‘Testosterona Rex’: os mitos sobre sexo, ciência e sociedade


O ‘Nexo’ publica trecho do livro da britânica Cordelia Fine sobre mitos relacionados à diferença de comportamento entre homens e mulheres baseados no discurso científico. Na obra, ela desconstrói a teoria de que a distinção entre os sexos seja resultado da evolução biológica da espécie e discute as implicações sociais da ideia

Em meio às brumas do tempo que felizmente lançam uma névoa por sobre a lista de namorados que tive ao longo da vida, em algum momento me envolvi com um homem cujo carro era um Maserati. Quando deixei escapar essa informação para a minha mãe, ela respondeu no tom de voz afetado e artificial que usa toda vez que, em deferência à minha condição – tecnicamente falando – de adulta, deseja disfarçar o fato de que acha que tomei uma decisão que sem dúvida levará ao desastre. “Imagina só, um Maserati!”, exclamou. “Que chique, ele tem muitas namoradas?”

A conexão que ela sugeriu de forma nada sutil tem uma interessante história científica. Em meados do século passado, o biólogo e geneticista britânico Angus Bateman conduziu uma série de experimentos com as drosófilas (Drosophila melanogaster), também conhecidas como mosquinhas-das-frutas. No fim das contas, elas se tornariam a fonte de uma torrente de alegações sobre as diferenças psicológicas que se desenvolveram entre mulheres e homens. Qualquer pessoa que um dia já tenha se deparado com a ideia de que homens dirigem Maseratis pela mesma razão que pavões cultivam caudas primorosamente ornamentais foi tocada pelas repercussões desse estudo pioneiro. A pesquisa de Bateman foi inspirada pela teoria darwiniana da seleção sexual, uma subteoria muito debatida no âmbito da teoria darwiniana da seleção natural, esta sim, amplamente aceita. Segundo essa teoria, a seleção sexual é o processo por meio do qual a frequência de diferentes versões de um traço hereditário muda no decorrer do tempo, devido ao fato de que algumas variedades de um traço resultam em um sucesso reprodutivo maior que outros. Tratava-se, em parte, de uma tentativa de compreender e atribuir sentido ao mistério de por que os machos de muitas espécies exibem características extravagantes e pomposas, a exemplo da cauda do pavão. Esses fenômenos exigiam uma explicação porque eram muito estranhos para a teoria darwiniana da seleção natural. Afinal, se um dos objetivos primordiais da vida de uma criatura é evitar ser devorado por outro animal, então um traseiro emplumado no formato de um leque imenso e chamativo de abano não é uma vantagem.

A explicação de Darwin calcava-se em observações fartamente pormenorizadas de animais e seus hábitos de acasalamento. (Como um jornalista da revista Nature apontou sobre aquela época, “a despeito da reputação de puritanismo e pudicícia dos vitorianos [...], havia poucos lugares no mundo onde animais em pleno galanteio poderiam escapar de um naturalista com seus blocos de anotações”.) Esses estudos de campo deram origem à famosa observação de Darwin em “A origem do homem e a seleção sexual”, de que a causa para que os machos se afastassem da forma feminina: “ parece estar no fato de que os machos de quase todas as espécies de animais são dotados de paixões mais fortes do que as fêmeas. Por isso, são os machos que lutam juntos e, diligentes, exibem laboriosos seus encantos diante das fêmeas”.

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