constitui um problema em si – o historiador não detém e nunca deterá o monopólio dessa fala (e isso é saudável). O problema, a nosso ver, é o que parte dessas narrativas históricas circulantes no meio social está produzindo em termos de sentido: essa história não recorre a questões ou a problemas; é uma história que quase sempre relaxa, estabiliza; uma história que fornece referências identitárias em conformidade com a expectativa do leitor; uma história reconfortante e que elimina a tensão inerente às relações sociais. Essa história é uma espécie de “história mestra” repaginada.

Mais grave ainda são aquelas narrativas que, embora atendendo a uma agenda exclusivamente política, se apresentam como apolíticas e buscam deslegitimar o trabalho do historiador, algo com que os especialistas em estudos do Holocausto, por exemplo, têm se deparado com frequência desde os anos 1970, quando grupos negacionistas, especialmente da extrema-direita, começaram a se tornar populares em diversos países.

Nós, historiadores e historiadoras, não somos invisíveis e o nosso trabalho não se tornou irrelevante, mas o nosso alcance social, que já não era ideal, tem se tornado menor nos últimos anos. Essa situação tem mobilizado um número enorme de profissionais da área de História, atuem eles em escolas, universidades, museus, arquivos ou em outros tantos lugares que se valem de suas competências como historiadores. Esses profissionais se veem desafiados todos os dias a compreender o seu papel social e principalmente o seu lugar na divulgação do conhecimento historiográfico no meio público – precisamos encontrar modelos, estratégias e parâmetros que se comuniquem mais e melhor com os diferentes públicos, não porque o saber produzido pelos historiadores seja necessariamente superior a outros saberes sobre o passado e, assim, teríamos um compromisso messiânico em livrar o meio social dos “falsos profetas do passado”, mas sim porque acreditamos que o nosso trabalho pode contribuir efetivamente para melhorar a qualidade do debate público e promover uma sociedade mais livre e autônoma.

Bruno Leal Pastor de Carvalho é professor adjunto do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília (UnB) e professor-colaborador do Programa de Pós-Graduação em História Pública da Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Pós-doutor em História Social pela UFRJ, pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica, além de crimes nazistas e justiça no pós-guerra. É também conselheiro da ANPUH-DF e fundador do portal Café História.

Ana Paula Tavares Teixeira é mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais da Fundação Getúlio Vargas (PPHPBC/FGV) e formada em Comunicação Social -  jornalismo pela UERJ. Trabalhou na Fundação Roberto Marinho e na Globosat, no Rio de Janeiro, e desenvolve trabalhos no campo da História Intelectual e Divulgação Histórica. É também subeditora do Café História.

História pública e divulgação de história

Bruno Leal Pastor de Carvalho e Ana Paula Tavares TeixeiraLetra e Voz160 páginasLançamento em 15 de agosto de 2019

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