Ir direto ao conteúdo

‘O Poder’ : um romance sobre estruturas invertidas


O ‘Nexo’ publica trecho da edição brasileira do livro da escritora americana Naomi Alderman. A obra simula um romance histórico escrito pelo personagem Neil Adam Armon, que tenta explicar a formação de uma sociedade em que mulheres tomam o poder dos homens e passam a governar por meio da força.

Roxy

Os homens trancam Roxy no armário enquanto agem. O que eles não sabem é: ela já esteve trancada no armário antes. Quando não se comporta, é ali que a mãe a coloca. Só por uns minutos. Até que ela se acalme. Lentamente, nas horas que passou ali, ela soltou aos poucos a fechadura, usando as unhas ou um clipe de papel como chave de fenda. Ela podia tirar a fechadura quando bem quisesse. Mas não tirou, porque aí a mãe teria colocado um ferrolho do lado de fora. Para ela basta, sentada ali no escuro, saber que se realmente quisesse poderia sair. O conhecimento vale o mesmo que a liberdade.

Então é por isso que eles acham que ela está trancada, sã e salva. Mas ela consegue sair. É assim que ela vê.

Os homens chegam às nove e meia da noite. Roxy devia ter ido à casa dos primos naquela noite; estava marcado fazia semanas, mas ela ficou emburrada porque a mãe comprou a calça errada na Primark, e por isso a mãe disse: — Você não vai, vai ficar em casa. — Como se Roxy quisesse muito visitar os merdinhas dos primos.

Quando os sujeitos chutam a porta e veem Roxy ali, fazendo birra ao lado da mãe, um deles diz: — Merda, a menina está aqui. — São dois homens, um mais alto com cara de rato, outro mais baixo, de queixo quadrado. Ela não conhece nenhum dos dois.

O mais baixo pega a mãe pelo pescoço; o mais alto persegue Roxy pela cozinha. Ela está quase na porta dos fundos quando ele a agarra pela coxa; ela cai para a frente e ele a apanha pela cintura. Ela chuta e grita. — Vá se foder, me solte! — E quando ele cobre a boca de Roxy com a mão, ela a morde forte, a ponto de sentir o gosto do sangue. Ele xinga, mas não solta. Carrega Roxy pela sala. O baixinho empurra a mãe contra a lareira. Roxy sente algo crescer dentro de si, embora não saiba o que seja. É só uma sensação na ponta dos dedos, um formigamento nos polegares.

Ela começa a gritar. A mãe diz: — Não machuquem minha Roxy, não machuquem minha Roxy, porra, vocês não sabem no que estão se metendo, isso vai virar um inferno, vocês vão querer nunca ter nascido. O pai dela é o Bernie Monke, meu Deus.

O baixinho ri. — A gente trouxe um recado pro pai dela, na verdade.

O mais alto enfia Roxy no armário debaixo da escada tão rápido que ela só entende o que está acontecendo quando vê que tudo ficou escuro à sua volta e sente o aroma doce-empoeirado do aspirador. A mãe começa a gritar.

Roxy respira rápido. Ela está assustada, mas tem que ir atrás da mãe. Ela gira um dos parafusos da fechadura com a unha. Um, dois, três movimentos e ele cai. Uma fagulha salta do ponto em que o metal do parafuso encontra a mão. Eletricidade estática. Ela se sente estranha. Concentrada, como se pudesse enxergar de olhos fechados. Parafuso de baixo, um, dois, três movimentos. A mãe dizendo: — Por favor. Por favor, não. Por favor. O que é isso? Ela é só uma criança. Ela é só uma menina, pelo amor de Deus.

Um dos homens ri baixinho. — Pra mim não parece nem um pouco uma criança.

A mãe dá um grito agudo; como metal em um motor com defeito.

Roxy tenta entender em que ponto da sala os homens estão. Um está com a mãe. O outro... Ela ouve um som à sua esquerda. O plano dela é: sair abaixada, bater na parte de trás dos joelhos do mais alto, pisar na cabeça dele e depois são duas contra um. Se eles estavam com armas, não mostraram. Roxy já brigou antes. As pessoas falam coisas sobre ela. E sobre a mãe. E sobre o pai.

Um. Dois. Três. A mãe grita de novo, e Roxy empurra a fechadura e bate na porta com toda a força para escancará-la.

Ela dá sorte. A porta pegou nas costas do sujeito mais alto. Ele tropeça, perde o equilíbrio, ela agarra o pé direito dele que estava no ar e ele desaba no tapete. Há um som de algo se quebrando e ele sangra no nariz.

O baixinho está com uma faca no pescoço da mãe. A lâmina cintila, prateada e sorridente.

Os olhos da mãe ficam esbugalhados. — Fuja, Roxy — ela diz, apenas um sussurro, mas Roxy ouve como se fosse dentro de sua cabeça: — Fuja. Fuja.

Roxy não foge de brigas na escola. Se você foge, nunca mais vão parar de falar: — Sua mãe é uma puta e seu pai é um canalha. Cuidado, a Roxy vai roubar seu livro. — Você tem que pisar neles até eles implorarem. Você não foge.

Alguma coisa está acontecendo. O sangue pulsa nos ouvidos dela. Uma sensação de formigamento se espalha pelas costas, pelos ombros, pelas clavículas. A sensação diz: você consegue. Ela diz: você é forte.

Roxy pula sobre o sujeito de bruços, gemendo e batendo no rosto dele. Ela vai agarrar a mãe pela mão e fugir dali. Elas só precisam chegar à rua. Lá fora, à luz do dia, isso não pode acontecer. Elas vão achar o pai; ele vai resolver isso. São só alguns passos. Elas vão conseguir.

O baixinho dá um chute forte no estômago da mãe. Ela se dobra de dor, cai de joelhos. Ele sacode a faca sibilante diante de Roxy.

O mais alto geme. — Tony. Lembre. A menina, não.

O baixinho chuta o outro na cara. Uma vez. Duas vezes. Três vezes.

— Não. Diga. A porra do meu nome.

O mais alto silencia. Seu rosto borbulha de sangue. Roxy sabe que está encrencada agora. A mãe grita: — Fuja! Fuja! — Roxy sente o formigamento nos braços. Como agulhadas de luz que vão da espinha até a clavícula, da garganta até os cotovelos, pulsos, até as pontas dos dedos. Ela cintila por dentro.

Ele tenta pegar a menina com uma mão, a faca na outra. Ela se prepara para dar um chute ou um soco nele, mas seu instinto diz algo novo. Ela agarra o pulso dele. Ela torce algo bem lá dentro do próprio peito, como se sempre tivesse sabido fazer aquilo. Ele tenta se soltar, mas é tarde demais.

Ela pega o raio em sua mão. Determina que o raio dardeje.

Há um estalido brilhante e um som que parece o de um furador de papel. Ela sente o cheiro de algo que lembra um pouco uma tempestade e um pouco o odor de cabelos queimados. O gosto debaixo da língua é de laranja amarga. O baixinho agora está no chão. Seu choro lembra uma melodia sem palavras. A mão dele se fecha e se abre. Há uma longa cicatriz vermelha percorrendo seu braço até o pulso. Ela consegue ver a cicatriz até debaixo dos cabelos louros: escarlate, num padrão que lembra uma planta, folhas e ramos, botões e galhos. A boca da mãe está aberta, ela está olhando, as lágrimas seguem caindo.

Roxy puxa a mãe pelo braço, mas ela está em choque e lenta, e sua boca ainda diz: — Fuja! Fuja! — Roxy não sabe o que fez, mas sabe que quando você está brigando com alguém mais forte e a pessoa cai, você vai embora. Mas a mãe não se move rápido o suficiente. Antes de Roxy conseguir colocá-la de pé, o baixinho diz: — Ah, não, vocês não vão.

Ele está alerta, erguendo-se, mancando entre as duas e a porta. Uma mão está caída, morta, ao lado do corpo, mas a outra segura a faca. Roxy lembra a sensação de ter feito aquilo, seja lá o que tivesse feito. Ela coloca a mãe atrás de si.

— O que você tem aí, menina? — diz o sujeito. Tony. Ela vai lembrar o nome para contar ao pai. — Uma bateria?

— Saia do caminho — diz Roxy. — Quer mais um pouco?

Tony dá dois passos para trás. Olha os braços dela. Tenta ver se ela tem algo atrás das costas. — Você derrubou, não foi, menina?

Ela se lembra da sensação. A torção, a explosão para fora.

Ela dá um passo na direção de Tony. Ele fica onde está. Ela dá mais um passo. Ele olha para a mão morta. Os dedos ainda se contraindo. Ele sacode a cabeça. — Você não tem nada.

Ele vai na direção dela com a faca. Ela estica a mão, toca nas costas da mão boa dele. Faz aquela mesma torção.

Não acontece nada.

Ele começa a rir. Segura a faca com os dentes. Agarra os dois pulsos dela com a única mão.

Ela tenta de novo. Nada. Ele força a menina a se ajoelhar.

— Por favor — diz a mãe, de um jeito suave. — Por favor. Por favor, não. E então algo bate em sua nuca e ela apaga.

Quando ela acorda, o mundo está de lado. A lareira está lá, como sempre. Aparas de madeira queimando. Fumaça entrando nos olhos dela, a cabeça dói e a boca, uma massa disforme contra o tapete. Gosto de sangue nos dentes. Alguma coisa está pingando. Ela fecha os olhos. Abre de novo e sabe que se passaram mais do que uns poucos minutos. A rua lá fora está quieta. A casa está fria. E torta. Ela sente seu corpo. As pernas estão sobre uma cadeira. O rosto pende para baixo, pressionado contra o tapete e a lareira. Ela tenta se erguer, mas o esforço é demais, então se contorce e deixa as pernas caírem no chão. Dói quando caem, mas pelo menos ela está num nível só.

A memória volta em lampejos. A dor, depois a fonte da dor, depois aquilo que ela fez. Depois a mãe. Ela se ergue lentamente, percebendo que as mãos estão pegajosas. E que algo pinga. O tapete está encharcado, com uma mancha grossa vermelha em um grande círculo em volta da lareira. Ali está a mãe, a cabeça sobre o braço do sofá. E há um papel sobre o peito dela, com o desenho de um narciso feito com caneta hidrográfica. Roxy tem catorze anos. É uma das mais novas e uma das primeiras.

Naomi Alderman nasceu em Londres, na Inglaterra. É escritora, colunista da seção de tecnologia do jornal britânico The Guardian e roteirista de games. Sua estreia na literatura é  “Desobediência”, de 2006. Pelo livro “O Poder”, foi vencedora do prêmio Baileys de ficção.

 

 

O PODER

Naomi AldermanTradução Rogério Galindo Editora Planeta368 páginasLançamento em maio de 2018

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: