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‘Anton Reiser’: um romance psicológico da literatura alemã


O ‘Nexo’ publica trecho de nova edição da obra de Karl Philipp Moritz (1756-1793), autor que se destacou no século 18 iluminista com este livro que é uma espécie de viagem íntima e traduz o sentimento romântico característico daquele momento. O trecho abaixo é do início do livro.

Este romance psicológico poderia também ser eventualmente chamado biografia, porque as observações são em grande parte tiradas da vida real. – Quem conhece o curso das coisas humanas e sabe que, no desenrolar da vida, aquilo que inicialmente parecia pequeno e insignificante pode muitas vezes se tornar bastante importante não se incomodará com a aparente insignificância de certas situações narradas aqui. Também não se deve esperar uma variedade de personagens num livro que conta sobretudo a história interior do homem: pois o livro não deve dispersar a força de representação, mas concentrá-la, aguçando o olhar da alma para si mesma. – Essa questão, sem dúvida, não é assim tão simples para que toda tentativa nesse sentido resulte necessariamente em êxito – mas sobretudo, ao menos do ponto de vista pedagógico, nunca será completamente inútil o empenho de fixar a atenção do homem mais sobre si mesmo e tornar a sua existência individual mais importante para ele.

 

Em P., lugar famoso por suas fontes termais, vivia em sua quinta, ainda no ano de 1756, um fidalgo, líder na Alemanha de uma seita conhecida pelo nome Quietistas ou Separatistas, cujas doutrinas estão contidas sobretudo nos escritos de Madame Guyon, célebre fanática que viveu na França nos tempos de Fénelon e com quem também manteve relações. O sr. de F., assim se chamava o fidalgo, morava ali tão isolado de todos os outros moradores, tão isolado da religião, dos costumes e hábitos do lugar quanto sua casa era separada deles por um muro alto que a cercava por todos os lados.

 

Aquela casa era como uma pequena república fechada em si, regida decerto por uma constituição completamente diferente da que havia por todo o país. Toda a criadagem da casa, até o mais humilde serviçal, era composta de pessoas cujo empenho se dirigia, ou parecia se dirigir, unicamente a entrar de novo em seu nada (como Madame Guyon o denominava), a mortificar todas as paixões e a extirpar toda singularidade.

 

Todas aquelas pessoas tinham de se reunir uma vez por dia num enorme cômodo da casa para uma espécie de culto, introduzido pelo próprio sr. de F., que consistia, sentados todos em torno de uma mesa, de olhos fechados e com a cabeça apoiada sobre ela, em esperar cerca de meia hora a m de ouvir talvez a voz de Deus ou a palavra interior dentro de si. Aquele que ouvia algo anunciava então aos demais.

 

O sr. de F. também estipulava as leituras de seu pessoal, e quem entre os criados e criadas tivesse um quarto de hora ocioso era visto sentado e lendo em posição meditativa, tendo nas mãos os escritos de Madame Guyon sobre a prece interior, ou algo semelhante.

 

Tudo naquela casa, até a menor ocupação doméstica, tinha um aspecto grave, severo e solene. Em todos os rostos, podia-se ler mortificação e abnegação; e em todos os atos, saída de si e entrada no nada.

 

O sr. de F. não voltou a se casar após a morte de sua primeira esposa, mas vivia recolhido com a irmã, a sra. de P., para poder se dedicar total e tranquilamente a uma tarefa maior, a de divulgar as doutrinas de Madame Guyon.

 

O administrador, de nome H., e a governanta com sua lha formavam, por assim dizer, o estrato médio da casa, e, em seguida, vinha a criadagem inferior. – Essas pessoas eram de fato muito ligadas e todas tinham ilimitada veneração pelo sr. de F., cuja conduta era realmente irrepreensível, se bem que os moradores do lugar andassem às voltas com histórias as mais desagradáveis a seu respeito.

 

Toda noite, ele se levantava três vezes em horas marcadas para rezar e passava a maior parte do tempo, durante o dia, traduzindo do francês os escritos de Madame Guyon, uma grande quantidade de volumes, que ele então mandava imprimir a sua custa e distribuir de graça entre seus seguidores.

 

As doutrinas contidas nesses escritos tratam em sua grande maioria da já mencionada saída completa de si mesmo e da entrada no bem-aventurado nada, daquela mortificação completa de toda assim chamada singularidade ou amor-próprio, e de um amor completo e desinteressado por Deus, ao qual, para ser puro, não se pode mesclar fagulha alguma de amor-próprio, de onde surge por fim uma quietude perfeita e bem-aventurada, objetivo mais alto de todo esse empenho.

 

Como Madame Guyon quase não teve outra ocupação ao longo da vida a não ser escrever, a quantidade de seus livros é tão espantosa que mesmo Martinho Lutero dificilmente pode ter escrito mais. Entre os escritos, apenas uma explicação mística de toda a Bíblia perfaz uns vinte volumes.

 

Madame Guyon parece ter sido muito perseguida e, como suas doutrinas eram consideradas perigosas, acabou sendo presa na Bastilha, onde faleceu após dez anos de cativeiro. Quando, depois de sua morte, lhe abriram a cabeça, encontraram seu cérebro praticamente seco. Por tudo isso, ela ainda hoje é venerada por seus seguidores como uma santa de primeira grandeza, quase uma divindade, e suas máximas são consideradas como estando à mesma altura que as da Bíblia; porque se admite que ela, pela completa mortificação de toda singularidade, estava certamente tão unida a Deus que todos os seus pensamentos também tinham de ser necessariamente pensamentos divinos.

 

O sr. de F. conhecera os escritos de Madame Guyon em sua viagem à França, e o árido fanatismo metafísico que neles reinava exerceu tanta atração em sua disposição de ânimo que se dedicou a eles com o mesmo zelo com o qual provavelmente, em outras circunstâncias, teria se dedicado ao mais elevado estoicismo, com o qual as doutrinas de Madame Guyon, levando-se em conta a completa mortificação de todos os desejos etc., tinham por vezes uma semelhança evidente.

 

Karl Philipp Moritz nasceu em Hamelin, na Alemanha, em 1756. Além de editor e escritor, Moritz foi professor de estética e arqueologia na Academia de Artes de Berlim. Morreu em 1793.

 

 

ANTON REISER: UM ROMANCE PSICOLÓGICO

Karl Philipp MoritzTradução José Feres SabinoEditora Carambaia560 páginasLançamento em janeiro de 2019

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