‘Se deus me chamar não vou’: uma perspectiva sobre infância


O ‘Nexo’ publica trecho do novo romance da escritora paulistana Mariana Carrara. A história é narrada por uma criança de 11 anos, aspirante a escritora. Ela mostra as impressões do mundo diante de si: do mundo adulto que cria regras e não as obedece, do mundo escolar. E também fala sobre questões relacionadas à solidão, aos pais, deus, o amor, o corpo e a morte 

Querido Homem-aranha,

meu nome é Maria Carmem (Carmem com m) e eu

não tenho superpoderes.

Eu tenho um pouco de pena de você porque seu tio morreu por culpa sua e odeio quando uma coisa ruim é culpa minha, tipo quando meus pais não puderam ir na festa de ano novo porque eu tomei chuva e tive pneumonia.

Acho que se um bicho fosse me morder pra eu virar super-heroína eu nunca ia escolher aranha. A aranha tem muitas pernas e é sozinha demais lá em cima na teia tanto tempo esperando alguém aparecer. E quando um inseto finalmente gruda ali ela passa uns minutos olhando, imaginando como seria viver com ele.

Daí ela mata o visitante. Uma vez numa viagem eu vi uma aranha comendo um vaga-lume que não parava de piscar. Ele já devia estar sem as asas e sem as perninhas e mesmo assim ficava acendendo no canto do teto. Achei a aranha tão cruel, espero que você mate os seus vilões muito mais depressa.

Será que o vaga-lume pisca de dor? Se eu pudesse brilhar de dor eu seria um escândalo.

Você corre tão rápido, na aula de educação física a professora disse que eu não tenho fôlego. Sabe, Homem-aranha, se um dia você precisasse descer de um edifício pendurado na teia comigo nos braços acho que você não ia aguentar, ou a teia ia arrebentar, porque eu tenho muito tamanho, meus colegas me mandam tirar a cabeça da frente da lousa.

Acho que eu escolheria uma águia, em vez de aranha, assim não precisaria escalar os prédios, eu subiria voando e enxergaria os criminosos lá de cima com os meus olhos incríveis, depois eu rasgaria os inimigos com o meu bico.

Mas talvez se uma águia me mordesse como eu tenho muito tamanho ela não desse conta de me transformar em Mulher-águia, e eu viraria a Menina-pomba, e os pais iam afastar as crianças que tentassem me dar milho, eles iam dizer que eu passo doença.

Talvez seja melhor eu escolher coruja, assim minha mãe ia me deixar sair à noite.

Se eu tivesse os seus poderes eu jogaria teia de aranha no cabelo dos meus colegas. Apesar que na verdade eles ficariam apertando o botão do meu pulso e forçando meu braço pra trás pra jogar muita teia no meu olho e na minha boca.

Eu queria saber como você faz pra perceber quem são os vilões, porque a aranha não sabe, ela mata até mesmo o vaga-lume que pisca de dor e tem uma luz tão bonita, e como é que você descobre que uma pessoa precisa ser salva no outro bairro, queria saber se você tem contato com deus.

Porque mesmo deus, que às vezes nem existe, ele não sabe muito bem quando as pessoas estão caindo ou sequestradas, ou talvez ele só consiga prestar atenção em um bairro de cada vez. Talvez deus, se ele existir, devesse enviar outros insetos mágicos que iam morder outras pessoas e fazer mais heróis, assim nenhum bairro ficava desprotegido.

Se eu tivesse os seus poderes no recreio em vez de ficar sentada tentando arrancar as pedrinhas do chão do pátio, eu ia fazer várias teias de aranha no teto, ia tentar jogar minha teia cada vez mais alto, também no teto da capela da escola e até no menino jesus, e eu faria teias até mesmo em cima das aranhas de verdade pra elas verem que o meu material é melhor, a escola ia ficar inteira coberta com as minhas teias, o sino nem ia mais conseguir bater e a gente ia ficar pra sempre na aula de redação, que é a minha preferida.

Sabe, Homem-aranha, eu preferia fazer a carta para o Super-homem, porque ele é imortal e eu queria perguntar pra ele como é isso de saber que nunca vai morrer, eu preferia esse poder, de nunca morrer, além de voar, mas a professora me sorteou você, e tudo bem, as teias são ótimas.

Eu e você podíamos chamar muitos vaga-lumes pra grudarem numa teia gigante e à noite a gente ficava olhando o pisca-pisca que ia parecer um céu cheio de estrelas muito, muito perto, mas sem nenhuma aranha comendo a luz, não teria nenhuma dor, nenhum inimigo,

e então a gente olharia as luzes a noite inteira, as estrelinhas-lume embaçando no olho, até parecer que estávamos voando muito alto, mais ou menos como o Super-homem, e pensaríamos que somos imortais, que nosso coração não pode mais parar de repente, e então eu teria a minha resposta mesmo tendo feito essa carta pra você, e não pro Super-homem, porque é assim que ele se sente, agora eu sei, todo eterno.

(Maria Carmem Rosário, 6º ano A)

 

1.

Esta é a história deste ano, deste meu ano, não do ano de todo o mundo, porque cada um está tendo um ano todo seu e eu só posso contar a história do ano que é meu. A não ser quando eu for escritora, aí sim vou poder contar a história do ano dos outros.

Minha professora falou que eu escrevo muito bem. Eu nem sabia que era possível escrever mal, pensava que ou se sabia escrever, ou não. Então ela me disse que um dia eu serei escritora, o que me deixou muito frustrada. Perguntei se isso queria dizer que eu não podia mais escrever até que eu fosse escritora. Ela ficou me olhando, no começo parecia distraída, depois pegou minha mão e, assim como se fosse uma de nós brincando de professora, falou, com grandes  movimentos na boca, que Muito pelo contrário, Maria Carmem! Que eu devia continuar praticando muito, muito mesmo, e só assim eu seria escritora.

Talvez ser escritora não fosse só escrever, mas escrever muito bem. Ou pelo menos escrever muito, igual uma corredora. Não é porque de vez em quando eu corro atrás de um ônibus que eu sou corredora.

Daí isso me pareceu um pouco injusto, porque meus pais viraram vendedores a partir do primeiro dia que resolveram tocar a loja da vovó e começar a vender coisas. Aliás, desconfio que até mesmo antes disso já fossem vendedores, porque eles falam muito sobre os papéis, os papéis da loja, e sem os papéis não podem vender nada, então penso que existe um papel que você assina ou compra na prefeitura – tudo na vida é produzido pela prefeitura, eles são ótimos, e a minha professora também é ótima, ela quem me ensinou a usar esses travessões no meio das frases, embora ela diga que eu uso excessivamente, mas eu gosto demais, parecem desvios de tema pra testar se o leitor está interessado

mesmo no assunto – enfim, existe um papel que transforma a pessoa em vendedora, e eu tenho certeza que meus pais assinaram isso antes de assumir a loja e vender qualquer objeto porque meus pais são muito honestos e legalizados – a professora pediu para trocar legalizados por legais, mas não quero; ela também me manda colocar vírgulas antes de qualquer “mas” mas eu expliquei pra ela que essas vírgulas que a gente não sente dão vontade de parar de escrever.

Eu não tenho ainda um papel de escritora, mas achei que este ano está sendo um ano que merece estar num livro, e, como o ano é meu, pode muito bem estar num livro meu. Esse ano acaba sendo também dos meus pais, porque na minha idade as coisas costumam ser todas deles. Minha mesmo só a prisão de ventre, que às vezes parece que tem vida própria e que sou eu que pertenço a ela.

Não sei em que momentos encerrar capítulos. Decidi que cada vez que eu precisar sair do computador, tipo para tomar banho, comer ou ir para a escola, vou encerrar um capítulo. Assim os capítulos do livro vão ficar parecidos com os capítulos da vida de verdade.

 

2.

Eu completava 11 anos esquecida bem no meio de janeiro – o que quer dizer que talvez eu faça doze anos enquanto escrevo esse livro 1 –, ajudando minha mãe na loja de velhos. Gosto de chamar de Loja de Velhos porque parece que vendemos velhos.

Com o tempo, comecei a acreditar que isso é verdade, porque os velhinhos precisam de uma porção de coisas que já fazem parte do nosso corpo, e parece que, peça por peça, estamos vendendo velhinhos inteiros. As pessoas vão lá e pedem coisas que eu nem imaginava que alguém poderia precisar, e eu vou procurar lá em cima, em caixas com etiquetas mais ou menos em ordem alfabética.  Às vezes volto para confirmar, peço para soletrarem, e acontece de simplesmente não ter, e minha mãe fica com um pouco de raiva do cliente, como se fosse culpa dele que um parente precisasse de uma coisa tão absurda.

Meu aniversário caiu na terceira segunda-feira do ano. Eu li na internet que esse é o dia mais triste do ano. Todos sérios nas ruas lamentando o calor, a semana, o ano que começa, já sem qualquer esperança de natal, ou promessa de ano novo, e ainda longe do carnaval.

Minha mãe passou o dia sentada na frente do ventilador, abrindo e fechando um livro que eu emprestei e ela adiava desde o ano anterior, e mexendo num cacho do cabelo da frente que ela gosta de enfiar por dentro do brinco gigante de argola. Quase nenhum cliente veio, e os poucos que apareceram buscaram coisas que não tínhamos, ou não gostaram da minha explicação sobre o andador dobrável – nosso funcionário sempre tira férias em janeiro, já que eu posso ficar pra ajudar.

Eu não quero nunca precisar das coisas que a gente vende, e de vez em quando sentia que podia ser uma maldição: de tanto ganhar dinheiro – aparentemente, não muito dinheiro – com as coisas que os velhos precisam – em vez de doar para a caridade –, vamos precisar um dia de tudo isso e ninguém vai dar.

Antes de começar a ajudar na loja, eu achava que meus pais eram velhíssimos. Daí entendi que não, e depois percebi que são mais jovens que os pais dos meus colegas, muito mais jovens. Acho que tiveram pressa em me ter, deviam estar muito ansiosos. Mas agora não parecem tão entusiasmados assim, às vezes eles não têm muito o que me dizer.

Acho que meus pais começaram esse ano muito frustrados, minha mãe me explicou que é culpa dos Planos. Disse que os Planos são uns moços muito bonitos que ficam caminhando em volta da cabeça dos jovens e vão sumindo bem devagar, ninguém percebe, e a pessoa acorda um dia que nem minha mãe com muita saudade deles mas não tem mais nada, os Planos todos desapareceram e ninguém sabe dizer exatamente quando.

E meu pai ouviu e completou que os Planos são inimigos das Noites, essas sim umas malditas, ligam música alta, trazem muita bebida, e os Planos não conseguem se organizar com toda essa barulheira e vão indo embora, pra alguma cabeça onde eles possam ficar pensando. Minha mãe riu, mas depois disse que ele estava simplificando tudo. E era de noite, e eles saíram. Estavam muito bonitos, talvez mais bonitos que os Planos.

 

Mariana Salomão Carrara é paulistana, defensora pública, nascida em 1986. Tem publicados um livro de contos, “Delicada uma de nós”, (Off-Flip, 2015), e o romance “Fadas e copos no canto da casa” (Quintal Edições, 2017). Por contos e poemas, recebeu prêmios nacionais como Off-flip (2012), SESC-DF, Felippe D'Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, e Josué Guimarães. Recebeu o segundo lugar no Prêmio Guiões (Portugal, 2019) pelo roteiro de longa-metragem “É lá que eu quero morar”.

 

 

 

SE DEUS ME CHAMAR NÃO VOU

Mariana Salomão CarraraEditora Nós 160 páginasLançamento em julho de 2019

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: