Zygmunt Bauman e Thomas Leoncini

02 Ago 2018

O 'Nexo' publica trecho do livro que reúne correspondências entre o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) e o jovem jornalista italiano Thomas Leoncini (1985 -). No registro, os dois retomam temas fundamentais do pensamento de Bauman e refletem sobre aspectos da cultura atual, como as dinâmicas sociais e amorosas na era das mídias sociais.

Transformações da agressividade

Thomas Leoncini: Steven Spielberg, Barack Obama, Rihanna, Miley Cyrus, a princesa Kate Middleton, Madonna e Bill Clinton têm algo em comum: em seu período escolar, foram vítimas de bullying e sofreram numerosos episódios de violência.Vamos tentar analisar o bullying, mas partindo de um aspecto incomum. Segundo o pensamento de Arnold van Gennep, um dos mais conhecidos estudiosos de antropologia do século 20, as principais características dos ritos de passagem são construídas, reunidas e formadas em torno de três estágios. O primeiro é o período de separação do indivíduo em relação à comunidade (os chamados ritos preliminares, que permitem ao sujeito afastar-se da condição precedente). A esse segue-se o período de margem (aquele chamado de liminaridade), no qual ocorre uma verdadeira suspensão de status social; de fato o sujeito entra numa espécie de limbo que pode representar um perigo tanto para ele quanto para a estabilidade social, porque pode criar um novo espírito comunitário, uma nova communitas, como sustentava o antropólogo escocês Victor Turner. Basta pensar que muitas das recentes revoluções sociais anticonformistas tiveram sua gênese mediante situações de liminaridade: os hippies dos anos 1960 são hoje irreconhecíveis antepassados dos jovens gutter punk ou dos dark, mas estes, por sua vez, são os antepassados dos emo, que hoje talvez só tenham os hipsters como transformação líquida liminar. O terceiro é o estágio da agregação, aquele tecnicamente chamado de ritos pós-liminares, porque o sujeito volta, para todos os efeitos, ao seu hábitat como parte integrante e novamente conectada, mas com novas características individuais, que se tornam vivas quando relacionadas às sociais.

Separação, marginalidade e agregação, portanto, esses estágios, se os procurarmos em muitas situações nas quais está difundido o fenômeno do bullying, com frequência também são representativos do percurso que a vítima de bullying sofre, obrigatoriamente. Diante dos ataques do ofensor, sobretudo se reiterados, a vítima se sente psicologicamente (e, muitas vezes, também fisicamente) “separada” dos outros.

Essa vida à parte da vítima não só transtorna seu cotidiano, envolvendo tanto a vida escolar quanto a dos afetos, mas também leva, em alguns casos (não raros), a uma mudança das amizades, dos contatos diários. Pode assim criar um novo núcleo mínimo de pertencimento social, e isso coincide com a fase de margem, aquela na qual, como resposta ao desconforto, muitas vítimas de bullying imaginam modos a fim de não sofrer mais, de encontrar outra identidade, visto que a precedente havia trazido, como resultado, muita amargura. Após (ou durante) tudo isso, porém, é inevitável – porque é a sociedade que o impõe – um retorno à base, uma nova agregação; portanto, as relações com os colegas de classe e com a instituição escolar em geral devem ser recuperadas, para não se ficar para trás e evitar insucessos e reprovações em exames. Mas, ao término desse percurso, digamos de alguns meses ou, na pior das hipóteses, de alguns anos, a vítima de bullying retorna à sociedade como pessoa nova, como uma pessoa que traz consigo uma nova identidade social, mais complexa.

O bullying não violento fisicamente pode ser entendido como o equivalente de um rito de passagem necessário para alguns jovens? Os ofensores, isto é, os autores de bullying, nascem importunadores porque o bullying faz parte do seu “habitus”?

Zygmunt Bauman: O eminente sociólogo e historiador social judeu alemão, naturalizado inglês, Norbert Elias cunhou em 1939 o conceito de “processo de civilização”, entendido não tanto como uma eliminação, para fora da vida humana, da agressividade, da coerção brutal e da violência (ideia que ele provavelmente considerava utópica), mas como – que me seja permitida a expressão – uma “varrição dessas três coisas para baixo do tapete”: removê-las da vista das “pessoas civilizadas”, dos lugares que estas provavelmente frequentam, ou até, com muita frequência, dos quais possam apenas ter notícia, para transferi-las a “pessoas inferiores”, excluídas, para todos os efeitos, da “sociedade civilizada”. Os esforços para obter tal efeito se voltaram para a eliminação de comportamentos reconhecidos, avaliados e condenados como bárbaros, rústicos, toscos, descorteses, mal-educados, atrevidos, impertinentes, deselegantes, mal-criados, desprezíveis, inconvenientes ou vulgares, e, no conjunto, grosseiros e inadequados ao uso por parte de “pessoas civilizadas”, além de degradantes e desvalorizadores, se por elas usados. O estudo de Elias foi publicado na véspera da mais bárbara explosão de violência de toda a história da espécie humana; mas, na época em que foi escrito, o fenômeno do bullying era quase totalmente desconhecido, ou pelo menos ainda não tinha um nome. Quando, nas últimas décadas, a violência voltou preponderantemente à ribalta, e a linguagem vulgar se insinuou no elegante discurso dos salões e mesmo na cena pública, numerosos discípulos e seguidores de Elias anunciaram o advento de um “processo de descivilização” e se empenharam, dando saltos-mortais, em explicar essa repentina e inesperada reviravolta da condição humana, porém com resultado escasso e insatisfatório – pouco convincente.

Vozes mais radicais foram ainda além: remetendo-se ao Spengler de A decadência do Ocidente (Der Untergang des Abendlandes no original alemão, em que Untergang talvez fosse traduzido mais fielmente como “queda”), sugeriram que aquilo que hoje acontece à civilização ocidental é a enésima repetição do modelo que toda civilização, passada e futura, deve seguir em sua história. Valendo-se de suas peculiares metáforas botânicas, Spengler apresentava aquele modelo como uma sucessão de primavera, com sua criatividade audaz, porque ingênua (muito mais tarde, George Steiner sugeriria que o privilégio de Voltaire, Diderot e Rousseau havia consistido na ignorância deles, no fato de não saberem aquilo que, ai de nós, sabemos hoje); verão, com a maturação de flores e frutos; outono, com o murchar e a queda de flores e frutos; e por fim inverno, caracterizado pelo congelamento e a retomada do espírito criativo em exangue maneirismo desprovido de criatividade. No que se refere ao Ocidente, a passagem da civilidade (espiritual) à civilização (mundana, material,concreta, prática) se verificou em torno de 1800:

 

Em tais termos se distingue a existência euro-ocidental
de antes e depois do século 19, a vida numa plenitude e
numa natureza cuja forma nasce e se desenvolve a partir
de dentro, num só ímpeto grandioso que, desde a infância
do gótico, vai até Goethe e Napoleão; e aquela vida tardia
[outonal], artificial, sem raízes, das nossas grandes cidades,
cujas formas são traçadas pelo intelecto. ... O homem
de uma civilidade vive voltado para o interior, o de uma
civilização vive voltado para o exterior, no espaço entre corpos e “fatos”.

Há portanto uma escolha, que pode e deve ser realizada, entre propostas interpretativas que descem das alturas sofisticadas, sublimes, e as intenções universalistas da Geschichtsphilosophie, a filosofia da história. Nesta nossa conversa, porém, nós nos interessamos por fatores mais terra a terra, prosaicos, mundanos e, em ampla medida, localizados, que animam e forjam os atuais desenvolvimentos de nossa cultura, de nossa mentalidade e dos nossos modelos comportamentais.

 

Zygmunt Bauman nasceu na Polônia, em 1925. Foi sociólogo, filósofo, professor emérito das universidades de Varsóvia e de Leeds e um dos principais intelectuais presentes no debate de temas da contemporaneidade. Morreu em 2017. Tem cerca de 40 livros publicados no Brasil.

Thomas Leoncini nasceu na Itália em 1985. Jornalista e escritor, colabora para diversos jornais e revistas ao redor do mundo. É coautor do livro "Deus é jovem", com o papa Francisco.

 

 

NASCIDOS EM TEMPOS LÍQUIDOS

Zygmunt Bauman e Thomas Leoncini

Editora Zahar
96 páginas
Lançamento em agosto de 2018

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