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‘O gabinete negro’: um romance cubista


O ‘Nexo’ publica trecho da tradução inédita para o português do livro do escritor francês Max Jacob, um dos autores que introduziram a estética cubista na literatura. A obra é uma reunião de cartas acompanhadas de comentários de um possível terceiro leitor, a quem o título do livro se refere. 'Gabinete negro' era o nome dado ao serviço de espionagem do Antigo Regime, que incluía a interceptação de documentos para detectar trechos ameaçadores da ordem.

Com respeito à conclusão do curso secundário

Caro filho,Na carta do dia 15 deste mês, você se diz surpreso com minha atitude e por eu ter determinado que o advogado de sua mãe interferisse. De fato, filho, depois de tantas decepções, fruto do afeto que tinha por você e da antiga consideração por seu caráter, decidi cessar o nosso convívio mais ou menos provisoriamente. No princípio, fiquei admirado e contrariado com sua reprovação nos exames finais; porém esta já é a terceira reprovação. Na primeira vez, foi falta de sorte; na segunda, culpa das corridas de cavalo de Deauville; desta feita, foi o ódio do examinador que conhece a pequena Juliette. Perdi o ânimo de mandar dinheiro a sua mãe sob pretexto dos seus estudos. A suscetibilidade dela, mais ou menos justificada por minhas aventuras com as mulheres, tem-me custado muito caro. Seja como for, está tudo encerrado no que concerne a você, meu filho, e aos estudos. Faça o que bem entender, entretanto não terá mais um tostão do meu bolso para estudar. Preveni as pessoas que nos viam juntos que eu não voltaria mais a saldar as suas dívidas. Nem pense portanto, rapaz, em sustentar-se à custa de dívidas como o Lucien Coudray. Você sabe gozar a vida, felicitações, acho ótimo. Pois bem, se você precisa gozar a vida, junte dinheiro, foi assim que eu fiz. Quando saía com você e meus amigos de automóvel, acreditava que meu filho estivesse cumprindo as obrigações com os estudos, além de farrear. Estimava-o porque acreditava que você se parecia comigo. Mas não! Você não passa de um “filho de patrão”, e eu abomino os “filhinhos de papai”. É provável que tenha sido sua mãe que o desencaminhou, com aqueles colégios de jesuítas que estavam na moda em sua época. No entanto, não falemos mal de sua mãe, é um princípio. Você tem liberdade para pensar o que quiser dela, mas sem faltar ao respeito filial que lhe deve. Todavia conheço as pessoas ditas virtuosas, e você verá o quanto valem, se porventura tornar-se o homem que eu ainda espero que seja, apesar dos fracassos neste começo de vida.

Não pense que eu esteja agindo contra você ou sua mãe com mau humor ou até por avareza. Sempre o tratei como um ótimo amigo, pedindo em troca tão somente que isso fosse recíproco. Eis meus princípios: detesto a hipocrisia dos carolas. Quanto a ser sovina, a mim parece que, em matéria de dinheiro, você não teve queixas de minha parcimônia, até o presente. As providências que tomei foram pelo seu bem. Enquanto você continuar rodando de automóvel na companhia de nossas amigas, será sucessivamente reprovado nos exames, e terá de ficar na casa de sua mãe quando não tiver mais dinheiro. Você sabe tão bem quanto eu quanto custam as mulheres e as farras. É verdade que você... enfim, você verá as mulheres que vai conseguir quando nem meu carro nem meu dinheiro para o táxi estiverem mais às suas ordens.

E já que tocamos no assunto, permita dizer: não estou nada satisfeito com você, porque há coisas que não se fazem de homem para homem e, sobretudo, entre pai e filho. Não se trata de honra! Ninguém fala de honra com criançolas de 17 anos; estou falando de conveniências. Compreendi por que você não tinha mais vontade de ir ao Maxim’s! Meu filho não queria ser visto entre Louise Duchamp e eu, temendo a atitude das amigas que o teriam delatado mais ou menos maldosamente. Porém tudo vem à tona no final das contas, aprenda isso para o seu governo, rapaz, porquanto eu dou 5 francos ao Ernest cada vez que ele faz um relatório sobre a Louise Duchamp. Sim, claro! “O Maxim’s é um lugar ultrapassado!” Soube da verdade por intermédio do Ernest, aquele garçom que você conhece, e a verdade é que Louise levou o meu filho para a casa dela. Chegou até a dizer: “Estarei sempre em casa para você!”. Certamente, não para praticar esgrima ou boxe, imagino! Ora, você sabe muito bem o quanto  estou ligado a essa mulher, já que foi ela o principal motivo de meu  divórcio e das mágoas de sua mãe. Você está a par, razão a mais, então, para que não tivesse aceitado. E o que me faz você? Todo cheio de si por ter agradado — pois não creio que seja por dinheiro que ela saia com meu filho —, você faltou ao respeito devido a um pai.

 

Não estou encarando a questão do ponto de vista do “coração” (deixemos para lá o problema dos “dissabores”, conheço suficientemente o apreço que os sentimentos merecem), porém do ponto de vista do “respeito”. Não é com esse ar sonso de colégio de jesuítas que mostramos o devido respeito a um pai, que o trata com camaradagem, mas sim com certa postura nas grandes ocasiões da vida. Com relação a essa mulher, paga com o dinheiro de seu pai, você se tornou o sujeito que não paga! A palavra, não a escrevo por não querer insultar meu próprio filho; porém você adivinha o meu pensamento. Não é uma questão de honra, na sua idade, é uma questão de respeito pela família, de respeito filial. Eis tudo que eu queria dizer! É certo que felicito meu filho pelo sucesso junto à Louise, por certo; não é uma mulher fácil de agradar e sabe o que quer em matéria de homens, embora eu preferisse outros sucessos — em todos os gêneros, você me entende. Sobre a conclusão do curso secundário, se sua mãe insistir, vocês que resolvam sozinhos. Você, em suma, já está em idade de ganhar a vida. Quanto a mim, não me interessa dar dinheiro a meu filho para que ele se divirta com as mulheres que conheceu junto comigo e que, mais ou menos, são minhas.

Aqui estão as explicações que você pediu. Termino mandando a você um abraço de pai e desejando boa sorte na vida.

O seu pai desgostoso,

 

***

Comentários

Primeiras reflexões do rapaz: “Seu pai é uma besta. Sua mãe deve ter engolido cobras e lagartos com um sujeito dessa índole. Não resta dúvida! Ele vai juntar dinheiro! Não é mais tolo que todos os  milionários cretinos que andam por aí. Juntará dinheiro para sua mãe, de quem ele nunca se separará. Além disso, nem vê necessidade de concluir os estudos para tornar-se rico”.

Posteriores reflexões do rapaz: “O papai não chegará a ficar velho se continuar levando a vida que leva. Sou seu herdeiro universal, não tenho necessidade de me esfalfar”.

Dito isso, ele sobe num táxi e voa em direção à Louise Duchamp para contar tudo.

Do lado da mãe: uma carta do advogado informa que o pai não dará mais nada para os estudos do filho. O pai está farto, é compreensível! O Hubert não se dá ao trabalho. Hubert recebeu uma carta do pai e, logo em seguida, foi carinhosíssimo com sua mãe. A mãe ficou comovida e feliz. Vai tirar de sua pensão de divorciada o dinheiro para custear os estudos. Que felicidade para o filho conseguir escapar da influência daquele homem monstruoso! Ela chorou um pouquinho, porém foi de alegria e ternura. Chama Hubert à parte para uma conversa; porém o filho, desta feita, parece glacial e obstinado. Vejam o que fazem das famílias o divórcio e a vida sem Deus.

 

Max Jacob nasceu em Quimper, na Bretanha, em 1876. Foi romancista, poeta, pintor e crítico. Integrou os movimentos de vanguarda em Paris no início do século 20 e é autor de “Uma caixa de dados”, “A defesa de Tarufo” e “O laboratório central”.

 

 

O GABINETE NEGRO

Max JacobTradução Luiz DantasEditora Carambaia248 páginasLançamento em março de 2018

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