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‘Jovita Alves Feitosa’: uma voluntária da Guerra do Paraguai


O ‘Nexo’ publica trecho do livro do historiador José Murilo de Carvalho sobre a cearense Jovita Alves Feitosa, que aos 17 anos se disfarçou de homem para lutar como voluntária na Guerra do Paraguai (1864-1870). O volume reproduz e analisa documentos, fotos e homenagens a  Jovita, distinguindo fatos e mitos sobre a personagem, que teve sua trajetória como combatente interrompida por ser mulher e morreu de maneira trágica, longe dos campos de batalha.

É extensa a lista de mulheres guerreiras na história universal.A vida de quase todas se compõe de um misto de verdade e mito, de fatos e fantasias, desafio para historiadores, prato feito para ficcionistas.O Brasil não é exceção.Nossa história registra a presença delas desde os tempos coloniais, lutando às vezes como mulheres, às vezes travestidas de homens.

Também entre nós os relatos de suas vidas combinam com frequência mito e realidade. É esse o caso de Jovita Alves Feitosa, uma voluntária da Guerra do Paraguai que tem merecido a atenção de ficcionistas e historiadores, mais dos primeiros que dos segundos. Este livro pretende ser um esboço de biografia de Jovita, buscando distinguir, na medida do possível, fato e mito, sem esquecer que, de algum modo, a mistura dos dois faz parte da própria complexidade da personagem.

Em 28 de dezembro de 1864 o Paraguai invadiu a província de Mato Grosso, entrando em guerra com o Brasil, país que na época não dispunha de forças militares suficientes para

enfrentar uma guerra externa. O Governo dirigiu-se, então, à população, pedindo voluntários. A imprensa da Corte e das principais capitais provinciais reproduziu e reforçou o apelo do Governo. Apesar da precariedade das comunicações, o chamado chegou a regiões remotas do país e criou um ambiente de excitação patriótica.

As notícias da guerra e o chamamento do Governo chegaram até Jaicós, no interior do Piauí. Lá, uma sertaneja cearense de dezessete anos,Jovita Alves Feitosa, de família modesta, apesar do sobrenome, tomou conhecimento dos fatos. Indignada, como declarou, com as crueldades cometidas pelos paraguaios contra as mulheres brasileiras no Mato Grosso, resolveu atender ao chamado. Vestiu-se de homem, foi para a nova capital, Teresina, e se apresentou como voluntário para matar paraguaios. Descoberto o disfarce, Jovita foi, mesmo assim, aceita como voluntária pelo presidente da província, no posto de segundo-sargento.

Nesse posto, e incorporada ao 2º Corpo de Voluntários do Piauí, fez um percurso triunfal de Teresina ao Rio de Janeiro, passando por São Luís,Recife,Paraíba (hoje João Pessoa), Salvador. Foi recebida em palácios presidenciais, exaltada nos teatros, presenteada, bombardeada com versos e aplausos.

Chamaram-na a Joana d’Arc brasileira. Na Corte, repetiu-se o clima de exaltação. Mas logo veio uma ducha de água fria: a Secretaria da Guerra recusou sua incorporação como combatente. Só poderia ser aceita para o serviço de saúde, como já o fora a baiana Ana Néri.

Frustrada e desorientada, Jovita voltou para Teresina, mas acabou retornando à Corte, onde, segundo um jornalista do Correio Mercantil, se tornou uma das “elegantes do mundo equívoco”. Jovita desapareceu do noticiário jornalístico até 10 de outubro de 1867, quando foi divulgado que, agora voluntária da morte, se suicidara na véspera com uma punhalada no coração, à Praia do Russel, 43, onde residia seu amante, o engenheiro galês Guilherme Noot. A razão imediata da trágica decisão fora a partida do engenheiro para a Inglaterra na manhã do dia 9, sem dela se despedir pessoalmente. Vários jornais da Corte publicaram obituários que foram reproduzidos por outros em diversas capitais provinciais. Alguns poemas e novelas lhe foram dedicados.

Depois, silêncio quase total envolveu sua memória. Mas nos últimos 25 anos seu nome reapareceu em livros que mesclam mito e realidade. O mito mais poderoso tem a ver com sua morte. Desafiando evidências em contrário, começou-se a admitir, ou a imaginar, a morte heroica da voluntária nos campos de batalha do Paraguai. A par disso, sua memória passou a ser recuperada também como heroína de outra guerra, a das mulheres, pela igualdade de direitos. Talvez tenha sido por conta dessas releituras que foi apresentado em 2013 na Câmara dos Deputados projeto que pedia sua inscrição no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, localizado em Brasília. Em 2017 o projeto foi transformado em lei e, em cerimônia oficial no dia 12 de dezembro de 2018,Jovita tornou-se heroína da pátria.

Escrever sobre Jovita, buscar entender seus sonhos e sua luta, não foi tarefa fácil. Ela não deixou escritos. Só há três registros confiáveis de declarações suas. Um deles consta do depoimento que deu ao chefe de polícia de Teresina; outro é uma entrevista concedida no Rio de Janeiro a um biógrafo, escondido sob o pseudônimo de Um Fluminense; o terceiro, uma conversa em hotel do Rio de Janeiro e um poemeto de alguém que também se ocultou sob pseudônimo, o de Sisno de Fashera. A carta de suicídio encontrada pela polícia em seu bolso não pôde ser localizada. Mas, acrescentando a esses documentos o amplo noticiário jornalístico, os artigos em jornais e revistas, os poemas, as novelas e fotografias, temos material suficiente para reconstituir boa parte de sua vida após a apresentação como voluntária. Essas fontes permitem também vislumbrar algumas características de sua personalidade e as complexas relações que se estabeleceram entre ela e a sociedade de seu tempo. Se agregou e inspirou como heroína da pátria,Jovita também desagregou ao desafiar o papel atribuído à mulher em uma sociedade patriarcal. Aos que a exaltavam como mulher pública no sentido cívico, contrapunham-se os que a desclassificavam como mulher pública no sentido moral predominante na época. Jovita foi mulher polissêmica, aberta a múltiplas leituras. Ela merece ser mais bem conhecida.

Neste livro, preocupei-me em dar voz aos personagens, colocando o leitor em contato direto com os documentos de época. No caso de Jovita, as fontes são fragmentadas e de natureza variada. Apresentá-las em bloco desorientaria o leitor. Optei por dividi-las de acordo com os passos de Jovita como voluntária da pátria, como Joana d’Arc do Brasil, como voluntária da morte e como objeto de novas apropriações. Para transmitir logo de início o sabor da época, reproduzo, a seguir, a pequena biografia publicada em 1865, escrita por Um Fluminense (José Alves Visconti Coaraci), até hoje a principal fonte sobre a voluntária.

 

José Murilo de Carvalho nasceu em Minas Gerais em 1939. É historiador e cientista político, professor emérito da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra e membro das academias brasileiras de Letras e de Ciências. Organizou 15 livros e é autor de 12, entre os quais “A construção da ordem — Teatro de sombras” (1996), “Os bestializados” (1987), “A formação das almas”(1990), “D. Pedro II” (2007) e “O pecado original da República” (2017).

 

 

JOVITA ALVES FEITOSA

José Murilo de CarvalhoChão Editora152 páginasLançamento em maio de 2019

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