‘O monopólio da mídia’: uma análise sobre o fluxo de informações nos EUA


O ‘Nexo’ publica trecho do livro do jornalista americano de origem armênia Ben H. Bagdikian. A partir de dados coletados durante mais de duas décadas, a obra mostra uma investigação sobre o processo de concentração das empresas de comunicação nos Estados Unidos ao longo do século 20. O trecho a seguir faz parte do primeiro capítulo do livro, “Uma mídia comum em um país incomum”.

The New York Times, 20 de fevereiro de 2003 — O senador Byron Dorgan, do Partido Democrata da Dakota do Norte, enfrentou uma tragédia em seu distrito quando um trem de carga que transportava amoníaco anidro descarrilou em Minot, lançando uma nuvem tóxica letal sobre a cidade. Os sistemas de alerta de emergência se mostraram ineficazes, e a polícia então recorreu às estações de rádio locais, das quais seis pertencem à gigante corporativa Clear Channel. De acordo com os relatos apurados, ninguém atendeu o telefone nas emissoras de rádio em mais de uma hora e meia de tentativas. Trezentas pessoas foram hospitalizadas, algumas parcialmente cegadas pela exposição ao amoníaco. Animais de estimação e de rebanho morreram.

O amoníaco anidro é um fertilizante muito usado, que libera um gás tóxico, provocando irritação no sistema respiratório e queimaduras na pele. O gás se funde com o tecido das roupas e seca a umidade dos olhos. Até o momento, uma pessoa morreu e 400 foram hospitalizadas.

United Church of Christ News,publicação on-line, maio de 2003.

Clear Channel é a maior cadeia de rádio dos Estados Unidos, proprietária de 1.240 emissoras, que contam com apenas 200 funcionários. A maior parte dessas estações, inclusive as seis de Minot, na Dakota do Norte, é operada à distância, usando material pré-gravado.

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Os Estados Unidos da América — como tanto se afirma com orgulho dentro de suas fronteiras e com inveja fora delas — são o país mais rico do mundo, com 19 mil municípios espalhados por um continente inteiro e uma população com a maior diversidade étnica, racial e de origem geográfica do planeta. Suas culturas regionais são tão diversas quanto as paisagens de lugares como Amherst e Amarillo. Ao contrário de nações poderosas cujas origens remontam a milênios, os Estados Unidos são um país novo, com menos de 300 anos. Como consequência, não têm em sua bagagem a herança de séculos sob o jugo de monarcas, tsares e potentados religiosos dotados de poderes absolutos. Desde seu nascimento, o governo americano tem como princípio férreo o fato de agir com o consentimento de seus governados.

Mas os Estados Unidos também estão em constante  mudança e, hoje, passam por um dos períodos de maior inovação tecnológica de sua história. A velocidade com que a  revolução digital se espalhou por toda a sociedade foi impressionante. Os computadores e a internet, somados ao  maior conjunto de veículos de mídia de massa do planeta, alteraram a maneira como milhões de pessoas vivem suas rotinas diárias. A nova tecnologia tem funções quase milagrosas, que em seus aspectos mais benéficos levaram à evolução de inúmeros aspectos da vida, como a ciência, a educação e a medicina.

Mas os EUA são um país singular por outros motivos também. Cada comunidade detém o controle de suas próprias escolas, do uso de suas terras, de seu corpo de bombeiros e de seus departamentos de polícia. Já na maioria dos demais países, isso fica a cargo de entidades de abrangência nacional. Em razão da dependência dos americanos de decisões tomadas no âmbito local e de seu extraordinário número de entidades autogovernadas, o sistema de comunicações mais racional para um país com tamanha diversidade de populações e lugares exigiria que cada região tivesse centenas de veículos de mídia locais, cada um sob a responsabilidade de um dono diferente e atento às necessidades específicas de sua comunidade. Seria razoável supor que apenas assim cada comunidade americana teria uma mídia ajustada a suas necessidades de informação.

Seria razoável supor que isso acontece. Mas tal suposição estaria errada.

Cinco empresas de alcance global, operando quase sempre nos moldes de um cartel, são proprietárias da maior parte de jornais, revistas, editoras de livros, estúdios cinematográficos e emissoras de rádio e TV dos Estados Unidos. Cada veículo de sua propriedade, sejam revistas ou estações de rádio, tem como premissa cobrir o país inteiro, e as pessoas que os dirigem priorizam histórias e programas que possam ser usados em todo e qualquer lugar. Os produtos de mídia que criam são um reflexo disso. A programação veiculada nas seis emissoras vazias de Minot, na Dakota do Norte, estava sendo transmitida simultaneamente a partir de Nova York.

Esses cinco conglomerados são: Time Warner (que em 2003 se tornou a maior empresa de mídia do mundo), Walt Disney Company, News Corporation (com sede na Austrália), Viacom e Bertelsmann (com sede na Alemanha). Hoje em dia, nenhuma grande empresa de mídia se contenta com a dominação em um único meio. A estratégia delas exige uma presença forte em todos os tipos de mídia, desde jornais até estúdios de cinema. Isso proporciona às grandes corporações e aos seus executivos mais poder de comunicação do que o disponível a qualquer déspota ou ditador na história.

Ben H. Bagdikian, jornalista, nasceu na Turquia, em 1920. Radicado nos Estados Unidos, trabalhou no Washington Post nos anos 1970, onde foi o responsável pela cobertura do caso que ficou conhecido como os Papéis do Pentágono. Ganhou os prêmios Pulitzer e Peabody e publicou cinco livros ao longo de sua carreira. Morreu em março de 2016, na Califórnia.

 

 

O MONOPÓLIO DA MÍDIA

Ben H. BagdikianTradução Alexandre BoideEditora Veneta368 páginasLançamento em junho de 2018

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