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‘Na outra margem, o Leviatã’: o cotidiano em grandes cidades


O ‘Nexo’ publica trecho do novo livro de Cristhiano Aguiar, uma reunião de narrativas curtas e interligadas que se passam nas cidades de São Paulo e Recife. As histórias combinam situações realistas e fantásticas para tratar de aspectos relacionados à atmosfera urbana e a questões políticas, como os protestos no Brasil em 2013. O trecho a seguir integra o conto “Teresa”.

Pássaros pousam nos ombros de Teresa, mas não cantam. Nos últimos dias ela costuma, sempre aos finais de tarde, sentar nos degraus que dão acesso à entrada do edifício. Com os pés encostados e as mãos fechadas, observa a rua: ouvidos atentos aos ruídos, aos olhos sujos. Ninguém parece se incomodar com a presença dos animais. Os pássaros pouco se movem após o pouso — são escuros. Eles enfeitam o seu rosto com uma fina grinalda, que trouxeram pendurada nos bicos. Quando seu filho chegar, já será naquela hora da noite em que o trânsito desacelerou. Ele a tomará pela mão, a conduzirá até o quarto dela, acenderá a luz, colocará o único livro que foi salvo no colo da mãe e por fim dirá:

— Boa noite.

*

A lama, as pedras e uma mão aberta. Dois cachorros procuram alguma coisa no meio dos destroços. O focinho de um dos cães empurra os dedos enlameados. No dedo é possível enxergar a aliança, na qual se encosta o focinho do animal. Ele cheira, cheira, cheira.

Até sua boca se abrir.

I

TERESA: “Depois que o príncipe Elias se perdeu da família durante uma caçada, Deus teve misericórdia e mandou que um leão criasse o menino. O rei tinha certo no seu coração que seu filho ainda estava vivo em algum lugar, por isso mandava para todos os cantos do reinado suas patrulhas. Quando Elias já estava um rapaz, uma patrulha encontrou a cova do leão. Os soldados mataram o animal e resgataram o príncipe. No entanto, ninguém conseguia fazê-lo lembrar de ser gente: ele não reaprendia a falar e vivia correndo os jardins à semelhança dos bichos. Naquele tempo existiam gigantes. Um deles tinha chegado ao reino e destruía casas, vilas, fazendas. Para acabar com a destruição, exigia que lhe fossem dados de alimento 60 homens todo mês. Veio uma palavra do Senhor para o rei, através do profeta Natanael: que ele enviasse o seu único filho para o gigante, junto com os outros 59 homens. Todos na corte se escandalizaram e a rainha enlutou, porém o rei decidiu cumprir a vontade divina. Elias e os 59 homens se deslocaram até o covil do monstro, que morava em uma montanha. Ao entrarem, todos os homens, exceto Elias, tremeram e gritaram quando chegou o gigante, que só tinha um olho enorme no meio da testa. ‘Coisinha pequena, coisinha pequena’, perguntou o monstro com a voz podre, ‘não tem medo de mim?’. O príncipe  rosnou e jogou pedras no gigante que, rindo muito, gritou: ‘Último será o teu nome! Tu não sabes falar?’. O monstro decidiu que Último não tinha gosto de gente. Também decidiu ensiná-lo a linguagem dos homens, antes de comê-lo. O gigante devorava dois homens por dia, enquanto ensinava tudo que sabia das sabedorias às ciências do mundo, o Último. Às vezes, o gigante quase não conseguia se controlar, lambia seu aluno enquanto dizia: ‘Haverá mais monstrinhos na tua terra, Último?’. Quando devorou o  quinquagésimo-nono homem, o gigante, para comemorar que finalmente devoraria Último, bebeu dois tonéis de vinho e caiu no chão. Elias, de fininho, saiu da montanha, arrancou da terra uma árvore e, queimando uma das pontas da árvore com a fogueira que aquecia o covil do gigante, enfiou-a direto no seu único olho! O monstro gritava: ‘Ai! Bode de olhos, boca e chifre negros! Quem ousou me atacar?’, enquanto batia com as mãos imensas nas paredes da montanha. Elias respondeu: ‘quem te matou foi o nome que você ensinou’ e fugiu da montanha na hora em que as pedras soterraram o gigante.”

*

A lama, as pedras e uma mão aberta, enterrada. Dois cachorros famintos procuram alguma coisa no meio dos destroços. Acima deles, um colchão amarelado se pendura nos fios elétricos. Casas em pedaços: de uma delas, restou apenas uma parede e meia de azulejos brancos. O focinho de um dos cães empurra os dedos enlameados. No dedo indicador é possível enxergar a aliança, na qual se encosta o focinho do animal. Ele cheira, cheira, cheira. Até sua boca se abrir.

*

Teresa esperou durante três anos o marido. Petrúcio, assim como tantos e tantos dos seus conterrâneos, partiu para São Paulo meses após casar. As noivas e esposas destes homens ficavam à espera, grinaldas amarelas na mão. Muitas temiam que eles nunca voltassem.

Às vezes, novos pretendentes rondavam as noivas-viúvas. Algumas entregavam os seios, em segredo, nos quintais embaixo das árvores; a maioria continuava impassível — as grinaldas. Teresa se manteve fiel e continuou a vida de casa. Gostava de ouvir, todo cair da tarde, as histórias de sua avó, enquanto a ajudava a debulhar milho; aos sábados, juntava as crianças na praça e contava dos mouros, das princesas encantadas e dos milagres dos profetas. Enquanto o marido não voltou, continuou a morar com os pais. Ajudou-os nos trabalhos domésticos, fez costuras, foi à missa. Todo mês, ele lhe escrevia uma carta magra. Passados aqueles três anos, Petrúcio retornou com algum dinheiro. Montou um mercadinho no centro da cidade, fez do quintal uma loja de aviamentos, para a qual se chegava pelas laterais da casa, e que deixou aos cuidados da esposa.

Teresa, às vezes, se perguntava: Petrúcio tinha mudado? De brincadeira, dizia: “oi sulista!” e o esposo devolvia o cumprimento com um sorriso que talvez tivesse certo constrangimento. Na primeira semana após o retorno, ela lhe fez perguntas polidas e adequadas sobre a vida que viveu: onde trabalhou?, onde morou?, deixou amigos? Os parentes agiram de maneira semelhante. Não seria fácil definir o que teria mudado. O senso de humor, uma das suas maiores qualidades, se mantinha intacto. A voz, só um pouquinho diferente, com algo carregado no sotaque, algo do Sul. Ainda um bom partido: não gostava da cachaça e continuava trabalhador. Apesar disso, alguns achavam que seus gestos e palavras careciam de espontaneidade, como se o passado puxasse, de maneira lenta, porém teimosa, os braços de Petrúcio na direção de uma história escondida debaixo do tapete, uma história inconclusa. Teresa cada vez mais acreditava: Petrúcio fingia. Como se tivesse desaprendido de si e estivesse à procura do que tinha se perdido no percurso, na estrada. Às vezes, ela achava que ele temia algo. Uma tarde, já grávida, um carro circulou pela cidade e alguns estranhos fizeram perguntas deslocadas pelas ruas. Petrúcio, por coincidência, tinha feito uma viagem repentina às cidades das proximidades. Retornou um dia depois da partida  dos visitantes e durante dias o casal trocou poucas palavras entre si.

Petrúcio gostava de passar parte do seu tempo livre observando a rua, sentado à janela. O cigarro na mão esquerda, os giros da fumaça transformados em garras, enquanto sua mão direita enrolava e desenrolava os pelos do próprio bigode. Os olhos mergulhados nas pedras, esquinas e bichos. Naqueles momentos, ele fumava demais, pensava Teresa.

Logo após a partida dos filhos, os dois se hipotecaram; aquele antigo e ansioso silêncio da espera voltou, desta vez transformado, calcificado; o silêncio, após ser preenchido com as brincadeiras, o corre-corre, os choros, as doenças e os estudos dos três filhos homens, retornou com toda a força quando a primeira velhice surpreendeu Teresa e Petrúcio. Novamente sozinhos: novamente à espera.

 Cristhiano Aguiar nasceu em Campina Grande, na Paraíba, em 1981, e hoje vive em São Paulo. Seus contos e ensaios foram traduzidos para o inglês e o espanhol, publicados nos Estados Unidos, Inglaterra e Argentina. Publicou o livro de contos “Ao lado do muro” (2006) e o acadêmico “Espaços e narrativas ficcionais: uma introdução” (2017) .

 

NA OUTRA MARGEM, O LEVIATÃ

Cristhiano AguiarEditora Lote 42112 páginasLançamento em março de 2018

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