Ir direto ao conteúdo

‘A dominação masculina’: uma análise da violência simbólica


O ‘Nexo’ publica trecho da nova edição da obra do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que em 2019 completa 20 anos. O livro analisa como estruturas de dominação se estabelecem, e mostra como a simbologia e a subjetividade se enquadram nessa lógica de desigualdade. O trecho abaixo é parte do prefácio da obra

A eternização do arbitrário

Este livro, no qual pude precisar, reforçar e corrigir minhas análises anteriores sobre o mesmo tema, apoiando-me no grande número de trabalhos dedicados às relações entre os sexos, põe em debate explicitamente a questão, bastante lembrada pela maior parte dos analistas (e de meus críticos), da permanência ou da mudança (constatadas ou desejadas) da ordem sexual: é, de fato, a importação e a imposição desta alternativa ingênua e ingenuamente normativa que levam a perceber, contra toda evidência, a constatação da constância relativa das estruturas sexuais e dos esquemas pelos quais elas são percebidas como uma maneira condenável e imediatamente condenada, falsa e imediatamente refutada (lembrando todas as transformações na situação das mulheres), de negar e de condenar as mudanças desta situação.

 

A esta questão torna-se necessário opor a outra, mais pertinente cientificamente e sem dúvida, também, a meu ver, mais urgente politicamente: se é verdade que as relações entre os sexos se transformaram menos do que uma observação superficial poderia fazer crer, e que o conhecimento das estruturas objetivas e das estruturas cognitivas de uma sociedade androcêntrica particularmente bem conservada (como a sociedade cabila, tal como pude observar no início dos anos 1960) fornece instrumentos que permitem compreender alguns dos aspectos mais bem dissimulados dessas relações nas sociedades contemporâneas mais avançadas economicamente, é preciso realmente perguntar-se quais são os mecanismos históricos responsáveis pela des‐historicização e pela eternização das estruturas da divisão sexual e dos princípios de divisão correspondentes. Colocar o problema nesses termos é marcar um progresso na ordem do conhecimento, que pode estar no princípio de um progresso decisivo na ordem da ação. Lembrar que aquilo que, na história, aparece como eterno não é mais que o produto de um trabalho de eternização que compete a instituições interligadas, tais como a Família, a Igreja, a Escola, e também, em outra ordem, o esporte e o jorna-lismo (estas noções abstratas sendo simples designações estenográficas de mecanismos complexos, que devem ser analisados em cada caso em sua particularidade histórica), é reinserir na história e, portanto, devolver à ação histórica a relação entre os sexos que a visão naturalista e essencialista dela arranca (e não, como quiseram me fazer dizer, tentar parar a história e retirar às mulheres seu papel de agentes históricos).

 

É contra essas forças históricas de des-historicização que deve orientar-se, prioritariamente, uma iniciativa de mobilização, visando repor em marcha a história, neutralizando os mecanismos de neutralização da história. Esta mobilização marcadamente política, que abriria às mulheres a possibilidade de uma ação coletiva de resistência, orientada no sentido de reformas jurídicas e políticas, opõe-se tanto à resignação encorajadas pelas visões essencialistas (biologistas e psicanalíticas) da diferença entre os sexos, quanto à resistência reduzida a atos individuais ou a estes “happenings” discursivos sempre recomeçados e que preconizam certas doutrinas teóricas feministas: estas rupturas heroicas da rotina cotidiana, como as “parodic performances” tão caras a Judith Butler, exigem, sem dúvida, demais para um resultado muito diminuto e demasiado incerto.

Convocar as mulheres a se comprometerem com uma ação política em ruptura com a tentação da revolta introvertida de pequenos grupos de solidariedade e ajuda mútua, por mais necessários que estes sejam nas vicissitudes da vida diária, na casa, na fábrica, ou no escritório, não é, como se poderia crer e temer, convidá-las a aliar-se sem luta às formas e às normas ordinárias da luta política, com o risco de se verem atreladas ou engolfadas em movimentos estranhos a suas preocupações e a seus interesses específicos. É desejar que elas saibam trabalhar para inventar e impor — no seio mesmo do movimento social e apoiando-se em organizações nascidas da revolta contra a discriminação simbólica, de que elas são, juntamente com os (as) homossexuais, um dos alvos principais — formas de organização e de ação coletivas e armas eficazes, simbólicas sobretudo, capazes de abalar as instituições, estatais e jurídicas, que contribuem para eternizar sua subordinação.

 

Pierre Bourdieu nasceu na França, em 1930. Foi antropólogo, sociólogo, além de professor no Collège de France e diretor do Departamento de Pesquisas da École de Hautes Études en Sciences Sociales. Morreu em 2002.

 

 

A DOMINAÇÃO MASCULINA

Pierre BourdieuTradução: Maria Helena KühnerBertrand Brasil208 páginasLançamento em fevereiro de 2018

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: