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‘A armadilha’: ficção sobre a ocupação nazista na França


O ‘Nexo’ publica trecho do romance do escritor francês Emmanuel Bove (1898-1945) ambientado na França ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra (1939-1945). Bove narra a história do jornalista Joseph Bridet, que busca obter um salvo-conduto para ir à África, pensando em partir de lá para a Inglaterra, e acaba se tornando correspondente oficial do governo na Argélia. A nova edição traz, também, editoriais do jornal Combat, escritos por Albert Camus durante a batalha para a retomada de Paris.

1.

Desde sua chegada a Lyon, Bridet procurava um meio de passar à Inglaterra. O que não era fácil. Ele passava seus dias a correr para qualquer lugar onde pudesse haver uma chance de encontrar amigos que ainda não tivesse revisto. Frequentava a brasserie próxima ao grande teatro, onde se reuniam os jornalistas ditos vira-casacas, caminhava pela rue de la République, tratando de descobrir nos terraços dos cafés figuras conhecidas, retornava ao hotel algumas vezes por dia na esperança de encontrar uma carta, um pedido de encontro, um sinal, enfim, do exterior.

Mas naquela horda que invadira a cidade, em meio às dificuldades vivenciadas por cada um, entre todas as pessoas que, se em Paris se conheciam, não se frequentavam, não existia espaço para o menor sentimento de solidariedade. Apertávamos as mãos, esforçávamo-nos para manter um ar tão contente no décimo encontro quanto no primeiro, sentíamos compaixão na imensa catástrofe, fingindo crer que o infortúnio une mais do que divide, mas a partir do momento em que, cessando de falar da miséria geral, tentávamos fazer alguém interessar-se por nosso pequeno caso particular, encontrávamo-nos em frente a uma parede.

Bridet voltava à noite extenuado. Para manter seu quarto, tinha de simular a cada semana uma partida, pois os hotéis estavam reservados aos viajantes de passagem. “É um tanto quanto grotesco”, pensava, “não ter encontrado ainda, após três meses, uma maneira de escapar. Isso está se tornando até perigoso”. Todo mundo já suspeitava que ele quisesse ir embora. Nada revela mais nossas intenções do que uma longa impotência. Ao pedir sempre sem obter, acabamos passando a ideia de que jamais teremos sucesso, de que pertencemos àquela categoria um tanto ridícula de homens cujos desejos são demasiado grandes para suas possibilidades.

 

* * *

 

No dia 4 de setembro de 1940, Bridet acordou mais cedo do que de hábito. Ele ocupava um pequeno quarto no Hôtel Carnot, número 59. O último quarto, que dava para a Praça Carnot, em frente à estação de Perrache. A noite inteira ele havia escutado as idas e vindas. Os franceses nunca tinham viajado tanto. Antes de nascer o dia, escutara os primeiros bondes. Então a vida continuava como antes! Então ainda existiam operários que iam ao trabalho! E essa vida normal que os entrechoques dos vagões na madrugada e os barulhos das rodas de ferro sobre os trilhos evocavam tinha algo de desesperador.

O sol havia nascido, mas não ultrapassara ainda as casas plantadas no outro lado da praça, e seus raios, que não pousavam sobre coisa alguma, que se espalhavam simplesmente pelo espaço, davam ao céu um aspecto primaveril. Subitamente, no teto, uma pálida luz dourada veio descansar. Bridet se lembrou das manhãs de férias e sentiu uma pontada no coração. Então a vida ainda era linda. Também ele desejava viajar. Mas em Avignon, em Toulouse, em Marselha, o que encontraria de melhor? Em toda parte sentia-se sufocado. Onde quer que se fosse, sentia-se estar prestes a ser esmagado por uma polícia cada vez mais numerosa. Cada agente estava acompanhado por outro agente, às vezes até mesmo por um civil que, em sua pressa em mostrar serviço, não havia aguardado até que um uniforme lhe fosse dado.

“Isso me enoja, mas assim mesmo é necessário que eu vá ver Basson”, murmurou Bridet. A cada dia dizia a si mesmo que devia ir a Vichy. Ressentia-se por ter esperado demais. Arrastara-se ao longo de todo o verão pelos vilarejos de Puy-de-Dôme, de Ardèche, de Drôme, esperando não sabia o quê, e agora tinha a sensação de que o que poderia ter feito na confusão que se seguira ao armistício tornava-se cada dia mais difícil.

Ele tinha amigos, Basson, por exemplo. Este último lhe obteria uma missão qualquer, um passaporte. Uma vez fora da França, Bridet se sairia bem. A Inglaterra não era, afinal de contas,inacessível.

“É absolutamente necessário que eu veja Basson”, repetiu. Ele teria apenas de esconder o jogo. Diria a todos que queria servir à Revolução Nacional.

“Acreditarão em mim?”, perguntou-se. Acabara de lembrar que tinha falado muito, que durante muito tempo não deixara de dizer o que pensava, que ainda hoje lhe acontecia de não conseguir se conter. Até o presente, essa loquacidade parecia não ter tido consequências, mas, subitamente, no momento de agir, parecia-lhe que o mundo inteiro conhecia os seus planos. Pensou então, para retomar a coragem, que no fundo as pessoas não nos julgam a partir do que dissemos — elas que disseram tantas coisas — mas a partir do que dizemos no momento presente. Ele tinha apenas de se entregar inteiramente ao Marechal. Era um homem maravilhoso. E salvara a França. Graças a ele, os alemães nos tinham respeito. Eles superavam a própria vitória. Nós superávamos nossa derrota, o que permitia que os dois povos se falassem quase de igual para igual. É isso que era preciso ser dito. Em presença de alguém mais empolgado, era possível ir ainda mais longe. Se cada francês se examinasse a fundo, se estivesse de boa-fé, deveria reconhecer que sentira um imenso alívio com a assinatura do armistício.

“Vocês estavam nas estradas e agora estão em suas casas”, dissera o Marechal. Bridet tinha apenas de dizer a mesma coisa. E não devia ter nenhum escrúpulo em enganar pessoas como aquelas. Podia lhes dizer qualquer coisa. Mais tarde, quando se juntasse a De Gaulle, ele se refaria.

 

* * *

 

Uma vez vestido, saiu. A cem metros dali, entrou em outro hotel para fazer a habitual visita matinal à sua mulher.

O célebre cartaz representando a bandeira tricolor no meio da qual encontrava-se desenhada a cabeça do Marechal um pouco de viés, por modéstia, voluntariamente afinada, com um colarinho falso engomado, um quepe sem a mínima inclinação e aquela expressão de honestidade, de ligeiro amargor, de firmeza que não exclui a bondade, que os maus artistas sabem tão bem conferir, escondia o grande vitral central.

Yolande também encontrara um quarto. Este, como o de seu marido, era demasiado pequeno para que ali se pudesse dormir a dois. O que, aliás, não descontentava tanto Bridet. Ele se encontrava em tal estado de abatimento que preferia estar sozinho.

Ele amara muito sua mulher, mas, desde o armistício, sem que se desse conta claramente, distanciara-se um pouco dela. De repente, ela tinha vontades, desejos que não eram os seus. Ela também fora atingida pela catástrofe e parecia descobrir agora que existiam na vida outras coisas importantes para além do bom entendimento entre um casal.

Ela se inquietava por sua família, que permanecera em Paris, ela que durante anos não se preocupara com eles. Estava ansiosa por rever pessoas que até então lhe tinham sido indiferentes. Falava sem cessar de sua pequena loja de moda da rue Saint-Florentin e de seu apartamento, como se lá ela tivesse vivido sozinha.

Bridet sentia ter se transformado aos olhos dela, pouco a pouco, não em um estranho, mas em um desses seres que negligenciamos um pouco, pois, apesar do amor que têm, eles não podem fazer nada por nós. E, no fundo de seu coração, ele calculava que ela tinha razão em julgá-lo assim. De fato, ele não podia fazer nada por ela. Enquanto existira um exército, fazendo parte dele, ele defendera sua mulher. Atualmente, não a defendia mais. Não podia ir em seu lugar solicitar um Ausweis, não podia encontrar-lhe um simples quarto, nem um táxi, não podia enviar dinheiro a sua família em Paris, nem se ocupar da loja, não podia absolutamente nada. Ela o sabia e, delicadamente, habituava-se a contar apenas consigo mesma.

 

Ele se sentou junto a ela. Até o momento, jamais fizera a menor alusão a seu desejo de ir embora.

 

— Escute, Yolande. Preciso falar com você seriamente.

 

Ela o olhou sem parecer notar que ele estava mais circunspecto do que de hábito. Havia bastante gente no saguão. Seria  preciso falar em voz baixa, olhando ao redor a cada instante.

 

— Vamos mais para lá — disse Bridet —, ali estaremos mais

tranquilos.

 

Yolande se levantou. Eles foram se sentar lado a lado no fundo do saguão.

 

— Refleti a noite toda — disse Bridet. — É preciso que eu vá falar com Basson.

 

Yolande ficou em silêncio. Bridet se agitou. Não aguentava mais. E se arrependia de não ter dado um basta naquilo antes. Sua decisão agora estava tomada. Iria falar com Basson. Assumiria ares de franqueza e lhe afirmaria sua admiração pelo Marechal... Pediria apoio. Basson era um velho camarada. E não lhe recusaria isso. Mas dizemos tantas coisas quando passamos meses juntos, descontentes e miseráveis, fazemos tantos projetos sem que nada mude em nossas vidas, que, quando tomamos uma decisão, notamos de súbito que ninguém tem motivo para acreditar em nós.

 

— Você está louco! — disse ela.

 

Bridet respondeu que havia refletido bastante.

 

— Eu admiro o Marechal — repetiu em voz alta.

 

— Ninguém acreditará em você — respondeu-lhe Yolande ao pé da orelha. — Você pensa que as pessoas são idiotas. Vai acabar preso. Todo mundo sabe o que você pensa. Você já o disse o bastante. Por que insiste nisso? Por que você não quer que voltemos a Paris?

 

 

 

 

 

A ARMADILHA

Emmanuel BoveTradução Paulo Serber Figueira de Mello208 páginasEditora MundaréuLançamento em maio de 2019

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