‘A grande regressão’: ensaios sobre o momento político em 2019


O ‘Nexo’ publica trecho do livro que reúne reflexões sobre os novos populismos no mundo hoje. A antologia traz 15 ensaios de pensadores da atualidade, como Zygmunt Bauman, Bruno Latour e Slavoj Žižek. A edição brasileira conta com um artigo inédito de Renato Janine Ribeiro. O fragmento a seguir faz parte de 'Neoliberalismo progressista versus populismo reacionário: a escolha de Hobson', da americana Nancy Fraser

Neoliberalismo progressista versus populismo reacionário: a escolha de Hobson

A eleição de Donald Trump constitui uma da série de insurreições políticas impressionantes que, vistas em conjunto, sinalizam o colapso da hegemonia neoliberal. Entre essas insurreições está o voto pelo Brexit no Reino Unido, a rejeição às reformas de Renzi na Itália, a campanha de Bernie Sanders pela indicação do Partido Democrata nos Estados Unidos e o apoio crescente ao Front National na França. Apesar de diferirem nas ideologias e nos objetivos, esses motins eleitorais têm um destino em comum: todos representam a rejeição da globalização corporativa, do neoliberalismo e dos sistemas políticos que os promovem. Em todos os casos, os eleitores estão dizendo “Não!” à mistura fatal de austeridade, livre comércio, dívida predatória e trabalho precário e mal pago que caracterizam o capitalismo financeirizado atual. Seus votos representam a contrapartida política subjetiva à crise estrutural objetiva dessa forma de capitalismo. Manifestada por um tempo na “violência vagarosa” associada ao aquecimento global e o ataque mundial à reprodução social, essa crise estrutural ficou plenamente visível em 2007-2008, com o quase desastre da ordem financeira global.

Até pouco tempo atrás, no entanto, a principal reação à crise foi o protesto social — expressivo e vivaz, não há dúvida, mas basicamente efêmero. Os sistemas políticos, por sua vez, pareceram relativamente imunes, ainda controlados por funcionários dos partidos e elites do establishment, pelo menos nos Estados mais poderosos do âmago capitalista, como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha. Agora, entretanto, as ondas de choque eleitoral reverberam mundo afora, inclusive nas cidades do sistema financeiro global. Quem votou em Trump, assim como quem votou no Brexit e contra as reformas italianas, se ergueu contra seus líderes políticos. Torcendo o nariz para as instituições partidárias, eles repudiaram os esquemas que têm minado suas condições de vida nos últimos trinta anos. A surpresa não está no fato de terem feito isso, mas em terem demorado tanto.

No entanto, a vitória de Trump não é apenas uma revolta contra o sistema financeiro global. O que seus eleitores rejeitaram não foi simplesmente o neoliberalismo, mas o neoliberalismo progressista. Pode soar como um oximoro, mas trata-se de um alinhamento político verdadeiro, ainda que perverso, que serve de chave para a compreensão dos resultados eleitorais dos EUA — e talvez dos acontecimentos em outros lugares. Sob a forma que tem nos Estados Unidos, o neoliberalismo progressista é uma aliança de correntes predominantes dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBTQ), por um lado, e segmentos empresariais de serviços e “simbólicos” de ponta (Wall Street, Vale do Silício e Hollywood), por outro. Nessa união, forças progressistas se juntam efetivamente com as forças do capitalismo cognitivo, sobretudo a financeirização. Por mais que tenha sido involuntário, as primeiras emprestaram seu carisma às últimas. Ideais como diversidade e empoderamento, que a princípio poderiam servir a fins diferentes, agora lustram políticas públicas que arrasaram a subsistência das manufaturas e da classe média outrora acessíveis a quem se engajasse.

O neoliberalismo progressista se desenvolveu nos Estados Unidos mais ou menos nas últimas três décadas e foi ratificado com a eleição de Bill Clinton em 1992. Clinton foi o principal engenheiro e porta-bandeira dos “Novos Democratas”, o equivalente estadunidense do Novo Trabalhismo de Tony Blair. Em vez da coalização ao estilo New Deal entre operários sindicalizados, afro-americanos e as classes médias urbanas, ele forjou uma nova aliança de empreendedores, moradores dos subúrbios, novos movimentos sociais e jovens, todos proclamando suas credenciais modernas, progressistas, ao incluir a diversidade, o multiculturalismo e os direitos das mulheres. Ao mesmo tempo em que endossava esses conceitos progressistas, o governo Clinton cortejava Wall Street. Entregando a economia dos Estados Unidos à Goldman Sachs, ele desregulou o sistema bancário e negociou acordos de livre comércio que aceleraram a desindustrialização. Quem ficou pelo caminho foi o Cinturão da Ferrugem — antes o bastião da social-democracia do New Deal e agora a região que cedeu o Colégio Eleitoral a Donald Trump. Essa área, além de centros industriais mais recentes no Sul, sofreu um enorme impacto quando a financeirização desenfreada despontou ao longo das últimas duas décadas. Continuadas por seus sucessores, inclusive por Barack Obama, as medidas de Clinton degradaram as condições de vida de todos os trabalhadores, sobretudo daqueles empregados na produção industrial. Em suma, o governo Clinton carrega o fardo pesado da responsabilidade pelo enfraquecimento dos sindicatos, o declínio dos salários reais, a precariedade crescente do trabalho e a ascensão da “família com dois ganhadores do pão” em vez do finado salário do chefe de família, que sustentava a casa inteira.

Conforme sugere o último ponto, o ataque à seguridade social foi lustrado por um verniz de carisma emancipatório, emprestado dos novos movimentos sociais. Embora apresentado como um triunfo feminista, a realidade por trás do ideal da família com dois ganhadores do pão é a de nível salarial achatado, seguridade empregatícia decrescente, padrões de vida decadentes, uma elevação pronunciada no número de horas trabalhadas pelo número de salários por família, exacerbação da jornada dupla — agora não raro uma jornada tripla ou quádrupla, o aumento no número de casas chefiadas por mulheres e uma luta desesperada para jogar as tarefas assistenciais no colo dos outros, principalmente de mulheres pobres, discriminadas pela raça e/ou por serem imigrantes. Além disso, no decorrer dos anos, enquanto a industrialização caía, os EUA zumbiam com o papo de “diversidade”, “empoderamento feminino” e “luta contra a discriminação”. Identificando o progresso com a meritocracia em vez da igualdade, esses termos equiparavam a emancipação com o surgimento de mulheres, minorias e gays “talentosos” na hierarquia corporativa em que o vencedor leva tudo, em vez de fazê-lo por meio da abolição dessa hierarquia. Essa visão individualista-liberal do progresso aos poucos substituiu o entendimento vasto, anti-hierárquico, igualitário, com sensibilidade de classe e anticapitalista da emancipação que floresceu nas décadas de 1960 e 1970. À medida que a Nova Esquerda minguava, sua crítica estrutural à sociedade capitalista encolheu, e a mentalidade individualista-liberal característica do país se reafirmou, reduzindo de modo imperceptível as aspirações dos “progressistas” e dos autointitulados esquerdistas. O que fechou o negócio, no entanto, foi a coincidência dessa evolução com a ascensão do neoliberalismo. Um partido empenhado em liberalizar a economia capitalista achou seu par perfeito no feminismo corporativo meritocrático focado no “faça acontecer” e em “quebrar o teto de vidro”.

 

 

A GRANDE REGRESSÃO

Vários autoresTradução: Alexandre Hubner, Débora Landsberg, Luciano Vieira Machado e Sérgio Molina Silvia Bittencourt Editora Estação Liberdade 352 páginasLançamento em julho de 2019

 

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