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‘Georges Perec’: a literatura em jogos e regras


O ‘Nexo’ publica trecho do novo livro de Jacques Fux sobre o escritor francês Georges Perec. A obra mostra como Perec criou artifícios lógicos e matemáticos na composição de seus livros para lidar com o trauma da perda dos pais judeus na Segunda Guerra. O autor francês foi um dos membros do Oulipo, grupo que submetia a escrita a jogos e regras formais, iniciado na década de 1960. O trecho a seguir é a introdução da obra de Fux, “Primeiro encontro; um grande estranhamento”

Eu nunca tinha ouvido falar de Georges Perec até que me deparei com o livro que mudaria minha vida e minha capacidade de enxergar a literatura, a ficção, as brincadeiras, subversões e inter-relações das diversas áreas do saber. “A vida modo de usar” caiu em minhas mãos e me deixou perplexo, confuso, alterado. Porém, no início, não entendi nada. Até achei que seria um livro de autoajuda fornecendo-me indicações e recomendações de como usar (ou manusear) minha própria vida. Vida essa que, naquele momento (como em todos), se encontrava inquietante.

O estranhamento, o mal-estar, o desconforto que o livro causou me motivou a continuar lendo e relendo as famigeradas e quase indecifráveis páginas. Eu tentava descobrir, revelar e desvendar todos os mistérios do puzzle com que Perec me presenteava. Aquilo era literatura, mas era também jogo, trapaça, matemática, filosofia, lógica, desespero, elucubração. Depois de uma grande labuta – inúmeras leituras, gozos, desesperos e fruições –, um caminho de sonhos e de possibilidades literárias se abriu. Fiquei fascinado. Encantado. Iludido com uma ficção improvável, mas, ao mesmo tempo, maravilhosa. Esse brave new world nunca mais se fechou – e me constituiu definitivamente escritor –, sem deixar de lado minha veia e minha paixão pela matemática.

Perec foi membro do OULIPO, um grupo que brincava com ideias e estruturas matemáticas diversas utilizando-as na composição de seus livros. Parece complicado, enigmático e limitante – e poderia até afugentar certos leitores –, mas não é. Ler Perec é a possibilidade de adentrar em um distinto e inesperado universo. Um mundo que se expande, se interpõe e se projeta em múltiplos cenários e perturbações. A matemática funciona como um objeto-desejo velado que tenta governar o mundo contingente. A lógica, em Perec, busca por explicações, por belezas recalcadas, por profundidades quase inacessíveis. Algo que repousava no coração da criança traumatizada pela perda prematura de seus pais.

O jogo indecifrável da vida pregou peças em Perec. Sua mãe morreu em Auschwitz e seu pai no fronte de guerra. Ele viveu só, angustiado e saudoso, buscando alguma memória do pouco convívio que teve com a família. A contingência imposta pela História diante do fracasso humano em conviver com o outro – o diferente, o estranho, o judeu – fez o autor brincar com um suposto controle matemático na literatura. Se este mundo profano extinguiu o pai e a mãe de milhões de crianças – tantas vezes arrancadas de seus braços e queimadas em fornos concebidos pela racionalidade humana –, então o órfão-escritor teria de conceber um mundo que não repetisse essa barbárie.

O jovem traumatizado passa a tentar controlar o incontrolável. Sua perda, sua dor e sua saudade exacerbam esse esforço descomunal por compreensão. Perec cria um mundo particular e obsessivo para não lidar diretamente com o trauma – com a imagem sempre presente da ausência de seus pais – e usa a matemática e os jogos buscando colocar a literatura em um lugar sem conexão com a dor. Toda sua energia é empenhada nos engendramentos fascinantes de seus livros. Seus jogos, regras e enigmas – áridos e frios – buscam por um isolamento afetivo.

Assim, buscando as inacessíveis certezas matemáticas, Perec escreve “La Disparition”, um livro com trezentas e tantas páginas em que nunca aparece a letra ‘e’ – uma regra conhecida como lipograma –, a mais frequente da língua francesa. Loucura? Insanidade? Projeto impossível? Talvez, mas Perec conseguiu realizar. Ele dizia que, ao se ver privado pelos nazistas do convívio com as pessoas mais importantes do mundo (père e mère), teria também que ser capaz de escrever um livro sem a letra mais importante do alfabeto. Pais e letras sempre presentes, embora faltantes. A dolorosa e árdua leitura deste livro nos causa, talvez, uma identificação projetiva (expandindo o conceito de identificação de Melanie Klein [1946]) – processo pelo qual essa dor pertinente ao eu-narrador é projetado no outro, o leitor, criando uma relação de cumplicidade e conjunção, como se um fizesse parte do sofrimento do outro.

Em outros livros, Perec maneja os aspectos matemáticos-traumáticos da ficção. Perec escreve o “Palindrome”, um livreto com cinco mil palavras que foi parar no Guinness Book. Esse pequeno livro-mistério-enigma pode ser lido de trás para frente e permanecer o mesmo. (Como é o caso da palavra ‘Ana’, mas, no caso, o livro inteiro). Fantástico? Tentativa absurda de controlar o incontrolável ou apenas a forma que Perec encontrou para confrontar seus traumas de infância?

Já em seu mais famoso livro, “A vida modo de usar”, um preâmbulo alerta o leitor que uma obra literária pode ser apenas um grande quebra-cabeças. “Podemos deduzir algo que é, sem dúvida, a verdade última do puzzle: apesar das aparências, não é um jogo solitário – todo gesto que faz o armador de puzzle, o construtor já o fez antes dele; toda peça que toma e retoma, examina, acaricia, toda combinação que tenta e volta a tentar, toda hesitação, toda intuição, toda esperança, todo esmorecimento foram decididos, calculados, estudados pelo outro”. Perec-criador nos pergunta: seria possível imaginar todas as possibilidades de leitura e de intepretações? Seria possível controlar a recepção da obra? Das palavras? Seria plausível controlar o sofrimento da vida?

E seu controle vai mais além. Em cada um dos noventa e nove capítulos desse livro, Perec se obriga a usar quarenta e duas regras distintas e lógicas. Aparecem inúmeras citações, referências a países diversos, personagens sentados, em pé, de lado, segurando algo, etc. Milhares de restrições impostas antes mesmo de se começar a escrever o livro. Centenas de tabelas confeccionadas para compor esse hercúleo trabalho.

Apesar de lógico, para se ler Perec não é necessário conhecer nada de matemática ou das regras utilizadas. Porém, se o leitor for capaz de desvendar os mistérios, de saber das ‘leis’ que regem cada capítulo, cada linha, cada pensamento de cada personagem – quase como um deus –, o livro acaba se tornando ainda mais mágico e encantado. Uma vereda fabulosa e empolgante se abre. O leitor-detetive se depara com o poder inventivo da mente do criador. A cada leitura, a cada resenha, a cada comentário, alguém descobre (ou inventa) algo diferente. E, além das leituras de cada um (que são infinitas), as possibilidades lógicas que Perec apresenta abrem sempre caminhos.

Em meu primeiro livro, “Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO”, exploro os argumentos e as ferramentas matemáticas que Perec utilizou ao longo da sua obra. O Literatura e Matemática é fruto de uma pesquisa exaustiva sobre o uso de estruturas e conceitos matemáticos na ficção. No entanto, à época me fugiu a capacidade de enxergar que esse artifício obsessivo em Perec escondia um trauma maior. A matemática funcionou como uma fuga, uma tentativa insistente de elaboração, perlaboração, sublimação. Um experimento que, ainda que tenha salvado Perec por meio da escrita – e nos presenteado com seus belos trabalhos e enigmas – o condenou à morte prematura aos 46 anos vítima de um câncer pulmonar. As palavras e a matemática não foram suficientes. O trauma o sufocou.

Neste livro, pretendo mostrar o lado inventivo e perturbado da criança traumatizada. Do escritor, sempre menino, que se despede dolorosamente dos pais – perdendo suas memórias, seus carinhos, seus odores e até a sua língua –, e largado em um mundo incognoscível e brutal. Porém, mesmo destituído de si, da palavra, do sentimento e da compreensão, é capaz de conceber um projeto literário ousado e brilhante.

 

Jacques Fux é autor de “Antiterapias”, vencedor do Prêmio São Paulo, “Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO” (Perspectiva, 2016), “Meshugá: um romance sobre a loucura” (José Olympio, 2016), vencedor do Prêmio Manaus, e de “Nobel” (José Olympio, 2018). É doutor em Literatura pela Université de Lille 3 e UFMG e pós-doutor pela Universidade de Harvard, Unicamp, UFMG.

 

 

GEORGES PEREC: A PSICANÁLISE NOS JOGOS E TRAUMAS DE UMA CRIANÇA DE GUERRA

Jacques Fux
Editora Relicário
140 páginas
Lançamento em março de 2019

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