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‘O livro dos jardins’: uma indagação sobre natureza e tempo


O ‘Nexo’ publica trecho do novo livro da poeta mineira Ana Martins Marques, dedicado aos jardins, à passagem do tempo e a reflexões sobre a própria poesia. A obra reúne versos sobre flores e vegetais, a intempérie, as estações, e também homenageia outras poetas, como Sylvia Plath, Wisława Szymborska e Alejandra Pizarnik

dente-de-leão

 

Aprendercom certas florespara quem seré espalhar-see que num soprose soltam

 

cactos

Lembram-metelefonemas tarde da noitesapatos cheios de areiamães de adultos tristespessoas aferradas à vidapor teimosiaa palavra “coragem”a palavra “apesar”a palavra “corte”

 

 

 

 

 

rosa

Flor que se fere Em seu próprio espinho— rosa, rosa —quem se fere no amorfere-se sozinho

 

 

 

 

Jardim francês

Esculpir-mecomo a umacerca vivaerigir-mesevera e simétricaconstruir-me em voltade um palácio (vazio)ou apenas costurar-meem tornodo touro

 

 

 

 

Jardim inglês

Aprendi que tudo o que vivetudo o que crescevive e crescecontra o cálculo

 

desde entãoalamedas amplas me dividemnão exatamenteao meio

 

 

 

 

Jardim japonês

Arqueio-me como uma ponte de madeira sobre um lago aceso por carpas vermelhassou dura e seca e quase sem enfeitescomo um jardim de areia(mas há pedras que floremcomo flores)silenciosa como um papel de arrozem que aindanadafoi escrito

 

 

 

 

Um jardim para Alejandra

Só vim ver o jardimNão quero mastigaras flores

Só vim ver o jardimNão atirarei as pedrasem mim mesma

Só vim ver o jardimNão quero sorver o lagonum gole

Só vim ver o jardimNão pretendo cortar a cabeçadas rosas

Só vim ver o jardimNão vou cantar como se um pássarome atravessasse a garganta

Só vim ver o jardimNão vou agir como se se abatessem sobre mimas estações do ano

Só vim ver o jardimNão vou esperar floresceremos cadáveres

 

*

E depois de terem atravessado rapidamente uma ferozalegria subitamente apenasmurchamencrespam-secomo incendiadase calam:dizem nadapara ninguém

(Falo naturalmentede mim)

 

Alejandra é Alejandra Pizarnik (1936, Avellaneda – 1972, Buenos Aires)

 

 

Ana Martins Marques nasceu em Belo Horizonte em 1977. É graduada em letras e tem doutorado em literatura comparada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). É autora de  “A vida submarina” (Scriptum, 2009),  “Da arte das armadilhas” (Companhia das Letras, 2011),  “O livro das semelhanças” (Companhia das Letras, 2015), Duas janelas (Luna Parque, 2016, com Marcos Siscar) e  “Como se fosse a casa” (Relicário Edições, 2017, com Eduardo Jorge). Recebeu o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional e, por duas vezes, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte.

 

 

 

O LIVRO DOS JARDINS

Ana Martins MarquesEditora Quelônio48 páginasLançamento em maio de 2019

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