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‘O enigma da revolta’: como Foucault viu a revolução no Irã


O ‘Nexo’ publica trecho do livro que reúne entrevistas inéditas do filósofo francês Michel Foucault (1926- 1984) sobre a revolução iraniana de 1979. A obra retoma discussões polêmicas que se iniciaram à época das viagens do autor ao Irã, na década de 1970, como seu interesse pela sublevação no país e um suposto apoio à implementação da teocracia. O texto revela, também, qual a concepção do filósofo de revolta e o que ele entendia por “espiritualidade política”. O trecho a seguir faz parte da entrevista concedida à revista francesa Le Nouvel Observateur.

Nouvel Observateur: Evidente que é muito simples hoje. Há, é claro, uma ditadura como a do Xá, com sua polícia que tortura, cujas prisões estão cheias, intoleráveis, mas diante disso vemos se rebelar, se organizar, se alojar, na religião xiita, toda uma soma de aspirações que correm o risco, se o poder cair nas mãos dos que carregam essas aspirações, de resultar numa forma de integrismo totalmente aterrorizante e ainda mais repressivo, e eu vejo daqui as “lágrimas de crocodilo” que muitos derramarão!

Michel Foucault: Voltemos, se preferir, ao texto que escrevi. Lembro muito bem de ter evidenciado o quanto, nas formulações dos iranianos com quem pude conversar sobre esse problema, havia coisas inquietantes e perigosas; curiosamente, vemos se juntar a isso os perigos de certas formas de governo inspiradas no Ocidente e alguns perigos inerentes a um governo religioso.

Por exemplo, quando perguntamos “E quanto às minorias religiosas em seu governo islâmico?”, a resposta é, por um lado, a resposta clássica, banal, que sabemos bem o quanto é perigosa, isto é, a resposta do século 18. Eles dizem: “Bem, é a maioria que, formulando a lei, definirá qual é o estatuto a ser dado às minorias.” Sabemos o que isso gerou. Por outro lado, essas mesmas pessoas nos dizem que certos grupos religiosos, como os mahi (?), vivem uma religião totalmente errônea e de tal forma corrompida que não há como tolerá-los.

Então, você vê que aí, no fundo, o pensamento ocidental, racionalista, dessa democracia jacobina, de alguma forma reforça os perigos desse integrismo religioso. Esses perigos moram juntos e ameaçam conjuntamente o movimento iraniano, como, no fm das contas, ameaçam muitos outros movimentos.

Os iranianos são bem conscientes disso, não todos, mas ao menos aqueles com quem eu pude discutir mais longamente. Eles sabem disso perfeitamente bem, e o problema deles é o de saber se serão capazes de tirar desse islã, que atualmente é ao mesmo tempo sua tradição, sua forma de consciência nacional, seu instrumento de luta e o princípio de seu levante, algo que permitirá evitar esses perigos.

Assim, não acredito que chegaremos a algum lugar dizendo a eles: “Mas vocês recorrem a um islã que carrega todos os riscos de um integrismo e que, de todo modo, é uma religião monoteísta, portanto intolerante, etc.” Não creio que é referindo-se a eles de forma agressiva, acusando- -os de fanatismo, que se chegará a algum lugar. Eles não são fanáticos, mas é absolutamente verdade que há um risco de fanatismo assim que esse movimento for organizado como um Estado religioso, ou como uma religião de Estado.

O problema é saber, no mundo de hoje – falo pelos iranianos, mas também por qualquer outra pessoa – o que pode ser feito dessa vontade de espiritualidade que reaparece em estado nu sob os escombros das grandes esperanças revolucionárias e que aqui se manifesta no islã, ali em uma certa forma de cristianismo…

NO: Na eleição de um papa polonês?

MF: Eventualmente... em outro lugar na ecologia, etc. Você tem mil formas às vezes aberrantes, muitas vezes inquietantes, às vezes tocantes, às vezes ingênuas, às vezes sutis, mas em todo caso muito insistentes no mundo atual...

NO: E as seitas?

MF: E o que podemos fazer a respeito?

Em vez de condená-las em nome de uma ideologia que traiu todo esse imenso trabalho de espiritualidade, em vez de condená-las em nome disso, vamos ver como trabalhar a partir daí. É nesse sentido que a ideia de uma preocupação com a espiritualidade, assim como, afinal, Bataille nos sugeriu há vinte anos, me parece algo ainda totalmente relevante. Em todo caso é por isso que eu luto.

NO: Para concluir, gostaria que o senhor prosseguisse com essa ideia: o que podemos fazer disso? Como lidar com isso? De que dispomos para apreciá-lo, pensá-lo e acolhê-lo?

MF: Foram precisos dois séculos para que, do interior do cristianismo, uma espiritualidade ainda cristã, mas inteiramente voltada contra a Igreja, conseguisse mudar um pouco – e digamos francamente – até muitas coisas no Ocidente. Atualmente, nos escombros em que estamos, não acho que seja em dez ou quinze anos que poderemos enxergar com precisão o que isso será. O tempo dos Irmãos da Vida Comum, o tempo dos anabatistas, o tempo dos taboritas, etc., recomeçará, não sob uma forma religiosa, mas haverá também formas religiosas; será uma imensa experimentação na escala de pelo menos um século, se não mais. É isso que é preciso fazer!

NO: Devemos esperar.

MF: Esperar não, fazer, praticar! É preciso praticar a sublevação, quero dizer, praticar a recusa do estatuto de sujeito no qual nos encontramos. A recusa de sua identidade, a recusa de sua permanência, a recusa do que somos. É a condição primeira para recusar o mundo.

NO: É o que se pode esperar também de fenômenos tão estranhos e heterogêneos entre si como um suicídio coletivo?

MF: Estou vendo o tamanho da armadilha que você me coloca!

NO: Queiramos ou não, ele se expressa em favor de tudo aquilo que acabei de enumerar, algo que parece da mesma natureza. Eu não saberia dizer qual é essa mesma natureza, mas é muito estranha. O senhor não vê um ar de parentesco, no nível dessa vontade de ser outro, de se insurgir?Qual é esse parentesco?

MF: Seria talvez demasiado genérico dizer que, basicamente, o que desapareceu foi a ideia nascida aproximadamente no século 18, isto é, um pouco antes da Revolução Francesa, de que havia um sujeito da história. Esse sujeito da história foi a razão, a humanidade, o Homem, etc... a sociedade também. Sabemos agora que não há um sujeito da história. A história não carrega em si esse sujeito, e esse sujeito não carrega em si a história. Creio que é isso que está se manifestando. Essa espécie de insurreição dos sujeitos que não querem mais ser assujeitados ao sujeito da história, é esse, creio, o fenômeno característico de nossa época.

NO: Bom. Pessoalmente, acho que a entrevista pode parar por aqui.

Obrigado.

O ENIGMA DA REVOLTA

Michel Foucaultn-1 ediçõesLançamento em abril de 2019

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