Teresa de La Parra

25 Abr 2019

O ‘Nexo’ publica trecho do livro da escritora venezuelana Teresa de La Parra (1889-1936). Os contos, escritos provavelmente entre 1915 e 1923, permaneceram inéditos até 1982, e é a primeira vez que aparecem reunidos no mesmo livro. Em cada uma das três histórias, um objeto assume o papel de protagonista. O trecho a seguir integra “O ermitão do relógio”.

Era uma vez um capuchinho que, fechado em um relógio de mesa esculpido em madeira, tinha como ofício anunciar as horas. Doze vezes ao dia e doze vezes à noite, um engenhoso mecanismo abria de par em par a porta da capelinha ogival que representava o relógio e era possível, assim, se ver de fora como nosso ermitão puxava as cordas tantas vezes quantas o timbre, invisível dentro do seu campanário, deixava ouvir seu tim-tim de alerta. A porta voltava em seguida a se fechar com um impulso brusco e seco, como se quisesse escamotear o personagem; o capuchinho tinha magnífica saúde apesar de sua idade e de sua vida retirada. Um hábito de lã sempre novo e bem escovado descia sem uma mancha até seus pés desnudos dentro das sandálias. Sua longa barba branca, ao contrastar com suas bochechas frescas e rosadas, inspirava respeito. Tinha, em poucas palavras, tudo quanto se precisa para ser feliz. Iludido, longe de supor que o relógio obedecia a um mecanismo, estava certo de que era ele que dava as badaladas, coisa que o enchia de um sentimento muito vivo de poder e importância.

Por nada no mundo lhe ocorreria ir misturar-se com a multidão. Era suficiente o serviço imenso que fazia ao anunciar as horas. Para os demais, que se arranjassem sozinhos. Quando atraído pelo prestígio do ermitão alguém vinha consultá-lo em  um caso difícil, enfermidade ou o que fosse, ele não se dignava sequer a abrir a porta. Dava a resposta pelo buraco da fechadura, coisa que não deixava de emprestar a seus oráculos um certo selo imponente de ocultismo e mistério.

Durante muitos, muitíssimos anos, Frei Barnabé (este era seu nome) achou em seu ofício de sineiro tão grande atrativo que isto lhe bastou para satisfazer a sua vida; pensem os senhores um momento: o povo inteiro da sala de jantar tinha os olhos fixos na capelinha e alguns dos cidadãos daquele povo nunca haviam conhecido mais distração que a de ver aparecer o frei com sua corda. Entre eles se contava uma compoteira que havia tido a vida mais cinza e desgraçada do mundo. Quebrada em dois pedaços desde seu começo, graças à afobação de uma criada, haviam juntado as partes com ganchinhos de ferro. Desde então, as frutas com que a enchiam antes de irem à mesa costumavam dirigir-lhe as mais humilhantes piadas. Consideravam-na indigna de conter suas preciosas pessoas.

Pois bem, aquela compoteira que conservava no corpo uma ferida avivada continuamente pelo sal do amor próprio, encontrava consolo em ver funcionar o capuchinho do relógio.

— Vejam – dizia às frutas burlonas –, vejam aquele homem de hábito pardo. Dentro de alguns instantes vai avisar que chegou a hora em que irão comer todas vocês – e a compoteira se regozijava em seu coração, saboreando antecipadamente sua vingança.

Mas as frutas sem acreditar em uma palavra lhe respondiam:

— Você não é mais que uma aleijada invejosa. Não é possível que um canto tão cristalino, tão suave, possa anunciar um acontecimento fatal.

E também as frutas consideravam o capuchinho com complacência e também uns jornais velhos que debaixo de um console passavam a vida repetindo uns aos  outros acontecimentos ocorridos há vinte anos, e a tabaqueira, e as pinças do açúcar, e os quadros que estavam pendurados na parede, e as garrafas de licor; todos, todos tinham a vista fixa no relógio e cada vez que se abria de par em par a porta de carvalho voltavam a sentir aquela mesma alegria ingênua e profunda.

Quando se aproximavam as onze horas e cinquenta minutos da manhã, chegavam então as crianças, sentavam-se em roda diante da lareira e esperavam pacientemente que soassem as doze, momento solene ente todos, porque o capuchinho em vez de se esconder com rapidez de ladrão uma vez terminada sua tarefa como fazia por exemplo à  uma ou às duas (então se podia até duvidar de tê-lo visto), não, ficava ao contrário um tempo, longo, longo, bem apresentado, ou seja, o tempo necessário para as doze badaladas. Ah! E não tinha pressa então o irmão Barnabé! Muito sabia que o estavam admirando! Como quem não quer a coisa, fazendo-se de muito atento ao trabalho, puxava a corda, enquanto espiava com o canto dos olhos o efeito que produzia sua presença. As crianças se alvoroçavam gritando.

— Vejam como engordou.

— Não, está sempre o mesmo.

— Não senhor, está mais jovem.

— Porque não é o mesmo de antes, é seu filho. Etc., etc.

Os talheres já postos riam na mesa com todos os dentes de seus garfos, o sol iluminava alegremente o ouro das molduras e as cores brilhantes das telas que estas enquadravam; os retratos de família piscavam o olho; como dizendo: - Como? Ainda está aí o capuchinho? Nós também fomos crianças há já muitos anos e muito nos divertia.

Era um momento de triunfo.

Nesse momento chegavam os adultos, todo mundo se sentava à mesa e Frei Barnabé, sua tarefa terminada, voltava a entrar na capelinha com essa satisfação profunda do dever cumprido.

 

Ana Teresa de la Parra Sanojo nasceu em Paris, em 1889, e viveu entre a Europa e a Venezuela, acompanhando as viagens do pai, que era cônsul. Sua obra mais conhecida é “Ifigênia”, publicada em 1924. Também é autora de do romance “Las Memórias de Mamá Blanca”, de 1929, além de contos, cartas e um volume com a transcrição de três conferências, que realizou em 1930, sobre a influência das mulheres na formação da alma americana.

 

 

TRÊS OBJETOS

Teresa de la Parra
Tradução Iara Tizzot
Editora Arte & Letra
58 páginas
Lançamento em abril de 2019

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