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‘A terra, o homem, a luta’: um guia para ler ‘Os sertões’


O Nexo publica trecho do livro do pesquisador e professor de teoria literária Roberto Ventura (1995-2002) sobre ‘Os sertões’, de Euclides da Cunha (1866-1909). A obra analisa o texto que é um dos marcos nos estudos sobre a formação do Brasil. ‘Os sertões’ foi escrito a partir de um trabalho jornalístico sobre a rebelião de Canudos, no interior da Bahia, e publicado em 1902. O trecho a seguir faz parte da introdução do guia, ‘Um sucesso imprevisto’

“Os sertões: campanha de Canudos” chegou às livrarias em 2 de dezembro de 1902, no dia seguinte ao desembarque, na capital da República, de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, vindo de Berlim para assumir o Ministério das Relações Exteriores do governo Rodrigues Alves (1902-06). De seu autor, Euclides da Cunha, já se disse que dormiu obscuro e acordou célebre, conforme a pitoresca expressão do crítico Sílvio Romero.

O fulminante êxito da obra surpreendeu o escritor e o próprio editor Gustavo Massow, da Laemmert, que temia que o grosso volume repetisse o fracasso de outra obra histórica, A Marinha de outrora, do Visconde de Ouro Preto. Afinal, já perdera a atualidade o tema do livro, que resultou da cobertura jornalística da Guerra de Canudos, no nordeste da Bahia, feita para O Estado de S. Paulo de agosto a outubro de 1897.

Cinco anos tinham se passado desde que as forças da 4a expedição, comandadas pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães, tomaram o povoado em 5 de outubro de 1897, trucidando os prisioneiros e queimando seus casebres e igrejas com tochas de querosene e bombas de dinamite. Tanto que O Estado, dirigido por Júlio Mesquita, que o convidara para cobrir o conflito, não mostrou interesse em editar a obra, e o Jornal do Commercio, do Rio, pertencente a José Carlos Rodrigues, também recusou sua publicação.

Também não era novidade a denúncia da chacina cometida pelas Forças Armadas em Canudos, segundo um dos objetivos propostos por Euclides logo na “Nota preliminar” de “Os sertões”: “Aquela campanha [...] foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”. O massacre fora criticado com veemência, logo após o término do conflito, pelo monarquista Afonso Arinos, no jornal O Comércio de São Paulo, que divulgou também um relatório sobre os abusos cometidos contra mulheres e crianças, redigido pelo jornalista Lélis Piedade, do Comitê Patriótico da Bahia, criado para dar assistência às vítimas da guerra.

Três livros de 1899 também acusaram o Exército pela degola dos prisioneiros: “Descrição de uma viagem a Canudos”, de Alvim Martins Horcades, um estudante de medicina que participara da guerra como voluntário; “Libelo republicano”, lançado, sob o pseudônimo de Wolsey, pelo deputado baiano César Zama; e o romance-reportagem “O rei dos jagunços”, de Manuel Benício, que cobrira a guerra como correspondente do Jornal do Commercio, do Rio.

No final do ano de 1902, a opinião pública parecia já ter esquecido Canudos e seu líder, Antônio Conselheiro (1830- -1897), para se voltar para outro conselheiro, o político e fazendeiro paulista Francisco de Paula Rodrigues Alves, que assumira a Presidência da República no dia 15 de novembro, duas semanas antes do lançamento do livro de Euclides. Republicano de última hora, Rodrigues Alves logo nomeou prefeito da capital federal o engenheiro Francisco Pereira Passos, com a missão de remodelar e higienizar – junto com o médico sanitarista Oswaldo Cruz, diretor-geral da Saúde Pública – a cidade do Rio de Janeiro e convertê-la em vitrine da “Belle Époque tropical”, segundo a expressão do historiador norte- americano Jeffrey Needell.

Com 637 páginas em formato in-oitavo, Os sertões trazia estampado na folha de rosto o emblema da Casa Laemmert, na rua do Ouvidor, no Rio. Nesse emblema, as iniciais cl servem de apoio a um livro aberto, sobre o qual se senta uma coruja, símbolo da sabedoria, circundada pela divisa, em latim, Nulla dies sine linea: nenhum dia sem linha (escrita ou lida). A narrativa da Guerra de Canudos, precedida de um estudo da natureza e do homem do sertão, vinha ilustrada por desenhos de paisagens e mapas geológicos, botânicos e geográficos, inspirados nas viagens de exploração científica, e por fotografias do conflito tiradas por Flávio de Barros.

Euclides pagara do próprio bolso metade dos custos da edição, tendo contribuído com a quantia de 1 conto e 500 mil-réis, quase o dobro de seu salário como engenheiro da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Isso depois de ter levado, em dezembro de 1901, ao jurista e escritor Lúcio de Mendonça a carta de um engenheiro da Escola Politécnica de São Paulo, Garcia Redondo, que recomendava o livro, e de ter sido apoiado pelo influente crítico José Veríssimo.

No entanto, embora quase tudo conspirasse contra seu êxito, “Os sertões” se tornou um dos maiores sucessos de público e de crítica do Brasil, com mais de 50 edições em língua portuguesa e traduções em pelo menos nove línguas. Em 1994, em pesquisa feita com 15 intelectuais pelo jornalista Rinaldo Gama, da revista Veja, o livro foi apontado como o mais importante da cultura brasileira. A obra de Euclides recebeu um total de 15 votos, seguida de “Casagrande & senzala” (1933), de Gilberto Freyre, com 14, e “Macunaíma” (1928), de Mário de Andrade, com 11. Machado de Assis foi, porém, o escritor mais votado, e o único a figurar na lista com duas obras: “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881) e “Dom Casmurro” (1899).

Roberto Ventura (1956-2002) foi professor de teoria literária e literatura comparada da Universidade de São Paulo. Um dos principais estudiosos da obra de Euclides da Cunha no Brasil, é autor, ainda, de “História e dependência: cultura e sociedade em Manoel Bonfim”(1984), escrito em parceria com Flora Sussekind, “Escritores, escravos e mestiços em um país tropical”, (1987), “Estilo tropical” (1991), entre outros.

 

 

 

A TERRA, O HOMEM, A LUTA

Roberto VenturaEditora Três Estrelas104 páginas Lançamento em junho de 2019

 

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