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‘Kawabata-Mishima’: correspondência e cultura japonesa


O ‘Nexo’ publica trecho do livro que reúne as cartas trocadas entre Yasunari Kawabata, primeiro escritor japonês a vencer o Prêmio Nobel, e o novelista e dramaturgo Yukio Mishima. A correspondência, enviada entre 1945 e 1970, trata de assuntos cotidianos, mas acompanha acontecimentos históricos, como a ocupação americana do Japão após a Segunda Guerra e a Olimpíada de 1964 em Tóquio, e o processo de projeção internacional dos dois autores.

De Yasunari Kawabata Kamakura-shi, Nikaido no 325Ao sr. Kimitake Hiraoka (A/c do sr. Azusa Hiraoka)Tóquio, Shibuya-ku, Oyama-cho nº15

8 de março de 1945

Hoje recebi fortuitamente de Noda sua elevada obra “Floresta em plena florescência”. Havia lido uma parte na revista Cultura artística, e seu estilo já me prendera o interesse desde então, de modo que estou ansioso agora por ler o livro completo.

Quanto a Yoshihisa, eu também queria escrever sobre ele e por isso estou pesquisando um pouco, tanto que outro dia tive vontade de mandar uma carta a Nakagawa.

Quem me entregou o “Floresta em plena florescência” hoje foi Shimaki, em casa de conhecidos em Kita-Kamakura. Havendo eu saído para ver os preparativos de evacuação de patrimônios devido à guerra, pude notar um número tão grande de coisas que até parecia mentira: eram obras de Sotatsu, Korin, Kenzan, além de koya-gire e ishiyama-gire, com algumas chegando a remontar às eras do Tenpyo e mesmo Suiko; até esqueci o clima recente. As ameixeiras vermelhas, a propósito, já desabrochavam.

Por ora lhe escrevo abreviadamente, sem mais.

Yasunari Kawabata

 

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(Cartão-postal)De Kimitake Hiraoka (A/c do sr. Azusa Hiraoka)Tóquio, Shibuya-ku, Oyama-cho no 15 Ao sr. Yasunari Kawabata Kamakura-shi, Nikaido nº 325

16 de março de 1945

 

Agradeço muito por o senhor, além de não fazer nenhuma reprimenda frente à indelicadeza de receber abruptamente um livro meu através de Noda, agraciar-me ainda com uma cortês correspondência.

A capital não tardou a se tornar um palco para a guerra; em meio à frialdade que voltou a enregelar a capital, as ameixeiras murcharam antes mesmo que se pudesse refletir sobre seu desabrochar, e vamos perdendo o frescor característico da primavera. Eu pretendia aproveitar a folga de agora para tentar escrever as histórias românticas “Yoshimasa” e “Antes das íris”, mas não sei o que será.

Ontem me deparei com “O País das Neves” em uma loja de livros usados em Aoyama e o comprei. Não deixe de cuidar da saúde.

Abreviadamente,

 Kimitake Hiraoka

 

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De Kimitake HiraokaTóquio, Shibuya-ku, Oyama-cho nº 15Ao sr. Yasunari Kawabata Kamakura-shi, Nikaido no 325

 

18 de julho de 1945

Desculpe-me o largo silêncio. Espero que o senhor tenha passado bem de saúde e sem problemas. Pois bem, devido aos esforços de guerra, recebi ordens de mobilização de trabalho a partir de 5 de maio, e meu endereço atual é “Kanagawa-ken, Koza-gun, Agência Yamato, A/c do Arsenal de Koza, Quinto Dormitório de Operários, Faculdade de Direito da Universidade de Tóquio, Primeira Companhia”. Por acaso estive de regresso à capital e, sentindo o desejo súbito de contatá-lo, dedico-me agora a esta carta.

Aqui me incumbiram do trabalho de cuidar da biblioteca dentro do dormitório destinado aos universitários, onde passo os dias agradecendo pela dádiva de ter tempo suficiente para escrever. À parte isso, também me encarrego de editar a revista interna do dormitório e de outras tarefas, tratando-se todas de responsabilidades que me agradam muito, o que me faz pensar ser minha vida atual bastante feliz. Em meu quarto pendurei o tanzaku “Despedida na manhã seguinte”, do mestre Sato; na estante de livros mantenho obras de Chikamatsu, Namboku, Kyoka, Yakumo, Tagore, Nerval, entre outros; o vaso de flores decoro com cardos estivais — entretanto, enquanto os cardos e eu observamos pela janela os prédios do dormitório pintados com uma camuflagem suja, as grandes chaminés gastas pelo tempo e as nuvens brancas, os dias vão passando e nos cansamos de esperar o verão que não chega. Preocupo-me, pois, apesar de eu gostar de trabalhar lutando contra o calor, o clima deste ano insiste em continuar fresco em demasia, e parece refrear a vontade que com tanto esforço se havia em mim excitado.

 A guerra só faz se tornar mais violenta, de modo que minha escrivaninha para trabalhos de literatura começou repentinamente a se estreitar. Só resta espaço para um mero maço de papéis. Mesmo para usar a caneta meu cotovelo esbarra em algo, e não posso movimentá-la como quero. Não sei se trabalhar como um louco em tempos assim de fato satisfaria aos deuses da literatura. Tenho apenas a consciência fervorosa de que satisfaço a algo ou alguém. Falando com sinceridade, trabalhando assim insanamente não há como nascer o broto de nenhuma literatura nacional de maior relevância. Não há como nascerem palavras novas, um estilo novo, tampouco uma literatura nova. Embora sejam muitas as ocasiões em que penso sobre o verdadeiro significado da novidade na literatura; creio que o sentido da novidade não se restringe apenas a imbuir nas letras o ardor da consciência dos tempos atuais, mas devendo possuir também, naturalmente, o sentido de cantar este instante sem sentido que é o presente vertiginoso com a frouxidão de uma pessoa demente, e creio ser possível pensar em uma novidade que ultrapasse o grau de antiguidade ou de inovação dos conceitos de até então sobre palavras, texto, estilo e todos os demais aspectos da arte (ou seja, que ultrapasse a postura de assumir como único padrão a distinção entre o que é velho e o que é novo, o que já existia e o que não existia). Uma literatura assim, mesmo que não possua o chamado “valor literário” do passado, talvez atinja a longevidade apenas com valor para a história da literatura. Eu próprio desconheço o que significa esse meu estado assustador de compenetração e, embora possa somente dizer que me movimento com a frivolidade de um boneco titereado por mãos divinas, ao mesmo tempo tenho uma esperança assaz cotidiana, assaz mundana, quero dizer, apego-me a um desejo quase inescapável, como uma doença crônica, de deixar para a posteridade, a todo custo, um conto que possa ser considerado belo mesmo em um mundo onde as pessoas já não mais escrevam, um conto que, ao deixar jogado aí por esse mundo, possa ser mencionado por qualquer pessoa que o encontre como “de certo modo bonito”. O que será esse desejo idiota? Seria uma triste fuga temporária como a descoberta do açúcar de shiso, por não encontrar nada mais de doce? Continuar trabalhando com a consciência egocêntrica e fanática de que “estou satisfazendo algo” enfim satisfará o quê? Hoje é exigido da literatura o “abandono das ilusões”, mas nunca houve um momento com tanto risco de o próprio “abandono das ilusões” tornar-se uma ilusão.

Eu imaginava que a literatura ao menos não fosse esta vida de fé ensandecida e de dúvidas, esta vida de Martinho Lutero. Pensava que perder a vida cotidiana seria algo letal. Imaginava que viver questões secundárias a fim de pensar sobre questões primárias constituía a verdadeira forma da literatura. Contudo, será que meu eu atual possui qualificação para falar de “viver” com algum ar de autoridade?

Vem-me ao pensamento a época em que aqueles antigos e majestosos répteis gigantes chegaram subitamente ao limiar da extinção pelas mãos severas da seleção natural. Mas como seria se um grande número deles houvesse escapado à calamidade e continuado a proliferar em alguma parte? Creio que em seus hábitos haveria restado algum comportamento pertinaz de quem certa vez “chegou ao limiar da extinção”. Como compensação por haverem vivenciado algo como a extinção, que não é um modo de vida, tornar-se-iam cada vez mais deformados. Se não recebessem ajuda da raça humana, imagino que acabariam extintos de qualquer maneira. Não é possível, talvez, reconhecer também na literatura a existência de limites da experiência, limites não ultrapassáveis e que fogem do domínio da experiência literária (como Rilke a entendia)? Não chegará o momento em que serei obrigado a fazer a escolha penosa de realizar, fora do âmbito da literatura, as minhas visões literárias fatalistas?

Às vezes ocorre de eu pensar que, como um preparativo tácito para a chegada desse momento, escrever um “belo conto em estilo antigo” é um desejo que pode ser perdoado. O orgulho de uma flor, antes de dizer que existe durante o desabrochar, ou no início do desabrochar, talvez flutue em um ponto único, no “desabrochar agora”. Pensar assim me consola grandemente. Afinal, permite-me imaginar um modo de vida que serve como preparativo, não somente como fonte de experiências, e ainda em um modo de vida fundado no próprio ato de existir. E também porque o tempo pode ir passando sem que chegue aquele lamentável e único momento. De certa maneira me tornei um otimista. Não temo em particular sequer o plágio.

Nem mesmo o tempo!

Estou escrevendo um romance e poemas que me dariam vergonha de lhe mostrar. Absorto, assim contribuo um pouco para minha própria saúde.

Confiei a Utaro Noda o manuscrito de Idade Média, e lhe pedi que o entregasse ao senhor se por acaso se encontrassem. Imagino que já tenha chegado a seus olhos. Escrevi aquilo com a atenção presa, e talvez esteja repleto de um sabor vulgar, como o de um oráculo de uma divindade de um santuário menor. Trata-se apenas da única obra que tenho de recente e que queria lhe mostrar.

Peço desculpas por falar desveladamente sobre mim apenas, decerto é um inconveniente para o senhor. Por favor, perdoe minha falta de educação.

Acontece que tive vontade de lhe falar, de aproveitar sua atenção, e assim escrevi tais balbucios desvairados. Consterno-me imaginando se de fato pude expressar-me como pretendi.

Ouvi dizer que Kamakura também está cada vez mais sob risco de um ataque aéreo.

Desejo mais que tudo que o senhor tome boa conta de sua saúde.

Termino aqui de falar apenas de assuntos meus. Não me tenha em má conta.

 

 Abreviadamente,

Kimitake Hiraoka

 

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De Yukio Mishima (A/c do sr. Hiraoka) Tóquio, Shibuya-ku, Oyama-cho no 15 Ao sr. Yasunari Kawabata Kamakura-shi, Nikaido nº 325

 

14 de janeiro de 1946

 

Feliz Ano-Novo.

É com alegria que lhe desejo cada vez mais saúde.

Pois bem, sei que é uma indelicadeza tal correspondência abrupta, mas estas férias de inverno da universidade acabaram se tornando inesperadamente generosas, até o dia 10 de fevereiro, e, embora estivesse ansioso por encontrá-lo durante o recesso para conversamos diretamente, não me veio a oportunidade de perguntar por sua conveniência, e, apesar de pensar em pedir a Noda da revista Literatura que lhe perguntasse, tampouco houve ocasião de encontrá-lo, de modo que, sem alternativas, e conquanto imagine ser inoportuno ao extremo, acabei decidindo contatá-lo por escrito. Por favor, não me tenha em má conta.

Quando porventura nos encontrarmos, quero lhe falar a respeito de um oficial do exército de ocupação chamado Ash, o qual domina com maestria o japonês. Essa pessoa é um grande admirador de seus livros, dizendo achar “A Gangue Escarlate de Asakusa” o mais interessante de todos. Imagino que alguém como ele, seja do ponto de vista da educação, seja da personalidade, deve sobressair mesmo dentro do exército de ocupação.

Como estão mantendo Nakagawa em Koshu, o pessoal da Século da Literatura por ora se dispersará; mas imagino que, por outro lado, ele agora começará a escrever alguma obra de qualidade. Havia pessoas estranhas na Século da Literatura, e a tendência era de que continuassem levando a publicação para uma direção cada vez pior.

Embora eu siga consternado com o fato de recentemente não haver livros para ler, autores como Yakumo Koizumi são sempre interessantes, não importando a época. Não faz muito resolvi ler novamente “Aberto à noite” [Ouvert la Nuit], de Morand, e me deparei com a passagem “Dizendo em poucas palavras, uma vez que não havia nenhuma semelhança com a restauração da paz de profundidade religiosa que esperavam as pessoas, este novo estado das coisas, pelo contrário, para nós parecia mais perigoso, mais belo que a morte que vínhamos experimentado durante o período de guerra”, e me comovi ao pensar que o mundo está sempre repetindo os mesmos eventos, sem nunca se cansar. Embora hoje a imortalidade, a imutabilidade e a constância da literatura, bem como sua novidade e antiguidade, sejam problematizadas todas em conjunto, creio que, caso não se pense em tais questões dividindo-as com clareza, pode-se atrair mal-entendidos.

Por fim, conquanto lhe seja um incômodo, eu ficaria muito feliz se o senhor pudesse escrever no cartão-postal envelopado juntamente a esta carta a data e a hora de sua conveniência, inserindo-o na caixa dos correios quando possível. Não deixe de cuidar sempre da saúde, e perdoe-me a imposição.

 

Abreviadamente,

Yukio Mishima

 

P.S.: Para chegar à sua residência dobro à esquerda passando em frente ao santuário Tsurugaoka Hachimangu e desço a ladeira, é certo?

 

 

Yasunari Kawabata nasceu em Osaka, em 1899. Contribuiu para a criação de uma nova estética literária japonesa, derivando do realismo em voga. Trabalhou temas ligados à sexualidade, à morte e à fragilização do ser humano diante do cotidiano e da natureza. Foi o primeiro autor japonês a conquistar o Nobel de Literatura, em 1968. Traumatizado pela morte súbita de seu amigo Mishima, desgastado por excesso de compromissos, adoentado, Kawabata suicidou-se em 1972.

 

Yukio Mishima, nascido Kimitake Hiraoka em Tóquio, em 1925, estreou na literatura com apenas 19 anos. Com “Confissões de uma máscara” (1949) e “Cores proibidas “(1951), firmou-se como o grande talento artístico de sua geração. Cada vez mais crítico da ocidentalização do país no pós-guerra, e à frente de seu grupo paramilitar Tate no kai, invadiu um quartel do exército japonês em Tóquio buscando incitar um golpe de Estado que devolveria os poderes divinos ao Imperador. Sem obter a acolhida esperada, cometeu suicídio em 1970.

 

 

 

 

KAWABATA-MISHIMA CORRESPONDÊNCIA 1945-1970

Yasunari Kawabata e Yukio MishimaTradução Fernando Garcia256 páginasEditora Estação Liberdade Lançamento em maio de 2019

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