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‘Dias exemplares’: autobiografia fragmentária de um poeta


O 'Nexo' publica trecho do livro do escritor norte-americano Walt Whitman (1819-1892), autor do clássico “Folhas de relva”. Lançada no bicentenário do poeta, a obra reúne dezenas de textos curtos de caráter autobiográfico, em prosa, escritos principalmente ao longo da Guerra de Secessão (1861-1865), nos Estados Unidos. Um livro fragmentário, com uma série de anotações pessoais e memórias de sua vida.

Resposta a um amigo insistente

Você me pede itens, detalhes do começo da minha vida — de minha ascendência e genealogia, em especial das mulheres de minha ancestralidade, e de seu distante ramo holandês, da parte materna —, da região em que nasci e fui criado, e minha mãe e meu pai antes de mim, e os pais de ambos antes deles — com palavras sobre as cidades do Brooklyn e de Nova York, sobre os tempos em que lá vivi, ainda menino e jovem rapaz. Você diz que deseja se debruçar sobre esses detalhes, principalmente como embriões e antecedentes de Folhas de relva. Pois bem; você terá ao menos algumas amostras de tudo. Muitas vezes refleti sobre o sentido dessas coisas — que só se pode abarcar e completar questões desse tipo explorando o que está por trás de si mesmo, talvez muito por trás, diretamente, e assim chegar à sua gênese, aos seus antecedentes e estágios cumulativos. Assim, por acaso, acabei dando fim ao tédio da indisposição e do confinamento de uma semana organizando esses artigos pensando em outro propósito (ainda irrealizado, talvez abandonado); e se você ficar satisfeito com eles, autênticos e simples em sua data de ocorrência e fato, e contados à minha maneira, meio prolixa, aqui estão. Não vou hesitar em citar trechos de outros textos e anotações porque faço tudo para poupar trabalho; mas eles serão as melhores versões do que desejo expressar.

Genealogia – Van Velsor e Whitman

Nos últimos anos do século passado, a família Van Velsor, da parte de minha mãe, vivia em sua fazenda em Cold Spring, Long Island, estado de Nova York, próximo aos limites a leste do condado do Queens, mais ou menos a 1 milha do porto. A família do meu pai — provavelmente a quinta geração dos primeiros ingleses que chegaram à Nova Inglaterra — era nessa época formada por gente do campo com terra própria (e era um belo território, de 500 acres, terra boa, com leves declives a leste e sul, cerca de um décimo dela constituído de bosques cheio de árvores nobres e antigas), distante 2 ou 3 milhas, em West Hills, condado de Suffolk. O nome Whitman nos estados do Leste, e depois se ramificando pelo Oeste e pelo Sul, começa, sem dúvida, em certo John Whitman, nascido em 1602 na Velha Inglaterra, onde cresceu e se casou, e onde seu filho mais velho nasceu em 1629. Ele chegou à América a bordo do True Love em 1640 e viveu em Weymouth, Massachusetts, lugar que se tornou a colmeia-mãe dos perpetuadores do nome a partir da Nova Inglaterra; morreu em 1692. Seu irmão, o reverendo Zechariah Whitman, também chegou a bordo do True Love, naquela época ou algum tempo depois, e viveu em Milford, Connecticut. Um filho desse Zechariah, de nome Joseph, migrou para Huntington, Long Island, e ali se estabeleceu permanentemente. O Dicionário genealógico de Savage (vol. IV, p. 524) assinala que a família Whitman já estava assentada em Huntington antes de 1664, por obra desse Joseph. É quase certo que foi desse início, e de Joseph, que derivaram os Whitman de West Hill, assim como os demais no condado de Suffolk, eu entre eles. Joseph e Zechariah voltaram ambos para a Inglaterra e retornaram diversas vezes; tiveram famílias numerosas, e muitos de seus filhos nasceram no país de origem. Escutamos falar do pai de Joseph e Zechariah, Abijah Whitman, que viveu nos idos de 1500, mas sabemos pouco sobre ele, exceto o fato de que por algum tempo esteve na América. Essas reminiscências de origem vieram a mim muito vividamente em uma visita que fiz há não muito tempo (em meu 63º ano) a West Hills, e ao cemitério em que estão enterrados meus ancestrais de ambas as partes. Tirei das anotações dessa visita, escritas naquele exato local:

Os antigos cemitérios Whitman e Van Velsor

29 de julho de 1881 – Depois de mais de quatro anos de ausência (exceto por uma breve visita para levar meu pai uma última vez ali, dois anos antes de sua morte), fui a Long Island a passeio por uma semana, no lugar onde nasci, a 30 milhas da cidade de Nova York. Circulei pelos antigos lugares familiares, observando, refletindo, demorando-me neles, e recobrei a memória de tudo. Fui à velha propriedade dos Whitman na parte alta da ilha e tive a perspectiva a leste, com o declive a sul, das amplas e belas terras cultivadas de meu avô (1780) e de meu pai. Lá estavam a casa nova (1810) e o velho carvalho, com seus 150 ou 200 anos; lá estavam o poço, a horta em declive e, um pouco mais distante, o que restou, em bom estado de conservação, da casa de meu bisavô (1750-1760), ainda de pé, com suas madeiras rijas e o teto baixo. Perto dali, uma magnânima floresta de altas e vigorosas nogueiras negras com seu porte magnífico, sem dúvida as belas filhas ou netas das nogueiras negras dos idos de 1776 ou antes. Do outro lado da estrada se estendia o famoso pomar de macieiras, cerca de 20 acres, árvores plantadas por mãos que há muito se tornaram pó debaixo da terra (as de meu tio Jesse), mas muitas delas evidentemente capazes de dar anualmente flores e frutos.

Escrevo estas linhas sentado sobre um velho túmulo (certamente, no mínimo centenário), na colina do cemitério de muitas gerações dos Whitman. Cinquenta túmulos ou mais são facilmente identificáveis, e o mesmo número desprovido de qualquer forma — montes de terra já afundados, lápides quebradas ou em pedaços, cobertas de musgo —, a colina cinza e estéril, os montes de nozes por cima, o silêncio, interrompido apenas pelo vento murmurante. Sempre há a mais profunda eloquência dos sermões ou dos poemas em qualquer um desses antigos campos santos, que são tantos em Long Island; então o que este significa para mim? Toda a minha história familiar, em sua sucessão de elos, desde o primeiro povoamento até hoje, contada aqui — três séculos concentrados neste acre de terra estéril.

O dia seguinte, 30 de julho, dediquei à localidade materna e — se é possível — senti-me ainda mais envolvido e impressionado. Escrevo este parágrafo na colina do cemitério dos Van Velsor, próxima a Cold Spring, o mais significativo depositório de mortos que se pode imaginar, sem o menor toque de arte, longe disso, com o solo estéril, uma elevação plana de meio acre quase totalmente desprovida de vegetação, o topo de uma colina cercado de árvores altas e robustas e bosques densos, muito primitivos, ermo, sem visitantes, sem estradas (aqui não se chega a cavalo, é preciso trazer os mortos e acompanhá-los a pé.) Há cerca de vinte a trinta túmulos, todos bem simples; e muitos mais quase inteiramente destruídos. Meu avô Cornelius, minha avó Amy (Naomi) e muitos parentes, próximos ou distantes, da parte de minha mãe, estão enterrados aqui. O panorama que tinha diante de mim, de pé ou sentado — o perfume delicado e selvagem do bosque, uma garoa fria e leve, a atmosfera emocional do lugar e as reminiscências inferidas —, fazia justiça ao lugar.

A fazenda materna

Saí desse lugar de túmulos ancestrais e caminhei uma distância de 80 ou 90 varas até o local da fazenda dos Van Velsor, onde minha mãe nasceu (1795) e onde cada lugar me fora familiar quando criança e jovem (1825-1840). Na época, ali ficava uma casa de madeira, ampla e desconexa, cinza-escura, com oficina, granja, um celeiro grande e um caminho largo. De tudo isso não resta um vestígio sequer; tudo foi demolido, apagado, e o arado e o rastelo passaram por sobre suas fundações e caminhos e tudo o mais, por muitos verões; hoje cercada, com grãos e trevos crescendo como em qualquer outro belo campo de cultivo. Apenas o grande buraco do porão, com alguns pequenos montes de pedra rachada, esverdeada pela relva e pelo mato, identifica o lugar. Todo o cenário, com o que ele desperta — memórias de meus dias de juventude já distantes meio século, a cozinha enorme e a lareira e a sala de estar adjuntas, a mobília simples, as refeições, a casa cheia de gente alegre, o rosto feliz da minha avó Amy com sua touca quacre, meu avô, “o Major”, vermelho, jovial, forte, de voz sonora e fisionomia característica —, com o próprio panorama presente, foi responsável pela metade de dia mais importante de todo o meu passeio.

Pois ali, naquele espaço cercado de colinas, bosques e saúde, minha mãe tão querida, Louisa van Velsor, cresceu (sua mãe, Amy Williams, de denominação quacre ou da Sociedade dos Amigos — a família Williams, sete irmãs e um irmão —, o pai e o irmão marinheiros que encontraram a morte no mar). Os Van Velsor eram conhecidos por seus bons cavalos, animais puro-sangue que os homens criavam e treinavam. Minha mãe quando jovem foi uma amazona corajosa e contumaz. Quanto ao próprio cabeça da família, a velha raça da Holanda, tão profundamente enxertada na ilha de Manhattan e nos condados de Kings e Queens, jamais gerou exemplar tão marcante e completamente americanizado do que o major Cornelius van Velsor.

Walt Whitman foi um poeta, jornalista e ensaísta norte-americano (1819-1892). É autor do clássico “Folhas de relva” (1855), tido como o marco fundador da literatura moderna de seu país.

 

 

 

DIAS EXEMPLARES

Walt WhitmanTradução e posfácio: Bruno GambarottoEditora Carambaia368 páginasLançamento em julho de 2019

 

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