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‘Churchill & Orwell’: uma dupla biografia sobre a liberdade


Winston Churchill, político, filho de aristocratas, liberal conservador, aliado ao governo colonialista britânico. George Orwell, escritor, de classe média baixa, militante socialista e anti-imperialista. O ‘Nexo’ publica trecho do primeiro capítulo do livro que cruza as histórias dos dois nos anos 1930 e 1940 – mesmo que eles nunca tenham se encontrado

Em 3 de dezembro de 1931, um político inglês de 57 anos, ainda membro do Parlamento porém bastante malquisto no governo de seu próprio partido, desceu de um táxi na Quinta Avenida, em Nova York. Ele estava na cidade dando início a uma turnê de palestras, numa tentativa de recuperar parte da pequena fortuna que perdera na quebra da bolsa de valores dois anos antes. Sendo inglês, e talvez por estar absorto em seus problemas, ele olhou para o lado errado da avenida e não viu o automóvel que, a aproximadamente cinquenta quilômetros por hora, derrubou-o no asfalto e o arrastou por alguns segundos, quebrando-lhe algumas costelas e abrindo um talho em seu couro cabeludo. Tivesse morrido, ele hoje seria lembrado por poucos historiadores especializados na história da Grã-Bretanha do início do século 20. Mas ele sobreviveu. Seu nome era Winston Churchill.

 

Quase seis anos depois, em 20 de maio de 1937, outro inglês acordou antes de o sol nascer e deixou seus desconfortáveis alojamentos de trincheira nas linhas de frente da Guerra Civil Espanhola, no nordeste da Espanha, não muito longe dos Pirineus. Embora servisse como soldado, ele na verdade era escritor, um autor desimportante de romances medíocres que não vendiam bem. Considerava-se um homem de esquerda, embora em seu livro mais recente – feito no registro da sociologia jornalística e no qual estudava as classes baixas da Inglaterra – tivesse causado um pequeno rebuliço, e talvez por isso perdido alguns amigos, com suas críticas aos socialistas. Ainda assim, ele servia na Espanha junto às forças socialistas pró-governo da República Espanhola. Era um homem alto, e enquanto percorria as trincheiras que davam para o oeste, supervisionando os membros de seu esquadrão, a silhueta de sua cabeça era destacada pelo sol que nascia a leste, atrás dele. Mais ou menos a 150 metros de distância, um atirador de elite, partidário dos nacionalistas, localizou-o e disparou um projétil de 7 mm com cápsula de cobre. Foi um tiro bem dado, que fez a bala atravessar a base do pescoço do soldado inglês, por pouco não atingindo a artéria carótida. Atordoado, ele caiu no chão. Sabia que fora atingido, mas em seu estado de choque não sabia dizer onde. Informado de que a bala atravessara seu pescoço, ele se preparou para morrer em questão de minutos, pois jamais ouvira falar de alguém que tivesse sobrevivido a semelhante ferimento. Tivesse ele morrido na ocasião, não seria lembrado hoje, exceto talvez por alguns literatos especializados em romancistas ingleses de pouca importância de meados do século 20. Mas ele não morreu. Seu nome era Eric Blair, mas seu pseudônimo era George Orwell.

Na superfície, os dois homens eram bastante diferentes. Churchill era mais sadio em todos os sentidos; nascido 28 anos antes de Orwell, morreu quinze anos depois. Em aspectos cruciais, porém, os dois eram espíritos afins. Em seus anos mais importantes, que coincidiram na metade do século, ambos se debateram com as mesmas grandes questões – Hitler e o fascismo, Stálin e o comunismo, os Estados Unidos e seu intuito de substituir a Grã-Bretanha como potência hegemônica. Eles as responderam com as mesmas qualidades e ferramentas – seus intelectos, a confiança em suas opiniões, mesmo quando refutadas pela maioria de seus contemporâneos, e sua extraordinária habilidade com as palavras. E ambos guiavam-se pelos princípios capitais da democracia liberal: liberdade de pensamento, de expressão e de associação.

 

Seus caminhos jamais se cruzaram, mas eles se admiravam mutuamente à distância, e, quando chegou o momento de escrever 1984, George Orwell batizou seu protagonista de Winston. Segundo os registros, Churchill gostou tanto do livro que o leu duas vezes. 

Apesar de todas as diferenças entre os dois, sua prioridade maior, um compromisso com a liberdade humana, deu a ambos uma causa em comum. E eles eram de fato pessoas drasticamente diferentes, com trajetórias de vida muito diversas. A extroversão espalhafatosa de Churchill, sua habilidade oratória e a urgência de uma defesa desesperada em tempos de guerra levaram-no a um triunfo coletivo que ajudou a moldar o mundo que conhecemos hoje. A personalidade cada vez mais fleumática e introvertida de Orwell, seu idealismo tenaz e grande apreço pela precisão na observação e na escrita levaram-no, como autor, a lutar pelo espaço privado naquele mundo moderno.

O perigo de adotar uma dupla abordagem em relação a esses homens é que a presença de Churchill é por demais sonora e persistente. Observem qualquer evento crucial dos anos 1940 e Churchill estará lá, participando dele, discursando sobre ele, e então, alguns anos mais tarde, escrevendo sobre ele. Debater com Churchill era como “discutir com uma banda de metais”, resmungou certa vez um membro do governo britânico. O filósofo político Isaiah Berlin observou que Churchill entendia a vida como um desfile, no qual ele ia na frente. “Devo admitir que gosto de cores fortes”, Churchill escreveu certa vez. “Não posso fingir que sou indiferente às cores. Regozijo-me com as mais brilhantes, e sinto pena genuína dos pobres marrons.”

Juntos, em meados do século 20, esses dois homens indicaram o caminho, no âmbito político e intelectual, ao responderem às ameaças totalitárias gêmeas do fascismo e do comunismo. No dia em que a Grã-Bretanha entrou na Segunda Guerra Mundial, Churchill declarou: “É uma guerra, analisada em sua essência, para gravar, em rochas inabaláveis, os direitos do indivíduo, e é uma guerra para estabelecer e reavivar a estatura humana.” Dois anos depois, asperamente, em seu estilo mais direto, Orwell expressou o mesmo pensamento: “Vivemos numa época em que o indivíduo autônomo está deixando de existir.”

 

Orwell e Churchill compreenderam que a principal encruzilhada do século 20 não era quem controlava os meios de produção, como Marx imaginava, ou o funcionamento da psique humana, como Freud ensinava, mas sim como preservar a liberdade do indivíduo numa época em que o Estado se intrometia poderosamente na vida privada. O historiador Simon Schama descreveu-os como os arquitetos do seu tempo. Eles foram, segundo Schama, “os mais improváveis aliados”. A causa que compartilhavam era evitar que a maré de homicídios pelo Estado, iniciada nos anos 1920 e 1930, até formar uma onda nos anos 1940, continuasse a subir. 

Em meados da década de 1950, um dos netos de Churchill certo dia meteu a cabeça no escritório do avô. “É verdade”, perguntou o menino, “que você é o maior homem do mundo?” Churchill, bem ao seu estilo, respondeu: “Sim, agora me deixe em paz.”

A teoria histórica do “Grande Homem” é bastante menosprezada hoje em dia. Mas às vezes os indivíduos fazem muita diferença. Churchill e Orwell tiveram impactos duradouros na forma como vivemos e pensamos atualmente. Esses dois homens não fizeram o Ocidente próspero e liberal do pós-guerra – com seu prolongado boom econômico e sua constante expansão da igualdade de direitos a mulheres, negros, gays e minorias marginalizadas –, mas seus esforços ajudaram a estabelecer as condições políticas, físicas e intelectuais que tornaram tal mundo possível.

 

Thomas E. Ricks é jornalista, especializado em assuntos militares e de segurança nacional. Colaborador de publicações como The New York Times e Washington Post, escreve também o blog The Best Defense para a revista Foreign Policy. Foi vencedor do Prêmio Pulitzer em 2000 e 2002. É autor de diversos livros, entre eles The Gamble e o best-seller Fiasco.

 

 

CHURCHILL & ORWELL

Thomas E. RicksZahar337 páginasLançamento em 22 de agosto de 2019

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