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‘Lucky Jim’: um romance sobre as hipocrisias sociais


O ‘Nexo’ publica trecho do romance de estreia do inglês Kingsley Amis, um dos marcos da literatura feita após a Segunda Guerra. Publicado em 1954, e até então inédito no Brasil, o livro satiriza a vida acadêmica e as relações sociais a partir da trajetória de Jim Dixon, um professor de história medieval que tenta manter sua posição na universidade.

“Mas eles cometeram um erro bobo”, disse o professor de História com um sorriso que, enquanto Dixon observava, foi se esvaindo ao longo da recordação. “Depois do intervalo, tocamos uma pequena composição do Dowland”, ele continuou, “para flauta doce e teclado, você sabe. Claro que toquei a flauta doce e o jovem Johns...” Fez uma pausa, e seu tronco se enrijeceu ao caminhar, como se um homem totalmente diferente, um impostor incapaz de lhe copiar a voz, houvesse momentaneamente ocupado seu lugar; então voltou a falar: “... o jovem Johns tocou o piano. Rapaz versátil, seu verdadeiro instrumento é o oboé. Seja como for, o tal jornalista deve ter entendido mal, ou não estava escutando, ou sei lá o quê. Só sei que lá estava no Post para quem quisesse ver: Dowland, sim, acertaram o nome dele; srs. Welch e Johns, certo; mas imagina o que disseram depois?”.

Dixon balançou a cabeça. “Não sei, professor”, ele disse com absoluta honestidade. No seu entender, nenhum outro mestre na Grã-Bretanha fazia tanta questão de ser chamado de “professor”.

“Flauta e piano”

“Como?”

“Flauta e piano; e não flauta doce e piano.” Welch deu uma risadinha. “Como você sabe, uma flauta doce não é o mesmo que uma flauta, embora obviamente seja sua antecessora imediata. Para começar, a flauta doce é tocada no que se chama à bec, quer dizer, a gente sopra numa boquilha parecida com a de um oboé ou clarinete. As flautas modernas são chamadas de transversais, a gente sopra através de um buraco, em vez de...”

Como Welch parecia outra vez calmo, até mesmo reduzindo o passo, Dixon ficou menos tenso. Surpreendentemente, encontrara o professor de pé diante da estante de aquisições recentes da biblioteca, e agora atravessavam na diagonal um pequeno gramado rumo à frente do prédio principal da universidade.

Aos olhos de qualquer observador, lembravam uma dupla de atores de vaudeville: Welch, alto e muito magro, com cabelos grisalhos escorridos; Dixon, mais para baixinho, louro e de cara redonda, com ombros excepcionalmente largos que nunca tinham sido usados em nenhuma demonstração de força ou habilidade física. Apesar do evidente contraste entre eles, Dixon se deu conta de que o avanço lento e supostamente meditabundo dos dois teria um quê bastante professoral para os estudantes que por ali passavam. Ele e Welch poderiam estar conversando sobre questões históricas na forma pela qual a matéria merecia ser tratada nos pátios de Oxford e Cambridge. Em ocasiões como aquela, Dixon quase desejava que de fato estivessem. Aferrou-se a tal pensamento até que o homem mais idoso, voltando de repente a se animar, começou a falar em voz bem alta, com um vibrato provocado pelo riso contido e não compartilhado:

“Houve uma confusão maravilhosa na peça que eles tocaram antes do intervalo. O rapaz da viola teve a infelicidade de virar duas páginas de uma vez, e a encrenca resultante... meu Deus!”

Decidindo rapidamente qual seria sua resposta, Dixon não a pronunciou em voz alta, e sim tentou forçar sua fisionomia a manifestar receptividade ao humor. No entanto, mentalmente, fez outra cara e se prometeu que de fato a testaria quando estivesse sozinho. Puxaria o lábio inferior para baixo dos dentes de cima e, aos poucos, retrairia o queixo tanto quanto possível,tudo isso enquanto abria mais os olhos e dilatava as narinas.Dessa forma, tinha certeza de que seu rosto iria adquirir um aspecto ameaçador.

Welch falava outra vez sobre o concerto. Como ele se tornara professor de História, mesmo num lugar como aquele? Por conta das obras publicadas? Não. Por ser um mestre excepcionalmente bom? Não em letras garrafais. Então como? Mais uma vez Dixon pôs de lado a pergunta, dizendo-se que o importante é que aquele homem tinha um poder decisivo sobre seu futuro, pelo menos nas próximas quatro ou cinco semanas. Até passar esse período, ele precisava fazer o possível para que Welch gostasse dele, e um modo de conseguir isso, ele supunha, consistia em estar presente e desperto enquanto Welch falava sobre concertos. Mas será que Welch reparou em quem estava ao seu lado enquanto falava? E, se tivesse reparado, lembraria de quem era? E, se lembrasse, isso afetaria seus pensamentos? E, então, sem aviso prévio, o segundo dos dois problemas de Dixon veio à tona de repente. Estremecendo devido ao esforço de conter um bocejo nervoso, perguntou com seu sotaque do Norte: “Como vai a Margaret?”.

As feições de seu interlocutor, rígidas como se feitas de barro, foram se alterando muito lentamente à medida que sua atenção, como uma esquadra de velhas belonaves, começou a se mover para encarar esse novo fenômeno, até que ele foi capaz de dizer: “Margaret”.

“Não a vejo faz uma ou duas semanas.” Ou três, Dixon acrescentou incomodamente para si próprio.

“Ah. Acho que, levando tudo em conta, ela está se recuperando bem depressa. Claro que sofreu um abalo muito desagradável com o tal de Catchpole e toda aquela triste situação que se seguiu. Tenho a impressão... Sabe, agora é só um sofrimento mental, fisicamente está cem por cento. Na verdade, quanto mais cedo voltar a trabalhar, melhor, embora obviamente seja muito tarde para que comece a dar aulas neste semestre. Sei que ela gostaria de fazer isso logo, e concordo inteiramente. Ajudaria a afastar a cabeça dela da... do...”

Dixon sabia muito bem de tudo aquilo, muito mais do que Welch poderia supor, mas se sentiu forçado a dizer: “Sei disso… Acho que o fato de morar com o senhor, professor, e com a sra. Welch deve ter ajudado muito para que ela saísse do buraco”.

“Verdade, acho que há alguma coisa na atmosfera do lugar que exerce algum efeito curativo. Tivemos lá em casa um amigo do Peter Warlock, foi num Natal, faz muito tempo. Ele disse praticamente a mesma coisa. Lembro que, no verão passado, voltando daquele seminário de examinadores em Durham, fazia um calor infernal e o trem estava... bom, estava...”

Depois de um pequeno desvio, o trepidante veículo de sua conversação tinha sido reposto nos trilhos normais. Dixon desistiu, firmando as pernas ao chegarem por fim aos degraus do prédio principal. Convenceu-se de que pegaria Welch pela cintura, apertaria o peludo colete azul-cinzento até lhe tirar o fôlego, subiria com esforço a escadaria carregando seu corpo, seguiria pelo corredor até o vestiário dos professores, enfiaria na privada os pezinhos e seus sapatos com biqueira e puxaria a válvula umas três vezes enquanto lhe enchia a boca com papel higiênico.

 

Kingsley Amis nasceu em Londres, em 1922. Escreveu poesia, crítica e contos. Também publicou diversos romances, entre eles “The Old Devils”, pelo qual ganhou o Booker Prize. Morreu em 1995.

 

 

LUCKY JIM

Kingsley Amis Tradução Jorio DausterEditora Todavia328 páginasLançamento em janeiro de 2019

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