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‘Setenta’: um romance sobre o horror e o espetáculo


O ‘Nexo’ publica trecho do romance do escritor gaúcho Henrique Schneider ambientado no Brasil sob a ditadura. O livro percorre a trajetória de um bancário em Porto Alegre que é confundido por militares com um subversivo. Preso e torturado, ele recupera a liberdade no dia da grande final da Copa de 1970, disputada por Brasil e Itália

O sol, a claridade.

Esta cegueira.

Raul foi abrindo os olhos e a primeira coisa que viu foi a si mesmo, ainda descomposto por tudo, mas pronto para a alegria de algum recomeço, segurando nas mãos o capuz seborrento que, por nenhuma razão, lhe haviam deixado. Abriu os olhos com vagar, um pouco porque o brilho daquele sol matinal lhe feria as vistas que apenas haviam enxergado trevas nos últimos tempos, outro tanto para aproveitar aos poucos aquela delícia cotidiana à qual nunca antes prestara atenção. Olhou primeiro para baixo, depois subiu lentamente o olhar, como a certificar-se de que estava inteiro por ali, naquela rua e naquela cidade desconhecidas, e foi uma alegria meio insana perceber-se todo, que sim, que ainda que lhe doesse o corpo e as pancadas e os choques e a estupefação ainda estivessem ali e talvez nunca passassem, o fato é que estava vivo de novo, que a morte que lhe haviam trazido nestes dias de tormento havia ido embora.

E então chorou.

Sentou-se no meio-fio e deixou que o choro viesse em golfos, grato por aquela manhã e aturdido por certa maldade oficial, aquele inferno com nome proibido em que, sem explicação, lhe haviam transformado os dias. Por que tinham feito aquilo, por que tanta dor e humilhação, por que aquelas torturas incrustradas para sempre em seu corpo e em sua alma? Chorou por alguns minutos, sentado e despreocupado de que algum passante estranhasse, e depois rezou, agradecendo à Nossa Senhora Aparecida o fato de estar vivo. Só aí deu-se conta de que não lhe haviam devolvido a correntinha.

Aqueles monstros.

Depois de rezar, permaneceu um tempo sentado no cordão da calçada, olhando a cidade nova que lhe aparecia. Olhou para os lados e, sim, o lugar se assemelhava à mesma Porto Alegre de onde, dias atrás, o haviam sequestrado. Uma rua calma, de prédios tranquilos e casas de classe média, bem cuidadas, as árvores ensombrando com placidez o caminho, carros estacionados, um ou outro jardim florido, tico-ticos e pardais fazendo alarido na manhã azulada do dia — meu Deus, pensou ele, ninguém aqui nesta rua sabe o quanto eu sofri! E quantos outros estarão como eu, a esmo e sem esperança, enquanto os medianos, olhos fechados e ignorantes, fazem suas compras e vão ao trabalho e leem as notícias do jornal e dão risadas e torcem por seus times e fazem suas orações e passeiam os cachorros na claridade falsa dos dias, sem saber dos gritos que acontecem nos porões próximos? Esta vida calma, o que saberá?

Uma senhora se aproximava, carregando um saco de papelão, com compras do mercado. Vinha distraída, talvez já elaborando o cardápio do almoço tardio de domingo, passos de quem não pensa em nada muito sério.

Não enxergava Raul; ou, se o enxergasse, isso não era suficiente para que lhe prestasse qualquer atenção.

Raul levantou-se num salto que lhe permitiam as dores, um pouco para pedir informação e outro tanto porque a cena da mulher comum se aproximando teve a força de emocioná-lo. Mas o pulo de Raul fez com que a senhora se assustasse e ela, sem perceber, apertou contra o peito o saco de compras que carregava.

— Bom dia, senhora. A senhora podia...

— Não tenho trocado! - a mulher disparou, como se o homem à frente fosse uma ameaça repentina e o corte dessas palavras pudesse fazê-la desaparecer. Ela olhou-o de cima a baixo, olhar cheio de asco e medo momentâneos, fixando o olhar no capuz que Raul ainda carregava sem perceber, e ele pôde então compreender a miséria de sua figura.

— Não! Eu só queria...

— Não tenho trocado, eu já disse! E não chega perto, que eu chamo a polícia!

A polícia, pensou Raul, a polícia acabou de me soltar. Foi ela que me colocou neste estado que agora a assusta tanto, madame. Foi ela que me colocou este capuz que, pendurado em minhas mãos, agora a amedronta. Foi ela que me deixou estas marcas que não sei quando irão sair e agora a apavoram. Mas não disse nada: o que entenderia a mulher? E se eles o estivessem olhando? E se a mulher fosse uma deles? — ai, a tristeza da desconfiança instalada em sua vida para não sair.

— Desculpa, dona. Só ia lhe pedir uma informação, mas não precisa.

E mais não disse, apenas deixando à mulher que se fosse, em passos assustados que mais pareciam corrida, carregando nas mãos a tranquilidade interrompida do almoço.

Raul então olhou para si mesmo com maior atenção e, de alguma forma, deu razão ao medo da mulher: sua figura era a de um espantalho triste e, mesmo que seus gestos não fossem ameaçadores, o cheiro da prisão e as roupas encardidas, a palidez doentia e amarelada, os cabelos sujos e a barba por fazer, o olhar ainda assustado de tudo — claro, isso era suficiente para amedrontar.

Buscou ajeitar-se um pouco, alisar com as mãos fracas a camisa e a calça, e então lembrou de verificar se lhe haviam devolvido o dinheiro e os documentos. Buscou a carteira no bolso e examinou: estavam lá a carteirinha de sócio do Internacional e a identidade, foto limpa e serena, a barba feita e os cabelos bem penteados de quem acredita nas instituições, na ordem e no progresso. Também lhe haviam deixado o dinheiro que carregava naquela sexta-feira de séculos atrás, para ir ao cinema, tomar umas cervejas e tentar não lembrar de Sonia. Só a correntinha não haviam devolvido.

Olhou para o capuz, ainda esquecido em suas mãos, e de repente teve um nojo tão grande daquele trapo malcheiroso que precisou segurar a repentina ânsia de vômito. Atirou-o ao chão e esfregou as mãos nas calças,  tentando limpar aquela sujeira invisível, enquanto com o pé empurrava o capuz de encontro ao meio-fio, como se aqueles empurrões tivessem o poder de escondê-lo, de fazer com que deixasse de existir.

Depois, ânsia acalmada, resolveu andar um pouco, a ver se as pernas aguentavam caminhar por um espaço maior do que a celinha minúscula em que o haviam trancafiado e que, numa ironia sem pudor, seus carcereiros diziam ser um lar. Aproveita a moleza, mandavam eles, nas vezes em que Raul jazia estendido no colchonete ou no chão úmido depois de uma série de bordoadas.

Até porque precisava gastar o tempo. Porque os homens haviam dito que o estavam controlando.

Controlando, assustou-se Raul, subitamente desperto dessa situação. Aqueles homens lhe controlariam os passos, os movimentos. Por quanto tempo, por onde?

E o que havia feito para que quisessem controlá-lo?

 

Henrique Schneider nasceu em 1963, em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, cidade onde hoje vive. Tem 11 livros publicados, entre eles "O grito dos mudos", 1989, vencedor do Prêmio Maurício Rosemblatt de Romance, e "Contramão", de 2007, finalista do Prêmio Jabuti e eleito Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores. "Setenta" foi o vencedor na categoria Romance do Prêmio Paraná de Literatura 2017, que contempla textos inéditos.

 

SETENTA

Henrique SchneiderNão Editora160 páginasLançamento em abril de 2019

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