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‘Literatura à margem’: ensaios sobre escrita e processos criativos


O ‘Nexo’ publica trecho do novo livro do catarinense Cristovão Tezza. A obra reúne conferências ministradas pelo escritor que analisam a criação literária a partir de temas como as fronteiras entre ficção, biografia e ensaio. O trecho a seguir faz parte do primeiro texto da coletânea, ‘Literatura à Margem’.

Talvez eu esteja falando muito pela minha própria geração, os escritores que se educaram, na passagem da adolescência para a vida adulta, nos turbulentos anos 60. Os cinquenta anos do golpe militar de 64, que se rememoram agora, dão uma medida da intensidade política daqueles tempos, mas não era apenas ela que estava em jogo. Naquele momento, para muitos jovens vivendo seu turbulento rito de passagem, em que o pessoal, o existencial e o político se fundiam de uma maneira muito forte, a decisão de escrever, o impulso de se tornar escritor, representava por si só um ato de rebeldia, de negação e de marginalização. Não apenas na literatura: em todas as áreas do que poderíamos chamar genericamente de “ciências humanas”, ninguém queria “o que estava aí”, e “o que estava aí” era uma nuvem escura, informe, em grande parte indefinível, mas que, pela sua misteriosa opressão, deveria ser dissipada. Naquele mundo (e me refiro ao mundo mesmo, não apenas o quintal brasileiro), diante do inimigo – que poderia ser o general ditador ou a pressão religiosa ou a família tradicional ou o sexo reprimido ou a estupidez do emprego ou a miséria social ou o horror insuperável da convivência humana ou o que quer que assombrasse a alma do escritor –, a palavra-chave era “rompimento”. Mais do que uma circunstância política momentânea, diante da ditadura militar que se instaurava, ou das guerras de Estado ou de guerrilha, ou da repressão totalitária do chamado socialismo real, permanecer à margem passava a ser, para o artista da palavra, uma espécie de imperativo ético que o levaria adiante. Estar à margem, portanto, soava como uma qualidade essencialmente positiva.

Vai outro parêntese: se esta era uma qualidade especialmente positiva naquele momento, pelo seu impulso histórico, ou mesmo político, digamos, romântico – tudo favorecia este rompimento –, é verdade também que a essência marginalizadora da literatura vem de muito longe. É possível que vá aqui algum anacronismo, a tendência instintiva a analisar o passado com os parâmetros do presente; mas se entendemos a ideia de “margem” além da realidade frequentemente mesquinha, ou no mínimo chapada e esquemática com que se pensam esquerda e direita hoje, percebemos que não há de fato praticamente nenhum escritor de relevância que de algum modo, no seu tempo, não tenha vivido à margem ou então cultivado um olhar à margem, capaz de ver o que o olhar comum não conseguia ver.

Pois bem, se saímos dos anos 70 na pele daquele pequeno lobo solitário, o escritor, escolhendo a margem para sobreviver, o próprio espaço da literatura brasileira, este trânsito entre autores, livros e leitores que bem ou mal vinha se mantendo vivo na estreita faixa letrada do mundo brasileiro, sofreu um estrangulamento que duraria duas ou três décadas. Voltando o foco dos indivíduos que escrevem para o seu reflexo na sociedade leitora, a literatura que conversava com o país foi saindo discretamente de cena, até quase desaparecer do horizonte.

É preciso cuidado também aqui, neste olhar puramente de fora. Não estou fazendo um índice de valor, e não se pode julgar a força de uma literatura simplesmente pelo seu impacto no público – uma avaliação mecânica assim levaria a distorções tremendas, tirando da necessária margem aquele imperativo ético do valor da diferença. Na verdade, a literatura brasileira do final dos anos 70 até a virada do século 21 passava por um processo transformador de que não temos ainda dimensão exata. Refugiada na universidade por consequência da dura sobrevivência do escritor num Brasil muito maior, em rápida e violenta expansão urbana, a literatura brasileira perdeu seu elo tradicional com os leitores. A margem, sua boa marca de origem, transformou-se num castelo inacessível, que tentava modernizar-se antes pela pauta que pela realização. Sutilmente, o sistema teórico que interpretava a própria história da produção poético-ficcional passou ele mesmo a produzir literatura, como expressão paradoxal de uma utopia da inteligência. O clássico anúncio dos classificados – “contratam-se escritores”, da minha metáfora de humor – passava a fazer sentido. O escritor era alguém que saía do chão puxando os próprios cabelos. (Atenção: antes que me acusem de hipocrisia, confesso que eu fui um desses escritores – graças à universidade, este escritor que vos fala sobreviveu com relativo conforto por duas décadas, num tempo em que nenhuma outra opção mais ou menos viável se oferecia a ele. Na prática, a literatura prosseguia sendo entre nós uma atividade essencialmente ornamental, aquilo que se faz nas horas vagas.)

É claro que este longo período em que a academia deu as cartas do ideário literário brasileiro não foi algum perverso fenômeno isolado, destinado a cooptar e a domesticar escritores, mas parte de uma transformação do país que crescia rapidamente sem conseguir dar conta das exigências do próprio crescimento.

Além do mais, há que se considerar o espírito do tempo, os anos em que, depois do vendaval cultural e político do final dos anos 60, em que muitos dos que se imaginavam agentes da história foram de fato as suas vítimas, a inteligência parou para pensar no que de fato havia acontecido – e a arte literária viveu um certo sonho cientificista, em que ciência e arte pareciam a mesma coisa, ou pelo menos partilhar a mesma linguagem, irmãos de sangue, e não perspectivas bastante distintas de compreender o mundo. E havia o silêncio sempre sólido e discreto da ditadura. Um silêncio que resultou do Brasil que embarcava no golpe militar em 1964, depois na ditadura explícita em 1968, enfim na barbárie dos anos 70, desembarcando trôpego na década de 90 ainda sem entender direito o que tinha acontecido na longa viagem – e hoje mesmo, cinquenta anos depois, vive-se ainda, em momentos, a sensação angustiante de que não aprendemos nada e não esquecemos nada, um país que patina no seu disco riscado, ainda povoado de fantasmas sem nitidez.

 

Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, e vive em Curitiba há muitos anos. É autor dos romances “O filho eterno”, “O fotógrafo”, “Um erro emocional”, “Trap” e outros. Foi professor da área de letras na Universidade Federal do Paraná e, atualmente, é colunista do jornal Folha de S. Paulo.

 

 

LITERATURA À MARGEM

Cristovão TezzaEditora Dublinense160 páginasLançamento em junho de 2018

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