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‘Brás Cubas’: uma reedição sob o olhar de Portinari


O ‘Nexo’ publica trecho de nova edição de ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, lançada com ilustrações de 1944 do artista Candido Portinari. Os desenhos foram originalmente encomendados pela Sociedade dos Cem Bibliógrafos do Brasil, que publicava obras raras em edições com tiragem limitada. A nova edição conta também com um perfil do autor. Leia abaixo, um trecho sobre o início da vida de Machado

No século 19, o Brasil é marcado por uma confluência de motivações, ideologias e realidades diversas se chocando e transformando as bases mais profundas da nossa nação. Inúmeros processos ou gatilhos sociais haviam despertado nos anos anteriores e se moviam para um futuro disputado por grupos políticos como monarquistas e republicanos. Seria mais simples descrever a realidade daquele período como uma batalha de interesses dicotômicos para facilitar nosso entendimento sobre as personalidades da época, só que isso destruiria a riqueza de suas almas, das emoções e desejos despejados em sua arte.

 

A complexidade dessa história alimentou e fez nascer um dos maiores nomes da literatura brasileira: Machado de Assis. Enquanto sua obra traduz a psique da sociedade, sua história revela as engrenagens por trás das camadas sociais e suas articulações. O próprio autor deixou poucos registros sobre seus primeiros anos de vida, a maioria deles estão em poemas como o que escreveu para sua mãe (“Quem foi que o berço me embalou da infância / Entre as doçuras que do empíreo vêm?”). Mas grandes biógrafos como Manoel José Gondin da Fonseca se dedicaram a lançar luz sobre a vida do autor.

 

Não há como falar de Machado, ou melhor Joaquim Maria Machado de Assis, sem falar da grande cidade, Rio de Janeiro, na época, capital do Império. O escritor nasceu em 1839, quando o Rio estava em vias de se tornar palco de movimentos históricos como a abolição da escravatura e a fundação da República. Antes mesmo disso, foi o local de nascimento do primeiro jornal impresso do país, a Gazeta do Rio de Janeiro, e se tornou um terreno fértil para a elite intelectual do nosso país.

 

A capital brasileira enriqueceu muito durante o ciclo do café e também com o cultivo de cana-de-açúcar e fez da escravidão a força motriz da sua economia. Até 1840, metade da população do Rio de Janeiro era composta por negros escravizados. A escravidão fazia parte do dia a dia de todas as pessoas e, assim como muita gente hoje em dia diz não saber viver sem a internet, naquela época poucos se “atreviam” a pensar como seria a sociedade sem a escravidão — era coisa para abolicionista. A historiadora Mary C. Karasch defende que os trabalhos manuais eram encarados como “coisa de escravo”, logo, coisa de pessoas pretas, africanas, crioulas.

 

Machado era filho do pintor Francisco José de Assis, referido muitas vezes como mulato, por sua vez nascido de escravos alforriados, que muitos biógrafos denominam como pardos. Isso revela uma das chaves para entender a noção racial construída por aquela sociedade, recaindo não apenas sobre o escritor, mas sobre todos os outros afrodescendentes no século XIX.

 

Utilizar as mesmas denominações da época não nos ajuda a determinar as características étnicas dessas pessoas como são hoje, afinal, não havia uma grande discussão na sociedade ou um esforço para entender a população negra. Os termos variaram diversas vezes em situações e regiões diferentes. O governo imperial distinguia a população apenas entre as raças brancas, indígenas e africanas. Tendo como resultado da miscigenação os pardos (negros com brancos) e caboclos (índios com brancos), todavia os pardos também poderiam ser conhecidos como crioulos se estivessem em situação de escravidão e como pardos em situação de liberdade — ambos sendo os negros nascidos no país, afro-brasileiros, diferentes dos africanos que recebiam da sociedade a maior carga de desprezo. “Pardo” foi substituído por “mestiço” em 1890 e depois, em 1911, é possível encontrar a defesa de João Batista de Lacerda, antropólogo e médico diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro para a denominação “mestiços negroides”, estes seriam os pardos com traços de afrodescendentes.

 

Francisco José se casou em 1838 com Maria Leopoldina, agre gada de dona Maria José de Mendonça Barrozo Pereira, no morro do Livramento. Maria teria nascido em Açores e chegado ao Rio de Janeiro em 1815, mas sua história não é um consenso entre os historiadores. Inusitadamente, ambos os pais de Machado eram letrados, teriam sido educados na própria chácara em que viviam. Saber ler e escrever era um privilégio na época, estudos apontam o analfabetismo para mais de 77% da população acima dos quinze anos de idade, tendo em vista a parcela de escravizados dessa estatística — quase 50% da população —, podemos supor a existência de uma educação restrita à parcela mais rica da cidade.

 

Machado passou a frequentar uma escola pública da região. É importante ressaltar o quanto, naquele período, a formação dos professores e sua atuação na rede pública eram desniveladas. Após várias tentativas frustradas de implementação durante o Império, as primeiras escolas “normais” para docentes surgiram em 1835, reservando a melhor educação para a formação de professores da nova geração aristocrática. Então, é provável que Machado tenha recebido reforços na casa de sua madrinha de batismo e proprietária da chácara, dona Maria José.

 

Aquele garoto que tivera acesso a uma educação tão exclusiva teve contato cedo demais com a tragédia da morte. Aos quatro anos perdeu a irmã e aos dez, a mãe, um golpe do destino que marcou o escritor. Após o ocorrido, foi morar no bairro de São Cristóvão com o pai e ficou com ele até os quinze anos, quando resolveu se aventurar pelo centro do Rio de Janeiro por conta de uma desa- vença com a madrasta. É notável o apreço que apresenta com as letras já nos primórdios da sua adolescência. Era 1854, publicou no Periódico dos Pobres (jornal trimestral) e no ano seguinte já escrevia regularmente na Marmota Fluminense, de Paula Brito. Esse caminho intelectual, extraordinário, seguido por Machado, o colocava em rota contrária à realidade da vida de seu pai, enquanto os serviços braçais estavam ligados à essência do africano e seus descendentes, o intelecto e a erudição (seguindo as normas da educação colonial europeia) tornavam o homem miscigenado ou mestiço mais aceito pela comunidade local — essa discussão só veio a se consolidar no início do século XX, quando o racismo científico da época foi dividido entre um grupo fiel à ideia da inferioridade racial negra biológica e outro que acreditava na inferioridade baseada na cultura ou na raiz social. O segundo grupo ganhou mais adeptos e acabou se perpetuando posteriormente. Eles entendiam o “mestiço” como alguém capaz de elevar sua existência por meio do convívio com os brancos. Portanto, segundo João Batista de Lacerda: “Os mestiços, com sua inteligência, dariam poetas, pintores, escultores, músicos, magistrados, oradores eloquentes e literatos admiráveis”.

 

Sua trajetória deixa claro a consciente articulação social e o gosto por estar em meio à elite intelectual não apenas para observar, mas para arraigar-se a ela.

 

Ale Santos é escritor de ficção e fantasia afro-americana e pesquisador de narrativas africanas. É colunista da Vice Brasil e colabora com o site The Intercept Brasil e a revista Superinteressante.

 

 

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS

Machado de Assis (perfil do posfácio de Ale Santos)Antofágica452 páginasLançamento em julho de 2019

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