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‘O artista da faca’: a nova identidade de Francis Begbie


O ‘Nexo’ publica trecho da tradução do livro do escritor escocês Irvine Welsh, continuação do romance “Pornô”, de 2002. Na obra, Welsh retoma a história do personagem psicopata Francis Begbie, agora pretensamente recuperado e com nova identidade, que apareceu pela primeira vez em “Trainspotting”. O enredo tornou o escritor conhecido no mundo todo depois de sua adaptação para o cinema, em 1996.

Ele a ergue na direção do céu e o sol intenso parece explodir por trás da cabeça de Eve, brindando Jim Francis com um momento transcendental. Ele faz uma pausa para desfrutá-lo antes de baixar a criança outra vez. A areia quente logo castigará seus pés descalços, pensa ele, desviando-se do brilho solar, e ele terá de cuidar para que a menina não se queime. Mas por enquanto Eve está numa boa e o metralha com risos borbulhantes para estimulá-lo a continuar a brincadeira.

O que há de glorioso em ser seu próprio patrão, estabelecer seu próprio horário, é que sempre se pode tirar uma folga. Jim gosta de estar ali naquela praia deserta desde o nascer do sol desta manhã de julho, acompanhado pela mulher e suas duas filhas pequenas, enquanto todos os outros dormem para curar a ressaca das comemorações do Dia da Independência. A praia está completamente vazia, à exceção de algumas aves marinhas com seus grasnidos.

Na mudança para a Califórnia, eles se hospedaram no apartamento de dois quartos de Melanie, na pequena cidade universitária de Isla Vista, perto de onde ela trabalhava, no campus da universidade. Jim adorava a proximidade do mar e eles costumavam andar pela trilha litorânea, de Goleta Point a Devereux Slough, às vezes apenas vendo um ou outro catador de praia ou surfista. Quando vieram primeiro Grace, depois Eve, eles se mudaram para uma casa em Santa Barbara e as caminhadas foram reduzidas em favor de passeios mais curtos.

Esta manhã eles acordaram cedo, a maré ainda baixa, e estacionaram o Grand Cherokee na Lagoon Road. Usam tênis velhos para caminhar, porque a areia está repleta de bolas de alcatrão produzidas pelo campo de petróleo próximo ao longo da costa de Ellwood, o único ponto de ataque no continente americano durante a Segunda Guerra Mundial. Caminhando para o mar, passaram pelos penhascos baixos de arenito que separam do oceano Pacífico o campus da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, na direção do azul tranquilo e mais intenso da lagoa. As piscinas de maré e os caranguejos que ficaram presos pela expansão do mar hipnotizaram as meninas, e Jim relutou em prosseguir, querendo participar daquela alegria arregalada que o levava de volta à própria infância. Haveria, porém, mais caranguejos para ver depois em Goleta Point, e assim eles seguem adiante, montando acampamento abaixo dos penhascos, além dos quais ficavam a universidade e Isla Vista. As tempestades durante a noite, o fim de semana de festividades e a baixa estação da faculdade aliaram-se para deixar a praia desprovida de tráfego humano.

O clima severo incomum foi abrandando mais tarde, porém o mar turbulento criou grandes bancos de areia. Para quem não está inclinado a esperar a alta da maré, eles precisam ser contornados antes de se chegar ao mar. Jim tirou os tênis depressa e pegou Eve, sabendo que a filha de três anos era tão impaciente quanto ele, enquanto Melanie esticava as toalhas na areia para sentar-se com Grace, de cinco anos.

Brincando na água, Jim impele Eve para cima, mais uma vez enfeitiçado pela torrente de risos que isso provoca. As dunas de areia não permitem que ele veja Melanie e Grace, mas ele sabe que Eve as vê. No alto, segura pelos braços esticados do pai, ela tem a mãe e a irmã na linha de visão enquanto ri e aponta para elas sempre que ele a suspende acima da cabeça.

E de repente algo muda.

É a expressão da menina. No balanço seguinte para o céu, Eve deixa as mãos caírem junto do corpo. Ela está olhando na mesma direção, Jim segue seu olhar até o topo do banco de areia, mas o  rosto da menina revela um ar de confusão. Ele sente um baque por dentro. Puxando-a para o peito, ele sai da água, sobe rapidamente a duna, a perna ruim pesando na areia. Mas quando Melanie e Grace entram em seu campo de visão, em vez de reduzir o passo, ele vai até elas com uma pressa maior.

Sob o sol turvo que eclode por entre as nuvens, Melanie fica ao mesmo tempo aliviada e assustada ao ver Jim surgindo da areia com Eve nos braços. Talvez agora eles vão embora, os dois homens que apareceram na praia, vindo das trilhas pedregosas que correm sinuosas do penhasco acima. Ela percebera vagamente a presença deles, sem dar muita importância, pensando que fossem estudantes, até que eles se aproximaram e se sentaram bem ao lado dela e da filha. Ela estava passando loção bronzeadora nos braços de Grace e ia fazer o mesmo no próprio corpo.

– Precisa de uma ajuda pra passar essa meleca? – perguntou um deles, com um sorriso torto por baixo dos óculos escuros. Foi o tom que deu arrepios nela; ausente de malícia, mas frio e categórico. Ele vestia uma camiseta preta justa que revelava músculos fortes  passou a mão na cabeça de cabelo batido. Seu cúmplice era um homem mais baixo, de cabelo louro comprido caindo nos olhos azuis penetrantes e com um sorriso distorcido de uma malevolência grosseira.

Melanie não disse nada. Aqueles homens não eram estudantes. Seu último emprego fora trabalhar no interior de instituições prisionais, e eles fediam a cadeia. Sentiu-se então petrificada por uma terrível dissonância cognitiva, porque no passado defendera a liberdade para homens assim. Homens que pareciam sensatos, recuperados. Quantos deles tomavam o rumo errado quando voltavam para a comunidade? Embora Melanie não se deixasse abalar com facilidade, a situação ali emanava maldade. O nó em suas entranhas pulsava insistentemente, dizendo-lhe que eles eram mais do que apenas inoportunos. E Grace a olhava em apelo, exortando-a a fazer  ou dizer alguma coisa. Ela queria transmitir de algum modo à filha que, num tipo de situação dessa, não fazer nada era fazer alguma coisa. Melanie olhou os penhascos, a praia e não havia ninguém. Aquele local, em geral tão frequentado, agora era sinistro de tão deserto.

 

Irvine Welsh nasceu em Leith, na Escócia, e abandonou a escola aos 16 anos, passando por vários empregos até se mudar para Londres, na década de 1970. De volta a Edimburgo, fez um MBA na Heriot Watt University. É autor de “Trainspotting” (1993), "Crime "(2008) e "Skagboys" (2012), entre outros.

 

 

 

O ARTISTA DA FACA

Irvine WelshTradução Ryta VinagreEditora Rocco256 páginasLançamento em setembro de 2018

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