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‘Mulheres esmeraldas’: um jornalista vê o garimpo na Amazônia


O ‘Nexo’ publica trecho do novo livro do escritor Domingos Pellegrini, ambientado na Amazônia, na década de 1980. A obra, que combina ficção e elementos autobiográficos, narra o caminho percorrido por um jornalista em busca de uma reportagem sobre mulheres garimpeiras.

Romance, ele sussurra acordando com sol nos olhos, azul quase faiscante na janela, romance precisa antes de tudo ser escrito, e hoje, sem  falta, vai começar a escrever, os garimpeiros podem esperar. Pouco antes de acordar, estava no mesmo sonho de sempre: uma mulher, de quem só vê o alto da cabeça, se atrapalha com o zíper de suas calças, tentando abrir e não conseguindo, dizendo que zíper mais complicado, o tesão acabando, aí ele acorda. Para seu amigo Maurílio, a interpretação é óbvia:

– Você está procurando uma mulher esperta, meu chapa!

Ele levanta da cama úmida de suor, se assustando com a baita teia de aranha, mas é só o mosquiteiro, e pisando em latas de cerveja vai ligar a tevê sem imagem, só chuvisca fanhosa:

Vamos chegando às últimas semanas de 1984, mas o sentimento nacional é de que o Brasil vai entrando numa nova era, com seu primeiro presidente eleito depois de vinte e quatro anos de regime militar, o mineiro Tancredo Neves...

Suspira fundo, falando sim, eu suspiro, senão eu piro; depois toma banho e se veste, enfia o caderno de notas num envelope plástico e bota no peito a máquina fotográfica, o gravador cabe no bolso da jaqueta, enquanto o cantil vai enganchado no cinto, o boné na cabeça; já teve insolação em reportagem de campo por esquecer o boné. Talvez por tudo isso, quando dá com a loira no corredor ela lhe olha de cima até embaixo, decerto pensando ser turista ou ecologista com tanta tralha. Ele dá bom dia, ela não responde, chaveando a porta do quarto para sair.

Ele espera, para ir atrás dela vendo seu andar, mas ela espera olhando a porta, belo pescoço. Então ele passa e vai para o café, ela atrás pisando tão leve que ele não ouve, apesar de, ele olha, ela estar de botinas.

No salão do café, o hoteleiro vem cheio de sorrisos por baixo do bigodão, com um potinho de manteiga gelada para ele e dois ovos cozidos para ela, mimos especiais do Hotel Ouro Fino. Passando pelo bigodão a mesma mão que pegou pães, pergunta se ele gostou do vinho, voltando rapidinho para a cozinha sem esperar resposta. Vinho? Ele ainda arrota cerveja, e apoia a testa nas mãos esperando o café, que deveria vir antes dos pães, não?

Assim também cochilou no aeroporto de Campo Grande, para, em Cuiabá, pegar o Fokker que roncou furioso até Alta Mata, só mata lá embaixo, às vezes clareira de cidadezinha, cozinhando no mormaço sob a tampa azul do céu. Na pista cascalhada de Alta Mata, as rodas espirraram pedregulhos a bater na fuselagem, e alguém falou isso parece tiro, mas outro disse não, tiro é diferente.

Olha no caderno se anotou isso, anotou. E, aberta a porta do avião, entraram um calorão com cheiro de capim e um menino ligeiro  com galinha viva amarrada pelos pés. O menino abriu a cortina da cabine do piloto, entrou e voltou sem a galinha, e só depois, sorrindo desculposamente, a aeromoça deixou saírem os passageiros. Ele revê as  anotações. Num sol de esquentar os cabelos, caminhou para o aeroporto, um barracão de madeira com telas nas janelas, mais parecia um grande galinheiro. O piso do saguão estava coberto de pó de serra, e lá fora os táxis esperavam torrando ao sol em ilhas de lama na rua empoçada. Uma crosta de poeira, grossa e dura de velha, cobria o painel de um Mercedes, e, a caminho da cidade, ouvia-se um ronco distante mas furioso; o taxista explicou: eram tratores alargando a clareira da cidade, e uma grande árvore tombou lá na beirada da floresta. Sentiu cheiro forte de alho e o taxista, que dirigia fumando, disse que era de paus-d’alho derrubados, então ele sentiu fome.

As ruas eram de terra mas largas como avenidas, o carro desviando de poças e atoleiros. As casas pareciam boiar no lamaçal, uma aqui e outra lá, entre terrenos baldios com capoeira crescendo, e, em calçadas embarreadas, lojas tinham caixas de som sobre tijolos e mercadorias em varais, de sutiãs a linguiças, anotou para um dos cenários de sua reportagem.

(Não anotou que, no primeiro hotel, onde o saguão tinha quadros de queimadas e enormes vasos de flores de plástico, tirou da mochila uma das três revistas que trazia para isso mesmo, mostrou-se na pequena foto no índice, mostrou a carteirinha de repórter especial da Playboy, esperando que, como sempre, funcionasse mais que carteira de Polícia Federal, para enfim dizer que gostaria de se hospedar ali porém não podia: ia passar semana num garimpo, precisava de nota de estadia em hotel. Pode ficar com a revista, falou, e toda dúvida sumiu da cara do sujeito, encheu nota fiscal no dobro do valor, carimbou, entregou dizendo vai com Deus e se enfiou na revista. Deus topa tudo, ele anota agora.)

Depois pegou outro táxi e mandou tocar para qualquer hotel barato de garimpeiros, e o taxista falou o Ouro Fino, onde ele logo descobriria o travesseiro tão fino que precisava ser dobrado, o sabonete fininho que duraria dois banhos, a toalha de quase transparente finura... Perguntou ao hoteleiro se tinha vinho, claro que não tinha. Mas ele tinha um plano, resolveu tomando banho: pelas manhãs começaria a escrever o romance, à tarde conversaria pelos bares para anotar histórias de fabulosos garimpos e enriquecidos garimpeiros, misturando com paixões e alucinações inventadas, para voltar já com a “reportagem” toda anotada, faltando apenas redigir.

Deus escreve certo principalmente nas entrelinh... estava anotando quando bateram na porta. Era o hoteleiro com garrafa e sorriso vitorioso debaixo do bigodão:

– Consegui vinho pro senhor, oferta da casa!

Ele agradeceu muito, fechou a porta, olhou a garrafa: era um vinho, se assim podia ser chamado, rosado e licoroso, até o papel do rótulo era grosso. Abriu com saca-rolha do canivete, cheirou e despejou na privada. Pegou na mochila o saco plástico para colocar roupa suja, encheu com meia dúzia de latas num bar vizinho, voltou furtivamente, tomou a primeira lata gelada, a segunda fria, a terceira fresca, as outras mornas entre arrotos e bocejos diante da tevê chuviscando. A última anotação: como será que dormem nos garimpos neste calorão?

De repente ergue o olhar do caderno, esperando flagrar o olhar da loira, mas ela só encara a xícara. Ele luta para passar a manteiga gelada no pão murcho e, olhando como ela come com gosto e com graça os ovos, lembra que está com fome porque não jantou. Pede ovos também, com bacon e tomate, o hoteleiro pergunta se pode botar cebola, ele fala alto:

– Passe pela horta com a frigideira e bote o que quiser.

Mas ela não ri, talvez nem ouviu, só olhando para o prato; mas assim ele pode olhar bem: é bonita que só, corpo esguio mas com todas as curvas, pele rosada, cabelos tão curtinhos quanto pontudinho o nariz. Claro que não é dali, embora até pareça, com essas calças e camisas de homem, botinas embarreadas. Puta decerto não é, com essa redoma de respeito em volta. Talvez sapatona, se não parecesse tão feminina, e certo é só que está sozinha, chaveou o quarto. De repente, ela ergue o olhar para ele mas volta a baixar para o prato, um olhar firme e calmo, sem medo nem pressa e bem azul.

Ela acaba os ovos, toma mais café. O hoteleiro traz os ovos dele, pergunta se ela quer mamão, entregando meio papaia ainda com sementes. Ela tira as sementes com a colher, come o mamão a colheradas, devagar e pensativa, os olhos azuis pairando longe. Ele come os ovos, lambe o prato com pão e começa a comer sua metade do mamão, esperando ela olhar de novo. Mas ela não olha, raspa a casca do mamão, lambendo a colher com sensual inocência, depois toma água degustando cada gole e vai para o quarto. Volta logo com chapéu panamá e mochila nas costas, saindo sem olhar, e ele vai espiar da porta: ela caminha reta pela rua, embarreando as botinas sem desviar das poças e barreiros. De repente olha para trás, decerto é daquelas que se sentem olhadas. Ele dá com a mão, ela continua reta pela rua de barro. Ele pergunta ao hoteleiro quem é ela.

– É garimpeira – responde o bigodudo com naturalidade.

Ele pergunta de algum garimpo por perto para conhecer. Tem

vários, diz o bigodão, é só pegar um táxi.

– O garimpo dessa dona aí é perto?

É, mas esse ele não pode visitar:

– É garimpo de mulher, homem não pode entrar.

 

Domingos Pellegrini nasceu em Londrina, em 1949. Formado em letras, trabalhou como jornalista e publicitário. É autor dos romances “Terra Vermelha” e “Caso da Chácara Chão” e do livro de contos “O Homem vermelho”, entre outros. Foi vencedor de seis  prêmios Jabuti.

 

 

MULHERES ESMERALDAS

Domingos PellegriniEditora Gutenberg208 páginasLançamento em setembro de 2018

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