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‘Uniões’: as novelas do escritor austríaco Robert Musil


O ‘Nexo’ publica trecho do livro “Uniões”, do romancista austríaco Robert Musil (1880-1942), traduzido pela primeira vez no Brasil. Além de duas novelas do escritor, a obra também reúne ensaios sobre sua produção escritos pela professora e pesquisadora Kathrin Rosenfield. O trecho a seguir faz parte da narrativa “A Perfeição do Amor”.

Conseguia pensar que poderia pertencer a um outro, e isso não lhe parecia infidelidade, mas um derradeiro casamento, em outro lugar onde eles não estavam, onde seriam apenas música, onde ela não pertencia a ninguém, e uma música que não ecoasse em nada. Pois sentia nessas horas a existência como sendo apenas uma linha que zunia, fazendo-se ouvir naquele calar confuso, como algo em que um instante pede o próximo, e ela se tornava o que fazia – inexoravelmente e sem a menor importância – e, ainda assim, restava algo que ela jamais poderia fazer. E se lhe parecesse, de repente, que talvez eles se amassem apenas com o ruído daquele único som – loucamente íntimo e doloroso – da recusa de ouvir, então adivinhava as sinuosidades profundas e os enredamentos inomináveis que, como gotas silenciosas, surgiam nas pausas, naqueles instantes do despertar que nos arrancam do vazio sonoro, quando despertamos para o desatino absurdo de nos vermos imersos em certo sentimento, em meio a eventos sem consciência; ela o amava com a dor de um solitário e duro estar-ali, lado a lado, um estar voltado para dentro de algo diante do qual todas as outras ações são apenas um fechar-se aturdido e um entregar-se à sonolência, e nesse amor pensava causar-lhe um último sofrimento, pesado como a terra.

Por muitas semanas ainda seu amor manteve aquela coloração; e depois passou. Muitas vezes, porém, quando sentia a proximidade de outra pessoa, aquilo retornava de forma mais tênue. Bastava um ser qualquer, falando qualquer coisa, para que ela se sentisse olhada daquele lugar… com surpresa… Por que tu estás aí ainda? Nunca acontecia de sentir desejo por aquelas criaturas estranhas; era doloroso pensar nelas; sentia nojo. Mas, de repente, estava envolvida no balançar incorpóreo do silêncio e já não sabia se estava se erguendo ou afundando.

Agora Claudine olhava para fora. Tudo ainda estava como sempre fora. Mas – era de seus pensamentos que aquilo vinha ou de onde viria? – uma morna e obstinada resistência cobria tudo, como se estivesse a olhar através de um tênue e embaçado entrave. A leve euforia, como o tropel inquieto de milhares de pernas, era agora insuportável em sua tensão; sapateava e fluía como num arremedo desvairado de passinhos de anões excessivamente vivazes, mas ainda assim era algo que continuava mudo e morto para ela. E surgia, ora aqui, ora ali, feito um chacoalhar vazio ou se arrastava numa fricção gigantesca.

Sentia uma dor física ao olhar aquele movimento onde sua sensibilidade não residia mais. Aquela vida, que há pouco a penetrara, transformando-se em sentimento, ela ainda a via lá fora, tonta, cheia de si, mas quando tentava atraí-la, as coisas se soltavam e se esfarelavam sob seus olhos. Surgia uma feiura que lhe perfurava estranhamente os olhos, como se ali sua alma tivesse se curvado para fora, ampla e tesa, desejando algo, mas apanhando o vazio…

E, de repente, ela se lembrou que também – como tudo ao redor – vivera presa e amarrada num só lugar, numa cidade, numa casa, num apartamento e com certo modo de se sentir, anos e anos num minúsculo ponto. E pareceu-lhe que sua felicidade – mesmo que se detivesse e esperasse por pouco tempo – também podia passar, tal como todo aquele amontoado de coisas que berravam.

Esse pensamento, contudo, não lhe parecia aleatório, havia algo ali de um deserto que se espraia, ilimitado, um ermo onde seu sentimento procurava em vão algum apoio; e algo de manso a tocava, silenciosamente, como um alpinista pode se sentir tocado quando escala um precipício; e então sobreveio um momento totalmente frio e tranquilo em que ela se ouviu como um pequeno ruído incompreensível no interior de um plano gigantesco, e naquele momento um silenciar repentino a fez notar com quanta suavidade havia se infiltrado e o quanto o rosto pétreo do vazio era imenso e pleno de sons esquecidos, horripilantes.

E enquanto, diante disso, ela se enrugava e se retraía como uma pele fina, sentindo nas pontas dos dedos a angústia muda de quem terá de refletir sobre si, e enquanto as sensações lhe grudavam como minúsculos grãos e seus sentimentos deslizavam como areia, ela ouvia de novo aquele som estranho; como um ponto, um pássaro, ele parecia pairar no vazio.

E, num golpe, sentiu tudo como um destino. Que tivera de viajar, que a natureza à sua frente recuava, que ela se retraíra, muito tímida, já no início daquela viagem, com medo de si, dos outros, da sua felicidade, e seu passado lhe parecia, naquelas horas, a expressão imperfeita de algo que ainda estava por vir.

Ela continuava a olhar para fora, ansiosa. Porém, pouco a pouco, à mercê daquela imensa estranheza, seu espírito começou a se envergonhar de tantas relutâncias e forças imperiosas, e teve a impressão de vê-lo se deter, e uma força sutil e derradeira se apoderou de seu espírito suavemente, e assim, imbuído da força da fraqueza que deixa ser e acontecer, começou a se desfiar, ficando menor que uma criança e mais macio que seda fanada. E ela sentia, com um encanto que se espraia com suavidade, a alegria humana mais profunda – semelhante à de um adeus –, a da estranheza do mundo e, junto, o sentimento de não poder adentrar nela, de não encontrar, dentre todas as suas decisões, nenhuma que lhe estivesse destinada. E, ali, bem no meio delas, sentia-se arrastada à margem da vida, à queda iminente na ampla vastidão opaca de um espaço oco.

De repente, começou a sentir uma obscura nostalgia de sua vida anterior, uma vida que fora abusada e explorada por estranhos, era como uma saudade de despertar, pálida e debilmente, de uma doença, enquanto, em casa, ruídos migravam de um quarto ao outro, de modo que já não pertencia a lugar algum e vivia uma vida suspensa num espaço qualquer, liberada do peso e das pressões de sua própria alma.

Robert Musil nasceu em Klagenfurt, na Áustria, em 1880. É considerado um dos mais importantes romancistas do  século 20. Entre suas obras, estão os títulos “O Jovem Torless”, adaptado para o cinema em 1966, “O Homem Sem Qualidades” e “Três Mulheres”.

 

 

UNIÕES

Robert MusilKathrin H. Rosenfield (org. e ensaios)Tradução Kathrin Rosenfield e Lawrence Flores PereiraEditora Perspectiva240 páginasLançamento em abril de 2018

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