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‘Querido Diego, sua Quiela’: cartas sobre arte e silêncio


Pouco se fala sobre o primeiro casamento do pintor mexicano Diego Rivera, com Angela Beloff (ou Quiela). Em Paris, nos anos 1920, a artista plástica russa viveu o luto do filho, morto aos 14 meses, e o silêncio do marido, que voltou ao México e logo se casou com outra mulher. O ‘Nexo’ publica as três primeiras cartas do romance epistolar que reconstruiu nove meses de cartas suas, sem respostas

19 de outubro de 1921No estúdio tudo permanece igual, querido Diego, seus pincéis se erguem no copo, muito limpos, como você gosta. Entesouro até o mais ínfimo papel em que você tenha traçado uma linha. De manhã, como se você estivesse presente, sento-me a preparar as ilustrações para a Floreal. Abandonei as formas geométricas e me sinto bem fazendo paisagens um tanto sofridas e cinzentas, desvanecidas e solitárias. Sinto que também eu poderia desvanecer com facilidade. Assim que as publicarem, enviarei a revista. Vejo seus amigos, sobretudo Élie Faure, que lamenta o seu silêncio. Sente sua falta, diz que Paris sem você está vazia. Se ele diz isso, imagina o que direi eu. Meu espanhol avança a passos gigantescos e para que possa comprová-lo anexo esta fotografia, na qual escrevi especialmente para você: “Tu mujer te manda muchos besos con esta, querido Diego. Recibe esta fotografía hasta que nos veamos. No salió muy bien, pero en ella y en la anterior tendrás algo de mí. Sé fuerte como lo has sido y perdona la debilidad de tu mujer”.Beija-o uma vez mais,Quiela

 

7 de novembro de 1921Nem uma linha sua e o frio não recua na intenção de nos congelar. Começa um inverno crudelíssimo e me lembra de outro que você e eu gostaríamos de esquecer. Você abandonava até a pintura para ir atrás de combustível! Lembra como os Severini levaram um carrinho de mão desde Montparnasse até além da barreira de Montrouge, onde conseguiram meio saco de carvão? Hoje de manhã, ao alimentar nossa pequena estufa, penso em nosso filho. Lembro-me das casas ricas que tinham calefação central com todo o luxo, eram, creio, caldeiras que funcionavam a gás, e de como os Zeting, Miguel e Maria, levaram o menino para o apartamento deles em Neuilly para preservá-lo. Eu não quis deixar você. Tinha certeza de que sem mim não interromperia o trabalho sequer para comer. Eu ia ver o menino todas as tardes enquanto você se absorvia em “O matemático”. Caminhava pelas ruas de neve enegrecida, enlodada pelas pisadas dos pedestres, e meu coração batia muito forte com a perspectiva de ver meu filho. Os Zeting me disseram que assim que ele se recuperasse o levariam a Biarritz. Comovia-me o cuidado com que tratavam o menino. Maria, sobretudo, o tirava do berço — um berço lindíssimo como Dieguito nunca teve — com um cuidado de enfermeira. Ainda a vejo afastar as mantas brancas, os lençoizinhos bordados, para que eu pudesse vê-lo melhor. “Hoje teve uma noite muito boa”, murmurava contente. Velava-o. Ela parecia a mãe, eu, a visita. Era isso mesmo, mas não me causava ciúme, ao contrário, eu agradecia aos céus a amizade dos Zeting, as mãos doces da jovem Maria vestindo meu filho. Na volta para casa, via os rostos sombrios dos homens na rua, as mulheres envoltas em seus cachecóis, nem uma só criança. As notícias sempre eram más e a concierge se encarregava de dá-las. “Falta leite em toda Paris” ou “Dizem que vão interromper o sistema municipal de bombeamento porque não há carvão para que as máquinas continuem funcionando” ou ainda “A água congelada está arrebentando as tubulações”. “Meu Deus, vamos todos morrer.” Depois de vários dias, o médico atestou que Dieguito estava fora de perigo, que tinha passado a pneumonia. Logo poderíamos levá-lo para o ateliê, conseguir algum carvão, os Zeting iriam vê-lo, nos levariam chá, do tanto de chá que traziam de Moscou. Mais tarde viajaríamos a Biarritz, os três juntos, o menino, você e eu, quando você tivesse menos trabalho. Eu imaginava Dieguito tomando sol, Dieguito sobre suas pernas, Dieguito em frente ao mar. Imaginei dias felizes e bons, tão bons como os Zeting e sua casa em meio aos grandes pinheiros que purificam o ar, como me contara Maria, casa em que não havia privações nem racionamento, em que nosso filho começaria a caminhar fortalecido pelos banhos de sol, pelo iodo da água do mar. Duas semanas mais tarde, quando Maria Zeting me entregou Dieguito, vi em seus olhos um relâmpago de temor, ainda assim lhe cobriu a carinha com um canto da manta e o colocou em meus braços apressada. “Teria ficado com ele mais alguns dias, Angelina, é tão bom menino, tão bonito, mas imagino a falta que você sente dele.” Você largou seus pincéis ao nos ver entrar e me ajudou a acomodar o pequeno pacote na cama. Amo você, Diego, agora mesmo sinto uma dor quase insuportável no peito. Na rua, tem me acontecido assim, me vem sua lembrança e já não consigo caminhar, algo me dói tanto que tenho de recuperar as forças contra a parede. Outro dia um gendarme se aproximou: “Madame, vous êtes malade?”. Movi a cabeça de um lado para o outro, ia responder-lhe que era o amor, sabe, sou russa, sou sentimental e sou mulher, mas pensei que meu sotaque me delataria e os funcionários franceses não gostam de estrangeiros. Segui adiante, todos os dias sigo adiante, saio da cama e penso que cada passo que dou me aproxima de você, que logo passarão os meses necessários — ah, quantos! — para você se instalar, que em breve me chamará para que eu esteja sempre ao seu lado.Cobre-o de beijos a suaQuiela

 

15 de novembro de 1921Hoje sinto como nunca sua falta e desejo você, Diego, seu grande corpanzil enchia todo o estúdio. Não quis despendurar seu blusão do prego na entrada: ele ainda conserva a forma de seus braços, a de um dos seus lados. Não pude dobrá-lo nem tirar o pó por medo de que não recupere sua forma inicial e nada mais me sobre além de um pedaço de pano entre as mãos. Aí, sim, me sentaria e choraria. Aquele tecido rugoso me acompanha, falo com ele. Quantas manhãs tenho voltado ao estúdio e gritado: “Diego! Diego!”, como costumava chamá-lo, simplesmente porque da escada vislumbro a jaqueta pendurada perto da porta e penso que você está sentado em frente à estufa ou olha curioso pela janela. À noite é quando desmorono, posso inventar tudo pela manhã e até fazer frente aos amigos que encontro no ateliê e me perguntam o que se passa com você, e aos quais não me atrevo a dizer que não recebi uma linha sua. Respondo com evasivas, que você está bem, que trabalha, na realidade me envergonho de não lhes poder comunicar nada. Jacobsen quer ir ao México e enviou-lhe três telegramas dirigidos aos cuidados da Universidad Nacional com resposta paga e nenhum foi respondido. Élie Faure esteve um pouco enfermo e se queixa de seu silêncio. Todos perguntam por você, bem, no começo, agora cada vez menos e isto é o que me dói, querido Diego, o silêncio deles unido ao seu, um silêncio cúmplice, terrível, ainda mais evidente quando nosso tema de conversa foi sempre você ou a pintura ou o México. Tratamos de falar de outra coisa, vejo como tentam e logo se despedem, e eu vou embora metida de novo em minha esfera de silêncio que é você, você e o silêncio, eu dentro do silêncio, vou dentro de você, que é a ausência, caminho pelas ruas dentro do abrigo do seu silêncio. Outro dia avistei claramente Maria Zeting e estou certa de que ela me viu, no entanto baixou a cabeça e desviou para a ponta da calçada para não me cumprimentar. Quem sabe seja por Dieguito, quem sabe porque tem pena de mim ou simplesmente porque tinha pressa e eu tenha me tornado suscetível até a exacerbação. Agora que você não está, penso que nossos amigos ficaram na expectativa. Tratam-me entre temps, até que você regresse, e nesse meio-tempo não me procuram senão para que lhes dê notícias. Eu aceito que não o façam por mim mesma, afinal, sem você sou bem pouca coisa, o que determina meu valor é o amor que você tenha por mim, e existo para os demais na medida em que você me ama. Se você deixa de fazê-lo, nem eu nem os outros poderemos amar-me.Em outros tempos eu tinha Dieguito. No ateliê já não fazia tanto frio, lembra?, mas era preciso ir atrás de carvão todos os dias. Inclusive, em certa ocasião, você chegou a ir deixando o trabalho pela metade. Eu sentia que Dieguito não se recuperava, ao menos não completamente. Sempre escutei esse pequeno sopro em sua respiração, nunca a agitação repetida e silenciosa de seus primeiros dias. Assomava ansiosa a cada instante ao berço e esse gesto o irritava: “Ele não tem nada, Angelina, deixe-o, está lhe tirando o ar”. Pobre filho nosso! Uma noite começou a queixar-se horrivelmente. Em Paris, em 1917, havia uma epidemia de meningite. Depois tudo aconteceu muito rápido. O menino cuja cabeça antes se perdia entre os lençóis chegou a ser todo cabeça e você se horrorizava com aquele crânio inflado como um globo a ponto de estourar. Você não podia vê-lo, não queria vê-lo. O menino chorava sem descanso. Ainda posso ouvir os chilidos que mexiam tanto com seus nervos. Quando ouço na rua uma criança chorar me detenho: busco em seu pranto o som particular do pranto de Dieguito. Os Zeting já não estavam em Paris. Você saía atrás de carvão, creio eu, impotente ante o sofrimento. Lembro que uma tarde você tentava ler o jornal e seu gesto de desespero ficou gravado em mim: “Não consigo, Quiela, não entendo nada de nada, nada do que se passa neste quarto”. Você deixou de pintar, Dieguito morreu, fomos quase sozinhos ao cemitério, do rosto de María Blanchard escorriam lágrimas; ela sempre disse que Dieguito era seu afilhado, o filho que jamais teria. Naquele dia fez um frio atroz, ou talvez eu o trouxesse dentro de mim.Você estava ausente, não me dirigiu a palavra uma só vez nem sequer se moveu quando o peguei pelo braço. Dei o berço à concierge, dei a ela tudo de Dieguito; pensei que, dando a ela, poderia pedir emprestado mais tarde, se acaso viéssemos a ter outro filho. Eu sempre quis ter outro, foi você quem me negou. Sei que agora minha vida seria difícil, mas teria um sentido. Dói-me muito, Diego, que você tenha se negado a me dar um filho. Tê-lo teria piorado minha situação, mas — meu Deus — quanto sentido teria dado à minha vida! Vejo o céu cinzento e imagino o seu barbaramente azul como o descrevia. Espero contemplá-lo algum dia e, enquanto isso, envio todo o azul de que sou capaz, beijo-o e sou sempre suaQuiela

 

Elena Poniatowska Amor nasceu em Paris, em 1932, e se mudou para o México em 1941, fugindo da Segunda Guerra Mundial. É escritora e jornalista, dedicada a questões sociais e à discussão da posição da mulher na sociedade. Foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nacional de Periodismo do México e uma das poucas mulheres a vencer a premiação máxima da literatura de língua espanhola, o Prêmio Cervantes de Literatura. ‘Querido Diego, sua Quiela (1978)’ é seu livro mais traduzido.

 

 

Querido Diego, sua Quiela

Elena Poniatowska Mundaréu80 páginasLançamento em 16 de agosto de 2019

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