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‘O futuro da humanidade’: uma projeção para além da Terra


O ‘Nexo’ publica trecho do livro que traz reflexões sobre onde estará a espécie humana em milhares de anos. Em uma análise com base na história e nos avanços da tecnologia, o físico americano Michio Kaku discute temas como imortalidade, viagens interestelares e colonização de outros planetas. Leia abaixo, texto do prólogo da obra.

Um dia, cerca de 75 mil anos atrás, a humanidade quase foi extinta. Uma explosão titânica na Indonésia levantou uma nuvem colossal de cinzas, fumaça e detritos que se alastrou por milhares de quilômetros. A erupção do vulcão de Toba foi tão violenta que é considerada o evento vulcânico mais impactante dos últimos 25 milhões de anos. Fez subir ao céu inimagináveis 2.792 quilômetros cúbicos de poeira. Áreas extensas da Malásia e da Índia foram sufocadas por até nove metros de espessura de cinzas vulcânicas. A fumaça tóxica e a poeira acabariam por chegar à África, deixando um rastro de morte e destruição.

 

Imagine por um instante o caos gerado por esse cataclisma. Nossos ancestrais foram aterrorizados pelo calor abrasivo e pelas nuvens cinzentas de pó vulcânico que escureceram a luz do Sol. Muitos foram asfixiados e envenenados pela espessa fuligem e pela poeira. Depois veio o despencar das temperaturas, desencadeando um “inverno vulcânico”. A vegetação e a vida animal foram dizimadas até onde a vista alcançasse, restando apenas uma paisagem lúgubre, desolada. Às pessoas e aos animais restou vasculhar o terreno devastado em busca de minúsculas migalhas de alimento, e a maioria dos humanos morreu de fome. Parecia que a Terra inteira estava morrendo. Os poucos sobreviventes tinham apenas uma meta: fugir para o mais longe possível da cortina de morte baixada sobre seu mundo.

 

Provas cabais desse cataclismo talvez estejam em nosso sangue.

 

Geneticistas já atentaram para o curioso fato de dois seres humanos terem DNA quase idêntico. Para efeito de comparação, pode haver maior variação genética entre dois chimpanzés que o verificado em toda a população humana. Matematicamente, uma teoria proposta para explicar esse fenômeno parte do princípio de, na época da explosão, a maioria da humanidade ter sido dizimada, tendo restado só um punhado de nós – cerca de duas mil pessoas. Incrivelmente, esse bando sujo e maltrapilho viria a tornar-se os Adões e Evas ancestrais que acabariam por povoar todo o planeta. Todos somos quase clones uns dos outros, irmãos e irmãs descendentes de um mínimo e intrépido agrupamento humano que caberia com folga no salão de festas de um hotel moderno.

 

Ao cruzarem a paisagem estéril, eles não faziam ideia de que, um dia, seus descendentes dominariam cada recanto do planeta.

 

Hoje, ao contemplarmos o futuro, vemos como os eventos ocorridos há 75 mil anos podem na verdade ter sido um ensaio de catástrofes futuras. Fui lembrado disso em 1992, ao ouvir a notícia estarrecedora de que, pela primeira vez, fora encontrado um planeta na órbita de uma estrela distante. Essa descoberta permitia aos astrônomos provar a existência de planetas além do nosso sistema solar. Tratava-se de uma mudança dramática de paradigma em nossa compreensão do universo. Mas fiquei triste ao ouvir a notícia seguinte: o planeta alienígena orbitava uma estrela morta, um pulsar, fruto de uma supernova cuja explosão provavelmente matara tudo o que um dia pudesse ter vivido naquele planeta. Nenhum organismo vivo conhecido pela ciência poderia suportar o contundente golpe de energia nuclear resultante da explosão de uma estrela próxima.

 

Imaginei então uma civilização ali, ciente da morte iminente de seu sol, agindo às pressas para montar uma enorme frota de espaçonaves capaz de transportar a todos para outro sistema estelar. Teria irrompido o caos absoluto no planeta, gente em pânico e desespero em aguerrida disputa pelas últimas vagas nas embarcações de partida. Imaginei a sensação de terror daqueles deixados para trás, à mercê do destino ditado pela explosão do sol.

 

Tão inevitável quanto as leis da física é o fato de que a humanidade terá um dia de fazer frente a algum evento capaz de extingui-la. Mas será que nós, como nossos ancestrais, teremos a determinação necessária para sobreviver ou até prosperar?

 

Se mapearmos todas as formas de vida que já existiram na Terra, de bactérias microscópicas a florestas imponentes, pesados dinossauros e intrépidos humanos, descobriremos que 99,9% acabaram extintas. Isso significa que a extinção é a norma, que a lei das probabilidades trabalha fortemente contra nós. Quando escavamos o solo abaixo de nossos pés e desvelamos os registros fósseis, comprovamos a existência de várias formas de vida ancestrais. Contudo, só uma quantidade mínima sobrevive em nossos dias. Milhões de espécies surgiram antes de nós, tiveram seu momento, e então definharam e morreram. Essa é a história da vida.

 

Independentemente do quanto valorizemos a visão de um espetacular e romântico pôr do sol, o cheiro da brisa fresca do oceano e o calor de um dia de verão, um dia tudo isso terá fim e o planeta se tornará inóspito à vida humana. A natureza se voltará contra nós em algum momento, como fez com todas aquelas formas de vida extintas.

 

A grandiosa história da vida na Terra nos mostra que, em face de um ambiente hostil, é inevitável a qualquer organismo um entre três destinos. Pode-se abandonar aquele ambiente, adaptar-se a ele ou morrer. Mas a se considerar um futuro mais distante, em algum momento nos depararemos com um desastre de suficientes proporções para tornar qualquer forma de adaptação praticamente impossível. Teremos de deixar a Terra ou perecer. Não haverá outra alternativa.

 

Tais desastres já ocorreram repetidas vezes no passado, e é inevitável que ocorram no futuro. A Terra já foi submetida a cinco grandes ciclos de extinção nos quais até 90% das formas de vida desapareceram da face do planeta. Tão garantido quanto o nascer de um novo dia é o fato de que vai haver outros.

 

No âmbito das próximas décadas, encararemos ameaças que não são naturais e sim, culpa nossa, consequências de nossa loucura e miopia. O perigo do aquecimento global, com a própria atmosfera da Terra voltando-se contra nós. Os perigos das guerras modernas, à medida que armas nucleares proliferam em algumas das regiões mais instáveis do mundo. O perigo da guerra bacteriológica, vírus tais como o Ebola ou alguma mutação do HIV, transmissíveis por uma simples tosse ou espirro. Algo assim poderia dizimar até 98% da raça humana. Além disso, temos uma população em expansão, consumindo recursos em escala arrebatadora. Talvez em algum momento venhamos a exceder a capacidade de carga da Terra e nos veremos em meio a um armagedom ecológico, em luta pelos últimos resquícios de suprimentos do planeta.

 

Além de todas as calamidades de nossa própria criação, há também desastres naturais sobre os quais não temos praticamente controle algum. No âmbito dos próximos milhares de anos, encararemos o início de uma nova era glacial. Ao longo dos cem mil anos passados, grande parte da superfície da Terra esteve coberta por até um quilômetro de gelo sólido. A desolada paisagem congelada levou muitos animais à extinção. Então, dez mil anos depois, ocorreu o descongelamento. A esse breve período de aquecimento corresponde a súbita ascensão da civilização moderna, e dele os humanos têm se aproveitado para crescer e se multiplicar. Mas o fato de esse desabrochar ter ocorrido num período interglacial significa que vamos provavelmente nos deparar com outra era glacial nos próximos dez mil anos. Quando isso ocorrer, nossas cidades desaparecerão sob montanhas de neve e a civilização será esmagada sob o gelo.

 

Existe ainda a possibilidade de o supervulcão sob o Parque Nacional de Yellowstone despertar de seu longo torpor, rasgando os Estados Unidos ao meio e engolindo a Terra numa nuvem sufocante e venenosa de fuligem e detritos. As erupções anteriores ocorreram há 630 mil, 1,3 milhão e 2,1 milhões de anos. Cada uma dessas ocasiões é separada das demais por 700 mil anos, em média; portanto, podemos vir a testemunhar outra erupção colossal dentro dos próximos cem mil anos.

 

No âmbito de milhões de anos, encaramos a ameaça de outra colisão com um meteoro ou cometa, similar à que ajudou a destruir os dinossauros, 65 milhões de anos atrás. Naquela ocasião, uma rocha de cerca de 9,5 quilômetros de diâmetro precipitou-se sobre a península de Yucatán, no México, projetando para o céu detritos flamejantes que caíram de volta sobre a Terra. Assim como na explosão do vulcão de Toba, mas muito maior, as nuvens de cinzas acabaram por escurecer o Sol e precipitar a queda das temperaturas em nível global. O murchar da vegetação trouxe o colapso da cadeia alimentar. Dinossauros herbívoros morreram de fome, logo seguidos pelos primos carnívoros. Ao fim do processo, 90% das formas de vida da Terra pereceram na sequência desse evento catastrófico.

 

Por milênios, permanecemos na abençoada ignorância da realidade de que a Terra flutua em meio a um enxame de rochas potencialmente mortais. Só na década passada os cientistas começaram a quantificar o risco real de um impacto de grandes proporções. Hoje sabemos haver milhares de NEOs (“near-Earth objects” ou “objetos próximos à Terra”) que cruzam nossa órbita e representam risco para a vida no planeta. Até junho de 2017, foram catalogados 16.294 desses objetos. Mas esses são só os já encontrados. Astrônomos estimam haver talvez vários milhões de objetos não mapeados cruzando o sistema solar e passando pela Terra.

 

Certa vez entrevistei o falecido astrônomo Carl Sagan a respeito dessa ameaça. Ele me ressaltou que “vivemos numa galeria de tiro cósmica”, cercados por riscos em potencial. É só questão de tempo, disse ele, até um grande asteroide atingir a Terra. Se pudéssemos iluminar tais asteroides de alguma forma, veríamos o céu noturno pontilhado por milhares de pontos de luz ameaçadores.

 

Mesmo partindo do pressuposto de que evitemos todos esses perigos, há outro que faz empalidecer os demais. Daqui a cinco bilhões de anos, o Sol vai se expandir até virar uma gigantesca estrela vermelha que ocupará todo o firmamento. Vai se tornar tão gigantesco que a órbita da Terra se dará dentro de sua escaldante atmosfera, e o calor abrasador tornará a vida neste inferno impossível.

 

Ao contrário de todas as outras formas de vida do planeta, às quais só resta esperar pelo fim passivamente, seres humanos são mestres do próprio destino. Felizmente, estamos neste momento criando ferramentas para desafiar as probabilidades impostas pela natureza, de forma a não nos tornarmos um dos 99,9% de formas de vida fadadas à extinção. Neste livro, encontraremos os pioneiros dotados da energia, da visão e dos recursos para mudar o destino da humanidade. Conheceremos os sonhadores que creem na chance de os seres humanos viverem e prosperarem no espaço distante. Analisaremos os avanços revolucionários na tecnologia que tornarão possível deixarmos a Terra e estabelecermo-nos no sistema solar, ou mesmo além.

 

Se há uma lição a aprendermos com a história, no entanto, é que a humanidade sempre se mostrou à altura do desafio ao deparar-se com crises ameaçadoras da vida e estabeleceu metas ainda mais ambiciosas. De certa forma, o espírito explorador está nos nossos genes, impregnado em nossa alma.

 

Mas agora talvez estejamos diante do maior desafio de todos: deixar as fronteiras da Terra para nos projetarmos ao espaço sideral. As leis da física deixam claro: mais cedo ou mais tarde enfrentaremos crises globais que ameaçarão nossa existência.

 

A vida é valiosa demais para ser limitada a um único planeta, para estar à mercê dessas ameaças planetárias.

 

Precisamos de uma apólice de seguro, disse Sagan. Ele concluiu que devemos nos tornar uma “espécie biplanetária”. Noutras palavras, temos de ter um plano B.

 

Michio Kaku é um físico norte-americano nascido em 1947, doutor em física pela Universidade de Berkeley, na Califórnia. Foi co-criador da teoria do campo de cordas e hoje foca seus estudos na chamada teoria de tudo. Há 25 anos, é professor de física teórica na City College de Nova York. É também apresentador do programa de rádio Explorations, e autor de livros de divulgação científica.

 

 

O FUTURO DA HUMANIDADE

Michio KakuPlaneta368 páginasLançamento em 1º de agosto de 2019

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