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‘Catarina de Médici’: a nobreza francesa no século 16


O ‘Nexo’ publica trecho da biografia de Catarina de Médici, escrita pela sueca Leonie Frieda. O livro remonta a trajetória da rainha da França e mostra o país à época de seu reinado, os episódios de violência ocorridos no período e os conflitos entre católicos e protestantes. Catarina foi esposa de Henrique de Orléans, mais tarde, Henrique II da França. Depois de sua morte repentina, ela assumiu o centro do poder, aos 40 anos. O trecho a seguir faz parte do primeiro capítulo, “Uma órfã de Florença”

Caterina Maria Romula de Médici nasceu por volta das onze horas da manhã de uma quarta-feira, 13 de abril de 1519. Seu pai, Lorenzo II de Médici, duque de Urbino, descendente da Casa de Florença, então no poder, casara-se com a mãe dela, Madalena de La Tour d’Auvergne, no ano anterior. Essa condessa francesa de sangue real e grande herdeira foi um excelente partido para os Médici, considerados por muitos na França meros comerciantes nouveaux riches. Desde o seu majestoso casamento, organizado pelo rei Francisco I da França, parente da noiva, e do glorioso retorno do casal a Florença, poucos motivos havia para celebração. A gravidez de Madalena, que havia sido anunciada em junho, evoluiu bem, mas o jovem duque, cuja saúde havia se mostrado precária por algum tempo, caíra doente no outono de 1518. Altas febres intermitentes e receios a respeito de sua doença levaram-no a deixar Florença, onde os recém-casados viviam de maneira principesca. O duque, que provavelmente sofria de sífilis e talvez de tuberculose, mudou-se para o ar mais puro da zona rural dos arredores, a fim de aguardar o nascimento de seu filho. Quando voltou à cidade para o parto de sua esposa, já estava morrendo.

Logo após o nascimento da criança, os criados a levaram até o acamado pai, para que a visse. A notícia de que a mãe dela também estava agora muito doente não foi transmitida ao duque, por receio de que isso apressasse seu declínio. O fato de a esposa ter-lhe dado uma filha também não deve tê-lo alegrado muito, já que claramente não haveria mais descendentes do ilustre casal. Numa tentativa de atenuar a triste realidade do sexo da criança, um cronista da época aplicou um verniz bajulador ao desapontamento do duque: declarou que o casal “ficara tão satisfeito como se fosse um menino”. Em razão da doença de ambos, o batismo de sua filha, organizado às pressas, teve lugar no sábado, 16 de abril, na igreja da família, a igreja de São Lorenzo. Com a presença de quatro clérigos idosos e de dois parentes nobres, a bebê recebeu os nomes de Caterina – um nome da família Médici –, Maria – já que era o dia da santíssima Virgem – e Romula, homenagem ao fundador de Fiesole –, ainda que a partir de agora eu me refira a ela sempre como Catarina. Em 28 de abril, a duquesa deu seu último suspiro, seguida pelo duque seis dias depois, em 4 de maio. O enterro do casal no esplêndido jazigo da família, na igreja onde sua bebê havia sido batizada há tão pouco tempo, foi o triste desfecho de seu breve casamento.

No dia em que o duque morreu, seu amigo, o poeta Ariosto, havia chegado para dar-lhe as condolências pela morte da duquesa. Quando descobriu que restara apenas uma bebê daquele casamento que prometera uma renovação da sorte dos Médici, escreveu uma ode curta, “Verdeggia un solo ramo”, dedicando-a à última esperança daquela proeminente dinastia comercial:

Verdeja um ramo só com folhas parcas, E entre medo e esperança estou suspensoSe m’o deixas, inverno, ou se m’o arrancas,Mas mais que a esperança o temor pesa.

Catarina devia a própria existência à obsessiva ambição de Francisco I da França por territórios italianos. Entre a queda do Império Romano do Ocidente e sua unificação no final do século 19, a Itália foi uma colcha de retalhos de principados, ducados e cidades-Estado. A maioria deles mostrava um maduro vigor nas artes, na tecnologia e no comércio, e eram, portanto, vistos como aquisições tentadoras pelo olhar estrangeiro. Diferentemente do que acontecia em Florença, costumavam ser governados por famílias descendentes de chefes guerreiros famosos (conhecidos como condottieri); nomes como Sforza, de Milão, e Gonzaga, de Mântua, evocam soldados mercenários que fizeram suas fortunas por meio de batalhas sangrentas. Enquanto um pequeno número de Estados, como Veneza, Gênova e Florença, eram – pelo menos por um tempo – independentes, em meados do século xvi, a maioria deles era governada de maneira direta ou indireta pela Espanha. De 1490 até 1559, quando a supremacia espanhola foi estabelecida, a Itália virou uma arena sangrenta onde as duas superpotências continentais encenaram sua brutal luta pelo domínio da Europa. Francisco I, descendente por parte de sua bisavó dos viscondes de Milão, precisava de um forte aliado na península para pressionar em favor de sua reivindicação ao ducado. Para isso, forjou uma aliança com o papa Leão X, Giovanni de Médici. Ao contrário dos papas de hoje, sua santidade era representante na Terra não só de Cristo, mas exercia os poderes temporais de um monarca como governante dos Estados Papais, a maior parte dos quais ficava no centro da Itália. A tiara papal era uma tríplice coroa, que colocava os papas acima de reis e imperadores; o papado não só detinha uma imensa quantidade de propriedades por todo o mundo católico (na Inglaterra pré-Reforma, um quinto de todas as terras pertencia a Roma), como o papa também tinha o direito de exercer jurisdição legal nos países católicos, e muitos tipos de casos jurídicos eram decididos pela corte eclesiástica. Para fortalecer esse acordo com o papa Médici, Francisco decidiu arranjar o casamento de uma herdeira órfã dos Bourbon, Madalena de La Tour d’Auvergne, com o sobrinho de Leão, Lorenzo de Médici. Instigado por Leão, Lorenzo havia recentemente abocanhado o ducado de Urbino da família della Rovere. Para essa empreitada, o papa fornecera prodigioso apoio financeiro, com fundos obtidos da criação de trinta novos cardeais. Reservadamente, Francisco sentia um ceticismo esnobe em relação à capacidade de Lorenzo de manter o recém-adquirido feudo de Urbino, comentando que ele era, afinal de contas, “um mero comerciante”.

É verdade que, segundo os padrões do início da era moderna, os Médici de Florença não poderiam alegar ter descendência de sangue azul, mas uma administração competente e a contínua expansão dos negócios bancários da família por seu fundador, Giovanni di Bicci de Médici (1360-1429), haviam assegurado a condição de mais próspera e poderosa família na importante cidade-Estado de Florença. Os Médici eram originários de Mugello, quinze quilômetros ao norte de Florença. Embora o nome deles e as bolas ou palle vermelhas – variando em número de doze a seis – sobre campo dourado em seu brasão sugerissem medicina, e eles tivessem se apropriado dos médicos mártires são Cosme e são Damião como seus santos padroeiros, sempre haviam se dedicado ao comércio, especializando-se em lã, seda, metais preciosos, especiarias e atividade bancária.Eles cresceram e se tornaram banqueiros do papa, e com as oportunidades econômicas após a dizimação da Peste Negra em 1348-1349 havia muita demanda pelos seus serviços. Assim como seu pai Giovanni, Cosimo de Médici (1389-1464) era um homem tranquilo, despretensioso, que não se sentiu atraído pelo modo de vida grandioso deseus descendentes, embora tenha de fato construído o mais  impressionante palácio já visto na cidade – o Palazzo Médici. Hoje, embora muito mudado em relação à época de Cosimo, ainda é possível ver os formidáveis muros de defesa que uma vez protegeram Catarina quando criança de uma multidão rebelada; os sólidos muros externos refletem a necessidade de proteção contra as incertezas políticas daquele tempo e escondem os refinados interiores do edifício. Cosimo era culto e filantrópico, e foi o mais importante patrono privado das artes de seu tempo, empregando Michelozzo, Donatello, Brunelleschi, Paolo Uccello, Filippo Lippi e outras figuras de destaque do início do Renascimento. Ao sublinharem a importância desses artistas patrocinando as artes, que, a partir do século xiii, se tornaram o símbolo mais visível da riqueza e do dinamismo italianos, os Médici desempenharam um papel indispensável no processo que produziu o Renascimento italiano.

Leonie Frieda nasceu na Suécia, mas cresceu e foi educada na Inglaterra. Faz parte do Institute of Linguists, em Londres. O livro "Catarina de Médici" nasceu de seu longo interesse pela rainha francesa e, desde então, dedica-se a escrever biografias de personagens históricos.

 

 

CATARINA DE MÉDICI

Leonie FriedaTradução de Luis Reyes GilEditora Planeta528 páginasLançamento em março de 2019

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