‘Armadilha da identidade’: raça e classe nos dias de hoje


O ‘Nexo’ publica trecho do livro do historiador americano de origem paquistanesa Asad Haider. O autor recupera a história da luta contra o racismo nos Estados Unidos e o legado dos Panteras Negras para tratar de uma discussão polêmica na política contemporânea. O que é mais importante para compreender as dinâmicas sociais atuais: raça ou classe?

Todos nós nascemos em algum lugar, escreveu o filósofo Louis Althusser. Nasci numa pequena cidade na Pensilvânia central, embora fosse difícil entender por quê. Ninguém sabia pronunciar meu nome e em casa falávamos outra língua. Verão sim, verão não, fazíamos as malas e passávamos longas e agonizantes horas em aviões, a fim de ver o resto da nossa família em Karachi.

Não tenho certeza se saí dessa experiência com alguma coisa que parecesse uma identidade. De todo modo, pedaços e partes que podem ter constituído minha individualidade parecem estar espalhados por todo o globo.

A identidade, paradoxalmente, parecia ser determinada a partir de fora – ou talvez mais que isso: parecia não determinada. Em meio aos garotos brancos na Pensilvânia que perguntavam de onde eu era (não podia ser da Pensilvânia) e os parentes paquistaneses que apontavam meu sotaque americano, parecia que, se eu tinha uma identidade, ninguém possuía realmente capacidade de reconhecê-la.

Mas acho que tive uma experiência diferente com minha identidade em setembro de 2001. Naquele dia cheguei à escola e soube que o país tinha sido atacado.

Pelo resto do dia assistimos a aviões colidindo com o World Trade Center, ininterruptamente. Tive dificuldade em analisar as reações de meus colegas de turma.

Eles, é claro, estavam horrorizados, bravos, devastados. Eu estava perplexo.

Não era incomum ver reportagens na TV de incidentes terroristas, ações militares e mesmo golpes no Paquistão. Lembro-me de um jornalista dizendo solenemente que Karachi era “a cidade mais violenta do mundo”. Nos verões da minha infância lá, via as ruas cheias de crianças como eu, mas que estavam sem teto, passando fome, fracas demais para fazer as moscas saírem dos seus corpos. Alguma coisa na geometria política estava fora de alinhamento, e a visão a partir da Pensilvânia parecia limitada demais. Quando Bill Clinton  ordenou um ataque de mísseis à fábrica farmacêutica Al-Shifa no Sudão, minha professora da sexta série nos fez sentar e escrever um parágrafo explicando por que tal atitude foi necessária. Mas eu sabia que do outro lado da tela da televisão havia uma massa de seres humanos que viam as coisas de forma diferente.

O colapso das torres gêmeas, ao qual assistimos incrédulos, também reverberou na minha experiência cotidiana. Até então tinha me acostumado a conviver com uma cultura de tolerância prepotente e excludente. Mas o evento fez vir à tona a hostilidade franca e aberta. Eu era chamado de “Osama” pelos meus colegas de turma, enquanto a professora assistia com indiferença ou concordância. Fui tomado por um medo inesperado em uma sorveteria, quando um homem branco e velho de aparência amigável subitamente fez uma careta ao ver minha família e começou a vociferar em nossa direção sobre “terroristas do Iraque”, enquanto nos dirigíamos a uma mesa empunhando ameaçadoras casquinhas de sorvete.

Minha identidade se tornou uma questão de segurança nacional. Mas como eu poderia responder a esse cenário? Deveria afirmar orgulhosamente uma identidade paquistanesa fixa, uma que nunca pareceu se ajustar direito, que pertencia a um lugar do outro lado do mundo? Ou deveria assimilar o mundo de branquidade à minha volta, mesmo que ele fosse racista e provinciano e nunca tivesse realmente me acolhido?

Se havia uma resposta a essas perguntas, ela não foi fornecida na escola. Portanto, ao lado de minhas outras leituras – mais marcadamente o Manifesto Comunista e Trópico de Câncer – comecei a estudar a questão da identidade. Entre o “Trabalhadores do mundo,uni-vos!” de Marx e Engels, e o nomadismo de Henry Miller – no qual, como Gilles Deleuze afirmou, “tudo é partida, mudança, passagem, salto, daemon, relação com o exterior” –, eu estava convencido da impossibilidade de estabelecer um território fixo.

Na sexta série fiz um projeto de ciência sobre as três Leis de Newton. Próximo a Isaac Newton, na seção de biografia da biblioteca pública, estava “Newton,Huey P.”. Era um livro que chamava atenção pela capa e com um título desorientador: Revolutionary Suicide”.

Acabei me identificando com sua história. Neste mesmo país, neste mundo branco e alienante, havia outros que viveram uma experiência de exclusão bem pior do que qualquer coisa que eu tinha vivenciado. Li com horror o relato de Newton 004 sobre o isolamento na solitária da prisão, mas fiquei sensibilizado pelo seu comprometimento em aprender a ler, debruçando-se repetidas vezes na leitura de A República, de Platão. Ele uniu seu crescimento intelectual à prática política como fundador do Partido dos Panteras Negras, e isso serviu para mim como um modelo de vida mental que era bem mais convincente que o hedonismo boêmio de Henry Miller ou o alpinismo social egoísta esperado dos membros de uma “minoria modelo”.

Mas o que mais importava para mim era que Newton não parou na sua própria identidade. Sua experiência o levou além de si mesmo, assumindo uma política baseada na solidariedade com Cuba, China, Palestina e Vietnã. Seu exemplo corroborou o Manifesto Comunista: a vasta pobreza que testemunhei no Paquistão e a longa história de opressão racial que ecoava nos dias de hoje na Pensilvânia andam de mãos dadas. Qualquer solução teria que confrontar ambas. As percepções desse brilhante pensador, Karl Marx, não pertenciam à Europa. Pertenciam ao mundo todo, a todos que lutavam contra a injustiça. Elas foram refinadas e desenvolvidas na Ásia, África e América Latina. Mesmo aqui, no coração da besta, em meio à acidez e à bílis do patriotismo e do evangelicalismo, os negros americanos mostraram que esse legado não podia ser circunscrito geograficamente.

Li a “Autobiografia de Malcolm X” mais tarde e me aproximei dela com maior ambivalência, cético como me tornei quanto a todas as formas de religião. Mesmo diante da discriminação antimuçulmana, parte dela direcionada especificamente a mim, nunca fiquei tentado a defender o Islã. Odiava os fanáticos religiosos que nos deixaram nessa bagunça. Odiava a cultura toda de irracionalismo, mitologia e repressão sexual. Mas de qualquer forma isso era parte de mim, em palavras, sons, música, arquitetura, e isso trouxe Malcolm mais para perto do mundo que eu conhecia. O Islã, para ele, serviu como um caminho para além do fanatismo. Levou-o a ultrapassar a fixação na sua própria identidade em direção a uma solidariedade com o mundo todo. Como ele disse na Universidade de Oxford em 1964: “Eu, por mim, me unirei com qualquer um, não me importa de qual cor seja, uma vez que queira mudar essa situação miserável que existe neste planeta”. Contra a ascensão de um sentimento antimuçulmano, presente até mesmo em supostos esquerdistas que protestam contra um “Islamo-fascismo”, esse era o tipo de muçulmano com quem eu ficaria orgulhoso que me associassem.

Mas não havia solução real para o duplo vínculo que os muçulmanos e os brancos estabeleceram comigo. Era possível responder aos ataques contra muçulmanos sem assumir a ideologia conservadora e reacionária do Islã? Por outro lado, era possível criticar o dano causado pelo fundamentalismo islâmico sem fazer o jogo dos racistas brancos?

 

Asad Haider é filho de imigrantes paquistaneses e nasceu nos Estados Unidos. É doutor em história da consciência pela Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. Foi um dos criadores da revista Viewpoint Magazine, sobre política contemporânea.

 

 

 

A ARMADILHA DA IDENTIDADE

Asad HaiderTradução Leo Vinicius LiberatoEditora Veneta144 páginasLançamento em julho de 2019

 

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