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‘Uma literatura nos trópicos’: a cultura latino-americana


O ‘Nexo’ publica trecho da edição comemorativa do livro de Silviano Santiago, cuja publicação completa 40 anos em 2019. A obra reúne ensaios do professor e escritor mineiro sobre a cultura na América Latina, e sua reedição inclui textos inéditos. O trecho a seguir faz parte de “Brasil, um país 'verossímil'”, ensaio do sociólogo André Botelho que integra o novo volume. O texto discute como a leitura de Silviano Santiago sobre Machado de Assis ajuda a compreender a relação do Brasil com as fake news.

Reescrito em 1968 a partir de diferentes textos anteriores, o ensaio Retórica da verossimilhança (presente em “Uma literatura nos trópicos”), de Silviano Santiago, recusa a divisão convencional da obra de Machado de Assis em duas fases distintas e alcança a possibilidade de uma leitura do conjunto formado por ela, exemplificado pela análise dos romances “Ressurreição” (1872) e “Dom Casmurro” (1889). Em ambos opera um apreço pela verossimilhança, em lugar da verdade, cujas raízes culturais profundas – e mais atuais do que nunca, acrescentaremos nós adiante – na sociedade brasileira se encontrariam no bacharelismo e no jesuitismo nela dominantes.

Recordemos o leitor. Em “Ressureição”, o solteirão ciumento Felix desiste de levar a viúva Lívia ao altar, após receber carta anônima levantando dúvidas vagas sobre o caráter da futura esposa, mas que ele acertadamente intui (suspeita inclusive confirmada logo adiante pelo próprio narrador) ser obra de seu rival Luís Batista. Observa Silviano que o fato de saber ter sido a carta escrita pela “pena da inveja ou do orgulho ferido” não altera a disposição de Felix, porque para ele, ao fim e ao cabo, importava mais “a verossimilhança da situação criada pela carta do que a verdade proporcionada pelo exame detido dos fatos”.

O drama é ampliado e aguçado em “Dom Casmurro”, pois Machado deseja, sugere Silviano, que o novo romance “se torne mais ambíguo, mais sutil, e para isso suprime o narrador onisciente, que explicava os fatos de uma plataforma divina, e dá toda a responsabilidade da narração ao personagem ciumento”. Outras mudanças fundamentais são a profissão do personagem, que passa a ser advogado, “portanto homem mais ligado à arte de escrever, de persuadir e de julgar os outros”, e o fato de ser um ex-seminarista, “homem que, pelo menos em teoria, deve ter as antenas mais preparadas para sentir os problemas morais”. Os recursos intelectuais associados aos treinamentos da formação religiosa cristã e da profissão de advogado mostrar-se-ão decisivos na modelagem da subjetividade da personagem e da narrativa moral do Casmurro, e sua combinação é a chave para compreensão de problemas éticos e culturais de longa duração na sociedade brasileira – ou, como observou a propósito Roberto Schwarz em seu ensaio sobre “Dom Casmurro”, de 1990, Silviano teria detectado “o caráter brasileiro dessa combinação” entre seminarista e advogado, entre religião e cultura jurídica.  

No novo romance, como o leitor está inteirado, Machado de Assis casará seu personagem ciumento e fá-lo-á pai de um filho para deixar, contudo, que acuse a esposa de infidelidade, renegando-a e ao filho, cuja paternidade causa-lhe dúvidas, enviando ambos para a Europa. Como de um romance a outro se opera aquela mudança de narrador, todas essas decisões não se justificariam, como no caso de Felix, “pelo pleno conhecimento da verdade, mas por acreditar que os acontecimentos se encaixam e podem ser explicados pelo verossímil”. Ou seja, a importância da “verossimilhança” em lugar da “verdade” se expande dramaticamente de “Ressureição” a “Dom Casmurro”, com consequências decisivas para uma caracterização mais precisa do “romance ético”, bem como para uma espécie de perene crise moral da sociedade brasileira, que parece ainda mais aguda neste momento, do que na década de 1970 quando “Uma literatura nos trópicos” saiu dos prelos pela primeira vez.

O bacharelismo brasileiro associado à matriz educacional jesuítica herdada do colonizador português e cultivado nas faculdades de Direito foi objeto de crítica em diferentes momentos. Os modernistas de 1922, por exemplo, abusaram da pilhéria tanto na poesia quanto no ensaio criticando o “lado doutor” da nossa formação cultural, para eles materializado no ornamentalismo parnasiano.

Oswald de Andrade no Manifesto da Poesia Pau-brasil, de 1924, personificando o ornamentalismo em Rui Barbosa – um “cartola da Senegâmbia” –, confere feição ao nosso “lado doutor” como um traço cultural dominante, produto do legado civilizacional ibérico transmitido da metrópole à colônia (“O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião-de-penacho”). No caso de Oswald, a crítica ao bacharelismo parecia trazer como contrapartida, porém, uma aposta algo difusa no progresso tecnológico, talvez associado ao crescente prestígio dos discursos técnicos identificados à República. As próprias reformas educacionais implementadas pelo novo regime, desde as pioneiras Benjamin Constant na área da escola secundária, no âmbito federal, de 1890, e a Caetano de Campos, de 1892, em São Paulo, na área das escolas primária e normal, até as que a elas se seguiram, estavam voltadas para a tentativa de substituição do modelo curricular humanista, herdado do Império, por outro de natureza tecnocientífica identificado à República. Daí a palavra de ordem do modernista: “engenheiros em vez de jurisconsultos”!

A oposição oswaldiana, e modernista em grande medida, porém, pelo próprio caráter normativo a ela associado, corre o risco de diluir o fundamental abordado no problema da “retórica da verossimilhança”, tal como formulado por Machado de Assis, e desvendado por Silviano Santiago no ensaio “Retórica da verossimilhança”. A própria polarização entre os ideais de cultura e educação humanistas e de vocação profissional, embora fosse exigência comum do processo de racionalização da modernidade industrialista e burguesa, parece ter assumido feições diferenciadas na sociedade brasileira; e é mais provável que, entre nós, tais ideais, incongruentes em tese, tenham se interligado, e não se excluído unilateralmente, como poderia sugerir a perspectiva associada à norma europeia.

Brutalizando o argumento: o problema modernista talvez fosse, acima de tudo, chamar a atenção para defasagem da educação brasileira de matriz jesuítico-jurídica em face da era industrialista que então se implantava no país, e sua correspondente exigência de uma mentalidade tida como mais pragmática e racional. Se estivermos lendo adequadamente Silviano Santiago, o que ele está dizendo não é apenas isso. O problema desvendado em Machado de Assis, além de dirimir qualquer dúvida sobre o “engajamento” do Bruxo do Cosme Velho, põe em evidência traços éticos e morais enraizados na nossa sociabilidade e nas nossas práticas e valores em geral, perpassando diferentes ideais de cultura e educação. E, poderíamos ainda acrescentar, contextos e regimes políticos.

Um paralelo com um contemporâneo de “Uma literatura nos trópicos” nos ajudará a qualificar melhor o sentido político e a atualidade-anacrônica da “retórica da verossimilhança”. Em “A revolução burguesa no Brasil”, de Florestan Fernandes, publicado em 1975, o sociólogo insiste que não se deve confundir autocracia com ditadura. Ditadura e democracia são formas de exercício do poder; ao passo que autocracia diz respeito às formas de organização do poder político. E esta parece mesmo persistir como um princípio ordenador mais geral do Estado e da sociedade brasileira em seu curso histórico, até em momentos democráticos. A meu ver, a “retórica da verossimilhança” parece encontrar na “autocracia” sua correspondente social e política perfeita. Como forma de orientação ética das condutas, a “retórica da verossimilhança” se faz presente no cotidiano da sociedade, nos comportamentos mais rotineiros, da socialização familiar dos indivíduos à estruturação das relações e instituições sociais, vazando os espectros ideológico e político. Assim, não se trata de pensá-la simplesmente como um ethos autoritário em oposição a outro democrático, mas propriamente como um ethos autocrático. Sua relação com a democracia, portanto, não é de oposição, mas, precisamente, parafraseando a feliz imagem de Gabriel Cohn sobre a autocracia, “sua sombra sempre presente em segundo plano, para emergir, com maior ou menor virulência, em situações de crise do poder burguês”.

Não será justamente a “retórica da verossimilhança” que vem à tona com tanta força e persuasão nos dias que correm no Brasil? Penso que não faltarão elementos no horizonte do próprio leitor para que possa avaliar, em numerosos exemplos cotidianos, como o “verossímil” (e as “convicções” a ele associadas) parece se bastar, no lugar da busca da “verdade” e das “provas factuais”, princípios em que se deveriam assentar a organização das instituições e dos poderes democráticos. Inclusive, a justiça do Estado que, de instituição que deveria proteger os cidadãos do uso discricionário do poder, corre o risco de se tornar corresponsável por conduzir uma situação autoritária oculta por véu de normalidade constitucional, o que implicaria uma autocracia menos visível, porém bem mais direta. Tudo se mostra ainda mais preocupante, aliás, se lembrarmos de duas questões adicionais. Primeiro, a expansão das fronteiras do Judiciário sobre os demais poderes, o Legislativo e o Executivo, o que cria um perigoso (para a democracia) desequilíbrio nas funções que temos assistido no Brasil. Segundo, que o “verossímil” parece estar satisfazendo também as expectativas da opinião pública, que, desvirtuada, vai se tornando uma espécie de prolongamento paradoxal da própria justiça, capaz de lhe dar alguma aparência democrática.

 

UMA LITERATURA NOS TRÓPICOS

Silviano SantiagoSelo Suplemento Pernambuco/ Cepe Editora380 páginasLançamento em março de 2019

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