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‘A Máquina do Tempo’: uma viagem pela ficção científica


O ‘Nexo’ publica trecho de nova edição do romance inaugural de H.G. Wells (1866-1946). Obra clássica de 1895, ela é um marco pioneiro do gênero da ficção científica. O texto abaixo é o primeiro capítulo do livro.

O Viajante do Tempo (pois assim convirá chamá-lo) nos explicava um assunto difícil. Seus olhos acinzentados reluziam e brilhavam, e seu rosto, geralmente pálido, se via corado e cheio de vida. O fogo na lareira ardia forte e o esplendor suave das lâmpadas incandescentes no lustre de prata refletia-se nas bolhas que luziam e dançavam em nossas taças. Nossas poltronas, sendo patentes dele próprio, mais nos recebiam como num abraço carinhoso do que se submetiam a serem sentadas, e havia aquela atmosfera agradável de uma conversa de depois do jantar, quando o pensamento vaga graciosamente livre dos fardos da precisão. Foi assim que ele fez suas colocações — enfatizando os argumentos com o indicador magro em riste —, enquanto o acompanhávamos sentados, com certa lassidão, admirando sua fecundidade e sua franqueza no tocante a esse novo paradoxo (como nos parecia):

— Prestem bem atenção. Vou contradizer uma ou duas ideias que são quase verdades universais. Por exemplo, a geometria que lhes ensinaram na escola se baseia num equívoco.

— Será que esse não é um ponto meio bombástico demais para servir assim de introdução? — perguntou Filby, um ruivo que gostava de discutir.

— De modo algum vou lhes pedir que aceitem qualquer coisa sem que haja uma fundamentação satisfatória. Logo os senhores vão entender aonde quero chegar. Os senhores sabem, é claro, que uma linha matemática, uma linha de espessura zero, na verdade não existe. Não lhes ensinaram isso? E tampouco um plano matemático. Tais coisas são meras abstrações.

— Correto — concordou o Psicólogo.

— Da mesma forma, um cubo que possua apenas comprimento, largura e espessura não pode existir.

— Quanto a isso tenho objeções — disse Filby. — É claro que um corpo sólido pode existir. Todas as coisas reais...

— É o que a maioria das pessoas pensa. Mas espere um momento. Pode existir um cubo instantâneo?

— Não entendi — disse Filby.

— Será possível que um cubo incapaz de ter qualquer duração no tempo tenha uma existência real?

Filby ficou pensativo.

— É claro — continuou o Viajante do Tempo — que todo corpo real precisa ter uma extensão em quatro direções: precisa ter comprimento, largura, espessura e... duração. Mas, graças a uma debilidade natural da carne, que explicarei aos senhores em breve, somos inclinados a ignorar esse fato. Há na verdade quatro dimensões, três que chamamos de os três planos do espaço e uma quarta, o tempo. Há, porém, uma tendência a traçarmos uma distinção irreal entre as três primeiras dimensões e a última, porque acontece que, nesta última, a nossa consciência se desloca de forma intermitente numa única direção do começo ao fim de nossas vidas.

— Isso — disse um jovenzinho, que se empenhava, de forma espasmódica, em reacender o charuto por cima do lampião. — Isso… bem claro, de fato.

— Agora, é muito digno de nota que isso seja tão extensivamente ignorado — continuou o Viajante do Tempo, com um leve acesso de empolgação. — Com efeito, é isso que significa a Quarta Dimensão, ainda que alguns que falem numa Quarta Dimensão não saibam o que estão dizendo. Não há nenhuma diferença entre o tempo e qualquer uma das três dimensões do espaço, exceto que a nossa consciência se desloca com ele. Mas alguns tolos entenderam erroneamente essa ideia. Os senhores todos já ouviram o que dizem sobre a Quarta Dimensão?

— Eu não, nunca — respondeu o Prefeito da Província.

— É simplesmente o seguinte. O espaço, como o compreendem nossos matemáticos, é tratado como tendo três dimensões, que podem ser chamadas de comprimento, largura e espessura, e é sempre definível em referência a três planos, cada um num ângulo reto em relação aos outros. Mas algumas pessoas de disposição mais filosófica começaram a se perguntar o porquê de termos três dimensões em particular; por que não uma outra direção num ângulo reto em relação às demais?; e tentaram até construir uma geometria tetradimensional. O professor Simon Newcomb falou sobre isso na Sociedade Matemática de Nova York há um mês, mais ou menos. O senhor sabe como podemos, numa superfície plana, que tem apenas duas dimensões, representar a figura de um sólido tridimensional e, de forma semelhante, eles acreditam que poderiam, por meio de modelos tridimensionais, representar um sólido de quatro dimensões, se conseguissem dominar a perspectiva da coisa. Entendem?

— Creio que sim — murmurou o Prefeito da Província; e então, com um subir e descer das sobrancelhas, entrou num estado introspectivo, seus lábios se mexendo como quem repete palavras místicas. — Sim, acho que entendi agora — falou depois de um tempo, alegrando-se de forma bastante transitória.

— Bem, fico feliz de poder lhes dizer que venho trabalhando com essa geometria das quatro dimensões faz algum tempo já. Alguns dos meus resultados são curiosos. Por exemplo, aqui está um retrato de um homem aos oito anos de idade, outro aos quinze, outro aos dezessete, outro aos vinte e três, e assim por diante. Todos são evidentemente seções, por assim dizer, representações tridimensionais do seu ser tetradimensional, que é uma coisa fixa e inalterável.

O Viajante do Tempo prosseguiu, após a pausa necessária para a assimilação adequada:

— Pessoas de pendor científico entendem muito bem que o tempo é apenas um tipo de espaço. Aqui temos um diagrama científico bem conhecido, um registro meteorológico. Esta linha que sigo com o dedo mostra o movimento do barômetro. Ontem ele estava alto assim, à noite caiu, depois subiu de novo esta manhã e veio subindo devagar até aqui. É certo que o mercúrio não traçou esta linha em nenhuma das dimensões do espaço geralmente reconhecidas, correto? Mas está claro que ele traçou uma linha, e essa linha, portanto, devemos concluir, seguia a dimensão tempo.

— Mas — disse o Médico, encarando concentrado um carvão na lareira — se o tempo é de fato apenas uma quarta dimensão do espaço, então por que é e sempre foi visto como algo diferente? E por que não podemos nos deslocar pelo tempo do mesmo modo como nos deslocamos nas outras dimensões do espaço?

O Viajante do Tempo sorriu.

— O senhor tem certeza de que somos livres para nos deslocarmos no espaço? Podemos ir para a direita e para a esquerda e somos livres para irmos para a frente e para trás, e foi assim que os homens sempre fizeram. Admito que somos capazes de nos deslocarmos livremente em duas dimensões. Mas e para cima e para baixo? A gravitação nos impõe um limite aí.

— Não exatamente — respondeu o Médico. — Existem balões.

— Mas, antes dos balões, salvo por casos de saltos espasmódicos e de desigualdades de superfície, o homem não tinha nenhuma liberdade de movimento vertical.

— Ainda assim podiam se deslocar um pouquinho para cima e para baixo — disse o Médico.

— Muito mais fácil para baixo do que para cima.

— E não é possível se deslocar de forma alguma no tempo, não é possível fugir do momento presente.

— Meu caro senhor, é aí que se engana. É aí que o mundo inteiro se enganou. Nós nos afastamos constantemente do momento presente. Nossas existências mentais, que são imateriais e não têm dimensões, viajam na dimensão tempo com uma velocidade uniforme desde o berço até a cova. Assim como viajaríamos para baixo se começássemos nossa existência a oitenta quilômetros acima da superfície da Terra.

— Só que a grande dificuldade é esta — interrompeu o Psicólogo. — É possível se deslocar em todas as direções do espaço, mas não no tempo.

— Esse é o germe da minha grande descoberta. O senhor, entretanto, se engana ao dizer que não podemos nos deslocar no tempo. Por exemplo, se trago à memória vividamente um determinado incidente, volto ao instante de sua ocorrência: fico absorto, como dizem. Volto por um momento. É claro que não temos os meios de permanecer lá por qualquer duração de tempo, não mais do que um selvagem ou um animal tem os meios para permanecer a dois metros acima do chão. Mas um homem civilizado está melhor do que o selvagem nesse respeito. Ele pode contrariar a gravitação usando um balão, e por que não poderia nutrir a esperança de ter, afinal, as capacidades de parar ou acelerar seu deslocamento na dimensão tempo, ou até mesmo dar meia-volta e seguir na via oposta?

— Ah, isso — começou Filby. — É tudo uma...

— Por que não? — objetou o Viajante do Tempo.

— Vai contra a razão — disse Filby.

— Qual razão? — insistiu o Viajante do Tempo.

— O senhor pode demonstrar por argumento que o branco é preto — disse Filby —, mas jamais vai me convencer.

— Talvez não — disse o Viajante do Tempo. — Mas agora o senhor começa a ver o objeto de minhas investigações quanto à geometria das quatro dimensões. Há muito tempo tive uma vaga ideia sobre uma máquina...

— Para viajar no tempo! — exclamou o Jovenzinho.

— Que viajasse, sem distinção, em qualquer direção do espaço e do tempo, conforme o seu operador determinasse.

Filby limitou-se a rir.

— Mas tenho provas experimentais — disse o Viajante do Tempo.

— Seria muito conveniente para um historiador — sugeriu o Psicólogo.

— Daria para voltar e verificar os relatos, tais como são aceitos hoje, da Batalha de Hastings, por exemplo!

— O senhor não acha que isso chamaria atenção? — perguntou o Médico.

— Nossos ancestrais não tinham lá grande tolerância para anacronismos.

— Seria possível aprender grego direto dos lábios de Homero e Platão — conjecturou o Jovenzinho.

— Nesse caso, certamente iriam reprová-lo em Cambridge. Os eruditos alemães melhoraram tanto o grego.

— Tem o futuro ainda — disse o Jovenzinho. — Imaginem só! Seria possível investir todo o seu dinheiro, guardá-lo para acumular juros e se adiantar até o futuro!

— Descobrir uma sociedade construída sobre bases estritamente comunistas — disse eu.

— Todas as teorias mais selvagens e extravagantes! — começou o Psicólogo.

— Foi o que eu achei também, tanto que só falei quando...

— Provas experimentais! — exclamei. — Você vai provar isso?

— O experimento! — exclamou Filby, que estava ficando cansado de pensar.

— Vejamos o seu experimento então — disse o Psicólogo. — Apesar de que, os senhores sabem, é tudo bobagem. O Viajante do Tempo sorriu para nós. Então, ainda sorrindo de leve,com as mãos enterradas nos bolsos das calças, saiu devagar da sala, e depois ouvimos o som de seus sapatos se arrastando no longo corredor até o laboratório.

O Psicólogo olhou para nós:

— O que será que ele vai fazer?

— Algum truque de ilusionismo — disse o Médico, e Filby tentou nos contar sobre um mágico que vira em Burslem, mas, antes que tivesse terminado o preâmbulo, o Viajante do Tempo já retornava, interrompendo a história.

 

H.G. Wells foi um escritor inglês, autor de livros como “O Homem Invisível”, “A máquina do tempo”, “A guerra dos mundos” e “A ilha do dr. Moreau”. Nasceu em Bromley em 1866 e morreu em 1946 em Londres.

A MÁQUINA DO TEMPO

H.G. WellsTradução: Adriano ScandolaraEditora Zahar200 páginasLançamento em fevereiro de 2019

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