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‘Bagageiro’: uma reunião de histórias que não são contos


O ‘Nexo’ publica trecho do novo livro do escritor pernambucano Marcelino Freire, definido por ele como uma coletânea de “ensaios de ficção”. ‘Bagageiro’ reúne pequenas narrativas entremeadas por comentários sobre a escrita, o país, o mundo, a vida literária e a não literária também. O trecho a seguir integra o ensaio que abre o livro, ‘Sobre a poesia’.

Sou poeta.Se sou.

Quem disse que eu não sou poeta está men-tindo. Está ciscando em outros quintais. Quemdisse que eu não sou poeta, aliás, nem quintaltem. Tem biblioteca, livro grosso para leitura. Omundo, quem é que lê mais? Só as árvores cente-nárias leem. E eu também.

Poeta sou eu.

Euzinha.

A palavrinha que eu rimo, que faço toda ma-nhã, enclausurada na casa, depois da vassoura,faço um café. Quem disse que eu não tenho di-reito à ousadia? Retenho umas formas, desenhoumas questões. São borrões da fazenda miúda,miudinha.Sou fazendeira do ar.

Tenho feijões no meu livro.A propósito, não tenho livro. Quem disse que eu não sou poeta por causa disso? Só porquenão detenho livro nas livrarias, não chamego prê-mios no meu pescoço? Eu tenho Nossa Senho-ra, pendurada em mim, protetora do universo.Quem disse que eu não sou poeta? Só porque rezoe creio? Alguém aí sabe de cor uma ladainha? OSalve-Rainha como eu. Eu sou uma Rainha. ARainha do Verso.

Não existe a Rainha das Astúrias? A Rainha do Concreto? A Rainha dos Oceanos? O Rei dosJabutis? Lé com Cré? Nobel, Nobé? Eu sou maiseu. Euzinha, todo dia, no ofício. Aponto o lápis,faço a lição do lirismo. Acompanho a plantaçãodas frases na página. A página do caderno, se vejoque está só, todinha em branco, eu vou e enterrolá minhas motivações.Invenções.

Eu falo por exemplo da “chuvidade”.Fui eu que inventei a “chuvidade”. São cer-teiros meus pronunciamentos. Gosto de anunciaraos quatro ventos o que o vento me traz. É tantanovidade. É só enxergar. Ouvir as montanhas, aoSul. Eu ouço demais.E estou velha.

E poeta velha é a melhor coisa. Poeta velhanão tem medo. Porque já sentiu deveras. A mortedo mundo. De tanta gente que se foi. A saudadedos apoios. Minha irmã, que vivia tocando flauta,era uma poeta. Morreu de febre amarela. Alguémaí já morreu de febre amarela?

Agora me digam. Quem tocava flauta feitoela não era uma poeta? De categoria? E morrer defebre assim, perto de mim, não dá em mim umamensagem? Uma linguagem? Todo santo dia mi-nha irmã afinava a sua religião. Gostava de se en-costar naquela pedra. E os bichos gostavam dela.As aranhas-caranguejeiras. As aves lavadeiras.Saudade não é, por si só, poesia da melhor?Sou poeta.Porque tenho muito o que contar. Porque seicontar, aqui, no corpo do papel, buscando solução.Poesia é buscar solução para a emoção. Não temnada a ver com matemática. Nem é número, não éciência. É a expressão da dor. Cavucando, caduca.A dor que espinha em nós, que geme nos pés.

 

Já falei: faço um café. Às vezes um chá de ci-dreira. E visito umas coisas que eu lembro. Minhavó Maroca, na roça, trançando algodão. Fazendoalmofadinha. Dizendo que aquela planta davaboneca. Como assim, vó? Esse pé, minha neta,é pé que dá boneca. E misturava o algodão comoutros capins. Sim, com capim. E dizia assim: sópara as bonequinhas não ficarem “se achando”, detão branquinhas as princesinhas. Percebe? Sei quenão é culpa do algodão a cor que ele carrega. Mascada nuvem branca lá do céu para mim só ficamelhor quando escurece.Isso não é lindo?

Acho lindo recordar os antigos momentos.Mesmo com sofrimento e poucas garantias. Soupoeta porque sei traduzir as injustiças. A saber:olhar na cara de qualquer jumento e absorver oque ele está dizendo. Eu aprofundo. Escrevo paraaprofundar. A palavra me deu unha. E não falo,assim, de poder. Da palavra que põe gravata, nãoé nada disso o que eu quero dizer. Digo da palavraque me põe de pé, deu para entender? E me põede cabeça forte. E o pensamento solto que nin-guém domina.

Sou tradutora de idiomas, duvidam? Sei alíngua dos insetos. De quatro asas, duas. Mugido.Barulho do pomar, daquilo que for fertilizante amar. Os passarinhos. O zunido da mosca tam-bém. O zique-zique do gafanhoto. O galicínio.Não é tão bonito dizer “o galicínio”, “o clarinar”?Que tal testemunhar o galo cantar no meu terrei-ro? Minha página é meu terreiro.Quem disse que eu não sou poeta?

Po-e-ta. Com todas as letras. Poetisa, por fa-vor, não me venham com essa.Poeta, na fé. Poeta e só. Poeta é para dois oumais sexos. Eu falo de amor conjunto. Eu estou à

frente. Uma vez um moço chegou vistoso, alinho-so, de chapéu. Desceu as botinas, deu boa-tarde.Olhou a minha casa, de riba a baixo. Minha irmãera ainda viva. E parou a flauta. E a gente ficou naesperança de ele falar por que motivo veio pararnessa esquina. O que tanto queria ele, na cumpli-cidade de seu cavalo estrelar.

Pediu água. Bebeu olhando para mim. Maispara mim. Talvez porque eu tivesse mais autori-dade. Eu e minha poesia. Não que a música nãotenha. A música de minha falecida compositora,irmã, era grande, muito amor sem tamanho, ago-ra no céu ela está poderosamente harmonizando.Mas é que minha irmã fechava os olhos para com-por, tocar. Só abria os olhos de vez em quando.Para olhar, assim, sem olhar. Eu olho como quembusca um caroço no outro. Quem me ensinou isso?O verso comprido. As artimanhas dos sonetos.E ainda mais os versos livres.As rimas pobres de doer.Reparem só qual era a dele, a do moço quechegou. Mirou as panelas, o fogaréu aceso. Viu, lálonge, se havia comida para o cavalo majestoso.

Coçou o bolso, tirou o chapéu, ajeitou os instru-mentos das mãos nos cabelos que ondulavam. Fa-lou de pirão, almoço. Discursou sobre os tecidosmal engomados. Fazia tempo que não sentia ocheiro de um ferro esquentando a manga de umacamisa.O que ele queria?Poesia é que não era.

Errou a estrada. Porque sou sobretudo mu-lher quando escrevo. Trago nos meus desejos osdesejos de minha mãe. A linda Filomena. Eu soupoeta porque meu poema não começa no poe-ma. Ele vem chamuscado de violência. Digo logoa qual sangue pertenço. Isso não é literatura? Eupenso que sim. Quem vem dizer o contrário?O moço do cavalo, o cavalo do moço? Esses eumandei pastar. Não preciso de coisa assim, estru-turada. Não preciso de economia. O moço pareciaum gerente de estatal. Parecia um prefeito candi-dato. Um juiz agropecuário.

Neca.Não se meta com poeta, seu malfeitor. Sereieu sua escrava?Poesia não tem dono. Poesia é esse molamboque eu uso. Essas flores na minha mesa. Esse jeitode me arrumar para a palavra. Ponho até loção edeito. Buliçosa. Quando escrevo uma poesia nova,tive um parto. Deixei um menino nascer. Umaplanta progredir. Uma vingança acontecer.

Marcelino Freire nasceu em 1967, em Sertânia, Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de “Angu de sangue” (Ateliê Editorial, 2000), “Contos negreiros” (Prêmio Jabuti, Editora Record, 2005), “Rasif”  (Editora Record, 2008), entre outros. Em 2013, lançou “Nossos ossos”, vencedor do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional, também pela Record.

 

BAGAGEIRO

Marcelino FreireEditora José Olympio160 páginasLançamento em outubro de 2018

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