Lina Meruane

09 Ago 2018

O 'Nexo' publica trecho da edição brasileira do livro da escritora chilena Lina Meruane, que questiona discursos sobre a proeminência dos filhos na vida dos pais. A autora debate, no ensaio, de que maneira ideias consideradas progressistas, como o incentivo ao prolongamento do período de amamentação, podem reforçar o retorno das mulheres ao ambiente doméstico.

A máquina de fazer filhos

A máquina reprodutora continua seu curso incessante: cospe filhos aos montes. E gente morre aos montes também, mas para cada morto, para cada desenganado, há dois-ponto-três corpos vivos lançados ao mundo para tentar a sorte. Há rumores por toda parte de que a pulsão dos filhos é uma resposta instintiva contra a extinção que nos espreita. O chamado a somar crianças, que serão adolescentes, que se tornarão algum dia adultos, manteria a espécie em curso. Mas os filhos, longe de serem os escudos biológicos do gênero humano, fazem parte do excesso consumista e contaminador que está acabando com o planeta.

Eis um paradoxo, não é o único.

A agonia pela aparente “crise de fertilidade” não faz sentido. A Europa pode até ficar aflita pelo envelhecimento de sua população, pode até fantasiar o surgimento de uma tropa de europeus que ative a indústria, que sustente, com sua renda, a hiperatividade dos mercados e, com suas contribuições, um número desproporcional de velhos cada dia mais centenários dos quais os Estados pós-capitalistas se recusam a cuidar ou se tornaram incapazes de fazê-lo. Mas a Europa, se olharmos bem para ela, se a colocarmos sob uma lupa e um olho aberto, é apenas um pedacinho de terra com um punhado de gente. Um pedaço minúsculo do globo que poderia, se quisesse, se acreditasse no seu próprio relato apocalíptico e se abrisse suas fronteiras vigiadas, solucionar o problema liberando espaço para tanta gente espremida em outros lugares da geografia.

Eis outro paradoxo.

São tantos os condenados pela guerra que procuram asilo! Tantos os que procuram trabalho fora de seus países! Tantos os homens e as mulheres do transbordamento populacional! Na Índia e na China, onde depois de quatro décadas da controversa política do filho único, agora os casais podem ter dois. E são sem dúvida muitos os que se somam aos índices de procriação nas nações menos industrializadas. Difícil não mencionar alguns povos da América Latina. Impossível não pensar na África como um enorme continente parideiro (mesmo ao pensarmos, igualmente, em sua alta taxa de mortalidade). E o excesso de filhos nesses lugares faz parte de seus apuros: esse é outro paradoxo sem sentido.

A máquina de fazer filhos é nossa condenação.

Que ninguém se engane, no entanto. Não irei advogar, nestas páginas, pelo cessamento absoluto da indústria filial. Não subscrevo à deprimente tese malthusiana nem à ideia de que só as pragas e a abstinência colocarão freio na multiplicação natalícia. Não acredito no darwinismo populacional nem proclamo no que se segue nenhum sistema de eugenesia. Soluções finais? De maneira alguma!

E também não é a intenção desta arenga defender a cruel investida de um tal Herodes, nem o vingador filicídio da tal Medeia, que, segundo dizem as más línguas do cânone, teria assassinado seus descendentes como o fizeram também, fora do mito e desde a Antiguidade, tantas mães nos sofridos delírios do pós-parto, e tantas outras em são juízo.

Não escrevo a favor do infanticídio, por mais que o recém-nascido do vizinho ao lado interrompa meu sono, por mais que as crianças do andar de cima sapateiem sobre meu teto e meu trabalho diurno.

Não defendo a eliminação de nenhuma vida — embora seja, sim, a favor de todas as formas imagináveis de anticoncepção que não ponham em risco a saúde das mulheres. E sou contra a violência que tantos meninos e meninas sofrem hoje. Não sou contra a infância.

Escrito de outro modo:

É contra os filhos que redijo estas páginas. Contra o lugar que os filhos foram ocupando em nosso imaginário coletivo desde que se retiraram “oficialmente” de seus postos de trabalho na cidade e no campo e inauguraram uma infância de século xx vestida de inocência, mas investida de plenos poderes no espaço doméstico.

 Sou contra a secreta força dos filhos-tiranos nestes tempos que correm, velozes e desaforados como eles — sobre minha cabeça e pelo corredor. Aos berros! Silêncio, imploro, dissimulando minha irritação: não há quem trabalhe no meio de uma bagunça dessas. E não é só contra esses filhos prepotentes que escrevo, mas também contra seus progenitores. Contra os confortáveis cúmplices do patriarcado que não assumiram sua justa metade na histórica gesta da procriação. Contra a nova espécie de pais dispostos a colaborar dentro e fora de casa, mas que parecem incapazes de pronunciar um educativo “acabou!”, um certeiro “chega!” para seus filhos rebeldes; sem se abalar, permitem que eles ignorem a paz de seus desesperados vizinhos.

E por que não acrescentar à minha ladainha que sou contra muitas mães. Não todas. Apenas contra as que jogaram a toalha e renunciaram angelicamente a todas as suas outras aspirações. Contra as que aceitaram procriar sem pedir nada em troca, sem exigir o apoio do marido-pai ou do Estado. Contra as que engravidaram, acreditando que apanhavam um desavisado, e se viram capturadas pelo filho, sozinhas com ele. Contra as que, numa reciclagem atual da mãe-empregada, tornaram-se mães-totais e supermães dispostas a arcar com casa, profissão e filhos sobre seus ombros, sem reclamar. E não me esqueço das mães prepotentes que, além de engendrá-los (e se dar importância fazendo rodar o carrinho sobre nossos pés), nos obrigam a assumir seus filhos como nossos.

Estou muito contrariada, é verdade, mas não é à toa.

Observo com alarme que a questão dos filhos não prosperou.

Muito pelo contrário, ela experimenta um grave retrocesso.

O que aconteceu? Nós, mulheres, não tínhamos nos liberado da condenação ou da cadeia dos filhos que a sociedade nos impunha? Não tínhamos deixado de procriar com tanto afinco? Não conseguimos estudar carreiras e outros ofícios que nos tornaram independentes? Não conseguimos sair e entrar e sair do cerco doméstico, deixando para trás as culpas? Não tínhamos obtido dos progenitores que assumissem uma paternidade consequente? Não deixamos de tolerar infelizes arranjos de casal? Não é por acaso verdade que são as mulheres que, na sua esmagadora maioria, pedem agora o divórcio e o obtêm? Não conseguimos a guarda compartilhada? Não conseguimos decidir como criar nossos filhos? Não colocamos limites para eles? Quando foi que se tornaram vitimários impunes nossos e de seus pais? O que os transformou nos invencíveis ditadores que agora são? Em clientes aos quais é preciso satisfazer com uma multidão de presentes? Em anões executores de um imperativo de serviço doméstico que continua mais vivo e ativo do que nunca?

 

Lina Meruane nasceu no Chile, em 1970, e vive nos Estados Unidos, onde leciona cultura latino-americana e escrita criativa na Universidade de Nova York. Tem diversos trabalhos de ficção e não-ficção publicados, como o livro de contos "Las infantas", o romance "Sangue no olho" e  o ensaio "Volverse a Palestina". Recebeu os prêmios Sor Juana Inés de la Cruz (México, 2012) e Anna Seghers (Berlim, 2011).

 

Foto: Reprodução

 

 

CONTRA OS FILHOS

Lina Meruane
Tradução Paloma Vidal
Editora Todavia
176 páginas
Lançamento em agosto de 2018

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.