Nuno Ramos

19 Abr 2019

‘Nexo’ publica trecho do novo livro do escritor e artista plástico Nuno Ramos. A obra reúne textos inéditos e dispersos, escritos durante dez anos, sobre a cultura e o quadro político e social brasileiro recente. Nos ensaios, o autor fala sobre artes plásticas, literatura, cinema, futebol e reflete sobre o trabalho de nomes como Glauber Rocha, Caetano Veloso, Graciliano Ramos e Lygia Clark.

 

I. Eu tenho medo do Mesmo

Ambos quais?

Machado de Assis, Esaú e Jacó

Hoje talvez não seja tão intenso, pois, se o celular pegar, distraímo-nos com ele. Mas antes, ao esperar o elevador, nada havia a fazer senão ler e reler aquele aviso, em letras brancas sobre fundo preto, ou vice-versa, coberto por uma moldura de acrílico — “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”. Assombrado, ameaçador, algo ininteligível, pesava sobre a duração daquela espera, acompanhando até o “térreo” (outra palavra estranha) quem afinal se aventurava a entrar.

O Mesmo. Aqui, neste andar. Sim, antes de entrar. Verifique.A imprecisão em relação ao sujeito da frase (o elevador ou o “mesmo”?); o fato de que coisas demais são ditas sobre um maquinismo (“verifique se está parado” é quase temer que fuja de repente); a linguagem burocrática, sem molejo, mas em situação privada, onde estávamos quase sempre sozinhos, ou seja: dirigida, como em alguns textos de Kafka, diretamente a você; a lembrança mórbida de acidentes horrorosos (de gente que caiu em poços de elevador, como Anecy Rocha) — tudo isso dava um tom zicado à espera. Reproduzida por força da lei  estadual de 11 de março de 1997, presente portanto em todos os andares de inúmeros prédios do estado de São Paulo, a própria repetição infindável alavancava o mistério e “mesmidade” da frase, gerando aos poucos um longo histórico de debates e comentários na internet, e até uma comunidade virtual — “Eu tenho medo do Mesmo” (com maiúscula).

Pessoalmente, tenho mesmo muito medo dele. Não sei onde começa nem onde termina, e detesto, particularmente, sua potência de disfarce, infiltrando-se em tudo como um penetra de festas profissional, sem nunca dizer o nome. Uma vida inteira pode organizar-se sob sua sombra, como uma doença assintomática, sem que o indivíduo perceba. Confunde-se, nesse sentido, com o tema, provavelmente complementar, da espera — o tenente Giovanni Drogo, em O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati, ou Don Diego, em Zama, de Di Benedetto, são habitantes do mesmo. Ou, ainda, Bill Murray, no Feitiço do tempo (Groundhog Day, 1993), em que a personagem fica presa num dia infindável, repetido a cada manhã, e do qual não consegue escapar nem sequer através do suicídio (suicida-se, de fato, dezenas de vezes) — até apaixonar-se (e ser correspondido) por sua colega de trabalho (Andie MacDowell).

Claro que vidas pacatas não são mais óbvias do que as aventurosas, e muita viagem ao redor do quarto é mais excitante do que ao redor da Lua, mas sinto que, aplicado ao país, o tema atravessou minha vida pessoal, e a de minha geração, como um ruído de fundo difícil de escutar, até que, bumba, prestamos atenção e ele parece ter sempre estado ali, ensurdecedor, a ponto de não ser possível, agora, escutar mais nada. Se a pasmaceira do fim da ditadura e os anos perdidos dos governos Sarney e Collor tiveram, no Plano Real e no Bolsa Família (além do ritmo crescente das cotas e do alcance quase universal dos sistemas de saúde e ensino), uma sucessão em tudo diversa, com a sensação de que algo se alterava a olhos vistos, e uma estranha euforia parecia tomar conta de tanta gente, uma suspeita de fundo sempre esteve perto de mim. Quando fiz Bandeira branca, aquele trabalho com urubus e canções, vidro e areia queimada, no centro do prédio da Bienal de São Paulo de 2010, senti que traía esse sentimento de quase euforia. Apesar de minha dificuldade com números, nunca perdi de vista os índices mais elementares de assassinatos, que só cresceram nos anos “democráticos” de fhc e Lula — de escandalosos 21 assassinatos por 100 mil habitantes em 1994 a ainda mais escandalosos 26 assassinatos por 100 mil habitantes em 2012 — em números reais, 56 mil pessoas mortas por ano (hoje, ultrapassamos a fronteira dos 60 mil assassinatos). Mesmo tomando esses números a seco, sem diferenciar por idade, gênero ou cor, obviamente não era possível que estivéssemos indo a algum lugar se matávamos (a polícia e a zona de intersecção entre ela e o crime) ou deixávamos que se matassem (o “crime organizado” ou crimes comuns, assassinatos estúpidos em botecos etc.), pouco mais de um Vietnã de brasileiros a cada doze meses. Esse desconforto com nosso dream  team político me separava de um sentimento convicto de evolução (um “agora vai”) que grassava naquele momento. Na verdade, os polos mais visíveis e discursivos da política brasileira (pt e psdb) pareciam, a partir de certo ponto, próximos demais para tanto ódio, como se disfarçassem um território comum. Acho que esse território comum é o que os meses subsequentes à queda de Dilma Rousseff tragicamente revelaram.

Lembro de um livro que li saindo da faculdade, A violência e o sagrado, de René Girard, autor católico e ligado à direita francesa. Retomando uma antropologia meio Tarzan, feita de proibições e tabus, nos moldes de Frazer e Freud (sem o alívio estruturalista das modulações da troca), Girard postula uma teoria do desejo pessimista e sem saída. Todo desejo teria em seu centro a cópia — ele é  necessariamente mimético, e vive disso. Só se desenvolve por contiguidade e não tem autonomia alguma diante de seu modelo. O que Girard descreve (sua conversa aqui é com Freud) é a cena edipiana, mas sem superego, uma castração que não produzirá sistema jurídico nem a música de Beethoven. Para Girard, todos os desejos se copiam e ali permanecem, tendendo à entropia, numa clausura cumulativa. A crise inevitável só pode ser aliviada pela expiação, pelo scape goat, ou seja, pela atribuição cíclica da culpa sacrificial. Pois com o sacrifício final, depois da violência, os siameses se separam, a diferença se instaura e o imobilismo do desejo-em-cópia, da mimese entrópica, começa seu processo cumulativo de novo.

Acho que cruzei esse raciocínio com o interminável périplo para dentro do privilégio que Raymundo Faoro descreve em Os donos do poder, essa espécie de “gato” (no sentido de roubo de energia), ele mesmo cíclico, a que as classes (ou estamentos) dominantes vêm submetendo a transmissão de energia pública em nossa história, desde dom Afonso Henriques, no remoto século xii lusitano. Quem se aproxima do poder, vindo de onde quer que venha, entra nesse circuito, com aquela fatalidade meio sóbria (e cínica) do inevitável, do “é assim que funciona, meu filho”, que a “teoria do medalhão” machadiana resume em poucas páginas.A crise contemporânea do Brasil teria origem, nessa leitura, numa crise do mesmo e não da diferença, por semelhança e não por tensão entre opostos inconciliáveis (diferente, portanto, da crise dos anos 60, que levou à ditadura), ou, para dizer de outra forma, seria resultante do aprisionamento das forças progressistas num mecanismo que se impõe eliminando as energias diferenciais. A atribuição de culpa, geral e irrestrita, seria, nessa leitura, o passo inevitável, e o resultado do processo, uma diferenciação radical, vizinha à violência, entre o que parecia semelhante.

Nuno Ramos nasceu em São Paulo, em 1960. É artista plástico, compositor e escritor. Publicou "Cujo" e "O pão do corvo" (Editora 34); "Minha fantasma" (Edição de Autor); "O mau vidraceiro" e "Ensaio geral" (Editora Globo); "Ó" (Prêmio Portugal-Telecom Melhor Livro do Ano), "Junco" (Prêmio Portugal-Telecom Melhor Livro de Poesia do Ano), "Sermões" e "Adeus, cavalo"(Editora Iluminuras).

 

VERIFIQUE SE O MESMO

Nuno Ramos
Editora Todavia
304 páginas
Lançamento em abril de 2019

 

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