'Nascidos em tempos líquidos': as transformações no terceiro milênio


O 'Nexo' publica trecho do livro que reúne correspondências entre o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) e o jovem jornalista italiano Thomas Leoncini (1985 -). No registro, os dois retomam temas fundamentais do pensamento de Bauman e refletem sobre aspectos da cultura atual, como as dinâmicas sociais e amorosas na era das mídias sociais.

Transformações da agressividade

Thomas Leoncini: Steven Spielberg, Barack Obama, Rihanna, Miley Cyrus, a princesa Kate Middleton, Madonna e Bill Clinton têm algo em comum: em seu período escolar, foram vítimas de bullying e sofreram numerosos episódios de violência.Vamos tentar analisar o bullying, mas partindo de um aspecto incomum. Segundo o pensamento de Arnold van Gennep, um dos mais conhecidos estudiosos de antropologia do século 20, as principais características dos ritos de passagem são construídas, reunidas e formadas em torno de três estágios. O primeiro é o período de separação do indivíduo em relação à comunidade (os chamados ritos preliminares, que permitem ao sujeito afastar-se da condição precedente). A esse segue-se o período de margem (aquele chamado de liminaridade), no qual ocorre uma verdadeira suspensão de status social; de fato o sujeito entra numa espécie de limbo que pode representar um perigo tanto para ele quanto para a estabilidade social, porque pode criar um novo espírito comunitário, uma nova communitas, como sustentava o antropólogo escocês Victor Turner. Basta pensar que muitas das recentes revoluções sociais anticonformistas tiveram sua gênese mediante situações de liminaridade: os hippies dos anos 1960 são hoje irreconhecíveis antepassados dos jovens gutter punk ou dos dark, mas estes, por sua vez, são os antepassados dos emo, que hoje talvez só tenham os hipsters como transformação líquida liminar. O terceiro é o estágio da agregação, aquele tecnicamente chamado de ritos pós-liminares, porque o sujeito volta, para todos os efeitos, ao seu hábitat como parte integrante e novamente conectada, mas com novas características individuais, que se tornam vivas quando relacionadas às sociais.

Separação, marginalidade e agregação, portanto, esses estágios, se os procurarmos em muitas situações nas quais está difundido o fenômeno do bullying, com frequência também são representativos do percurso que a vítima de bullying sofre, obrigatoriamente. Diante dos ataques do ofensor, sobretudo se reiterados, a vítima se sente psicologicamente (e, muitas vezes, também fisicamente) “separada” dos outros.

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