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‘Terror e modernidade’: uma relação básica das sociedades


O ‘Nexo’ publica trecho do livro da professora de filosofia italiana Donatella Di Cesare sobre como o terrorismo se conecta às sociedades modernas. A partir de uma abordagem histórica, a autora argumenta que o terror não é uma anomalia ou fenômeno recente, mas parte fundamental da modernidade

1. Bataclan

À medida que os gritos dos alunos que saem desordenados do Colégio Robespierre silenciam, ressurge o habitual ruído de fundo que pontua o ritmo da rue Georges-Tarral, uma pequena rua no modesto bairro parisiense de Bobogny. É a tarde de 13 novembro de 2015. Num apartamento anônimo do segundo andar de um prédio moderno em frente à escola, depois de uma longa preparação, sete homens se armam de celulares, fuzis kalashnikov e cintos explosivos. Eles fazem parte de dois esquadrões: o que atacará o Stade de France e o que tem como alvo os bistrôs do XIème arrondissement, região que é um símbolo da abertura e do encontro de culturas em Paris. Os membros do terceiro esquadrão estão alojados no residence Appart’City de Alfortville, localizado a pouco mais de dez quilômetros da Place de la République.

A operação é considerada “oblíqua” pela estratégia utilizada: organizada na Síria e comandada da Bélgica. Mohamed Belkaid, um argelino de 35 anos, conhecido das forças antiterrorismo francesas e mentor religioso do grupo, coordena os ataques utilizando apenas um celular Samsung e dois chips. Belkaid morrerá no dia 15 de março de 2016 em Forest, depois de escapar de três incursões da polícia belga para cobrir a fuga de Salah Abdeslam.

De uma ponta a outra de Paris, os três esquadrões atuam em perfeita sincronia. Nada é deixado ao acaso. O primeiro ataque, durante a partida de futebol, tem o objetivo de desviar a atenção da polícia. O segundo, uma série de ataques surpresa, serve para atrair as forças policiais e os socorristas, abrindo assim caminho para a terceira e definitiva ofensiva, a carnificina do Bataclan. O resultado das ações é de 130 mortos e mais de 360 feridos. Esse foi o ataque mais sangrento em solo francês desde a Segunda Guerra Mundial. Além dos efeitos devastadores das explosões, os homens dos três esquadrões fizeram cerca de seiscentos disparos com os fuzis kalashnikov. A rápida sequência de atentados transforma o coração da metrópole num cenário bélico nos moldes do Iraque e da Síria. A escuridão recai sobre a Cidade Luz numa longa noite de sangue. Pela primeira vez, as vítimas não são inimigos declarados — jornalistas ou muçulmanos apóstatas —, como na tragédia do Charlie Hebdo, nem judeus, como no caso do mercado Hyper Casher, em Porte de Vincennes. O jihadismo global se destitui de qualquer tipo de critério: os massacres são indiscriminados.

Os três carros usados no ataque — um Polo, um Seat e um Clio — têm placas belgas. Foram alugados por Brahim e Salah Abdeslam, dois irmãos franco-marroquinos que cresceram em Molenbeek-Saint-Jean, um subúrbio superpovoado de Bruxelas, bastião do islamismo no país. Contudo, não é possível afirmar que Brahim e Salah sejam muçulmanos fervorosos. Depois de colecionarem uma série de condenações por pequenos delitos, em 2013 os irmãos abrem o bar Les Béguines, onde o álcool, o jogo e o tráfico fazem parte do dia a dia. Usuário de maconha, introvertido e influenciável, Brahim, de 31 anos, é muito diferente do irmão caçula, Salah, que é mulherengo, amante de carros e passa os dias assistindo a vídeos do Estado Islâmico (Daesh). Ambos se radicalizaram apenas um ano antes e desde então se dedicaram à preparação do atentado. Salah foi o único sobrevivente; depois de fugas cinematográficas, foi preso no dia 18 de março de 2016 e hoje está encarcerado na prisão de segurança máxima de Fleury-Mérogis.

Pouco se sabe a respeito de Mohammad al-Mahmod e Ahmad al-Mohammad, ambos iraquianos, que se explodiram em frente ao estádio. Esse foi o mesmo destino do mais jovem dos jihadistas, o belga de vinte anos Bilal Hadfi, que se juntara ao grupo um ano antes na Katībat al-Muhājirīn, a brigada dos imigrantes na Síria, onde conheceu Chakib Akrouh, um franco-marroquino de 25 anos, e também Abdelhamid Abaaoud, cujo vídeo em que dirige uma caminhonete arrastando cadáveres de civis sírios pelo deserto de Raqqa viralizou na internet. Mesmo sendo procurado por muitos serviços de inteligência, Abaaoud, que possuía passaporte belga, consegue chegar à capital francesa, onde se prepara para guiar um grupo de nove homens numa sofisticada operação terrorista sem precedentes.

Os três protagonistas do massacre do Bataclan são franceses de origem argelina. Samy Amimour, de 28 anos, de olhar vidrado, bigode fino e cabeça quente — a qual será encontrada depois de quatro horas no cenário dos ataques, separada do corpo pela força das bombas de seu cinto explosivo. De rosto abatido, olhos azuis, barba longa e fina, Ismaël Omar Mostefaï teria completado trinta anos no dia 21 de novembro; depois de um passado cometendo pequenos furtos, aparece num vídeo decapitando um refém. No Bataclan, luta até o último momento. Ao seu lado se explode Foued Mohammed-Aggad, 23 anos, de Estrasburgo. Muçulmano praticante, tem as axilas raspadas — uma prática seguida pelos «mártires» antes de morrer —, como puderam constatar na autópsia os médicos-legistas, que notaram também a presença de uma «área de hiperqueratose», uma marca deixada na testa devido à posição prostrada durante os frequentes momentos de oração. Os três jihadistas, que passaram por uma formação de dois anos no Estado Islâmico, têm a determinação dos combatentes.

Às 21h17, com a primeira explosão, começa uma série ininterrupta de ataques. Ahmad al Mohammad se desintegra em frente ao portão D do Stade de France. Depois de dois minutos é a vez de Mohammad al-Mahmod, que escolhe o portão H. Apesar de os estilhaços metálicos contidos nas bombas terem provocado dezenas de feridos, o estrago poderia ter sido muito maior se as explosões tivessem acontecido dentro do estádio. A decisão dos jihadistas de acionarem as bombas do lado de fora permanece um mistério; não se sabe se foi um contratempo ou uma decisão premeditada. É 21h20 o horário do último telefonema entre Abaaoud e Bilal Hadfi, antes que este se exploda.

O Seat com o segundo esquadrão começara poucos minutos antes o giro dos bares e restaurantes: Carillon, Petit Cambodge, La Bonne Bière. Sob as balas dos kalashnikov — essa arma de guerra fácil de comprar e de manusear — morrem mulheres, homens e crianças que são soft target, high value, ou seja, alvos fáceis de grande valor. O balanço é de 39 vítimas. Ao término desse périplo da morte, Brahim Abdeslam desce do carro e senta-se por alguns instantes no bistrô Comptoir Voltaire. As imagens das câmeras de segurança mostram com clareza seu gesto: ele se levanta lentamente, põe a mão esquerda sobre os olhos, como que para protegê-los, e com a direita aciona o cinturão com os explosivos.

Um café-concerto de estilo oriental, inaugurado em 1865, o nome Bataclan — originalmente Ba-Ta-Clan — deriva de uma canção de sucesso composta por Jacques Offenbach. O local, que sempre funcionou como uma casa de espetáculos, oferece uma programação variada que inclui também shows de rock. No dia 13 de novembro, quem toca ali é o grupo Eagles of Death Metal, uma banda californiana. Mais de 1.500 pessoas se espremem na plateia enquanto dançam, pulam e tiram selfies. Jesse Hughes dedilha sua guitarra. São 21h50 quando o grupo toca ”Kiss the Devil” [Beije o diabo]. Os primeiros versos cantam: I meet the devil and this is his song [Encontro o diabo e esta é sua canção]. No mesmo instante começam os primeiros disparos, de início confundidos com efeitos especiais.

Donatella Di Cesare é professora de filosofia na Universidade La Sapienza em Roma e na Scuola Normale Superiore em Pisa.

 

 

 

TERROR E MODERNIDADE

Donatella Di CesareEditora Âyiné246 páginasLançamento em julho de 2019

 

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