‘As virtudes do fracasso’: um olhar multidisciplinar sobre os erros


O ‘Nexo’ publica trecho da edição brasileira do livro do filósofo francês Charles Pépin. No best-seller, Pépin discute a importância das adversidades sob a perspectiva da filosofia, da pedagogia e da psicologia. O trecho a seguir faz parte da introdução da obra, que critica o atual culto ao sucesso.

O que têm em comum Charles de Gaulle, Steve Jobs e Serge Gainsbourg? O que aproxima J.K. Rowling, Charles Darwin e Roger Federer, ou ainda Winston Churchill, Thomas Edison ou a cantora Barbara?

Todos eles conheceram sucessos estrondosos? Sim, mas não é só isso. Eles fracassaram antes de vencer. Melhor ainda: foi pelo fato de terem fracassado que conseguiram vencer. Sem a resistência da realidade, sem esses reveses, sem todas as ocasiões para refletir ou se recuperar propiciadas por suas perdas, eles não teriam conseguido realizar o que realizaram.

Do começo da Primeira Guerra Mundial ao meio da Segunda, Charles de Gaulle suportou cerca de 30 anos de adversidades. Mas foi nesses embates que ele afirmou seu caráter e tomou consciência de seu desejo: fazer viver “certa ideia da França”. Quando por fim os ventos da história mudaram, ele estava preparado. Seus fracassos o tinham fortalecido. Eles o haviam preparado para o combate.

Thomas Edison falhou tantas vezes antes de inventar a lâmpada elétrica que um de seus colaboradores lhe perguntou como podia suportar tantos fracassos, “milhares de fracassos”. “Eu não fracassei milhares de vezes, eu consegui fazer milhares de tentativas que não funcionaram”, respondeu o inventor. Thomas Edison sabia que um cientista só aprende errando, e que cada erro corrigido é um passo na direção da verdade.

Serge Gainsbourg viveu dramaticamente o abandono da carreira de pintor à qual se dedicava. Foi com o gosto do fracasso na boca que se voltou para essa arte menor que era, para ele, a canção. Mas foi justamente isso que o libertou da pressão que se impunha como pintor. Não se pode dissociar seu talento de compositor e intérprete — o “toque especial” Gainsbourg — dessa descontração que é, também, filha do fracasso.

Hoje em dia, quando vemos Roger Federer jogar tênis, é difícil imaginar os fracassos que ele suportou na adolescência, os ataques de raiva que o dominavam. Não era raro vê-lo atirar longe a raquete, de pura raiva. Ora, foi durante esses anos que se construiu aquele que iria se tornar o melhor jogador de todos os tempos. Sem a soma de batalhas perdidas e os momentos de abatimento, ele não teria se tornado, mais tarde, o número um mundial. Seu lendário fair play, sua elegância “fácil” nada têm de inato: foram conquistados, e por isso mesmo são ainda mais belos.

Charles Darwin abandonou, sucessivamente, seus estudos de medicina e teologia. Foi então que embarcou para a longa viagem no Beagle, que revelaria sua vocação de descobridor. Sem seus fracassos de estudante, ele jamais teria estado disponível para essa viagem que mudaria sua vida e, além disso, a própria ideia que nós, humanos, tínhamos de nossa humanidade.

A princípio, a cantora Barbara viu as portas dos cabarés se fecharem para ela. Quando teve enfim a oportunidade de se apresentar neles, muitas vezes se via na situação de cantar sob vaias. Ouvindo-a interpretar certos títulos sublimes que viria a compor depois disso, sentimos uma força vital e uma empatia que muito devem às humilhações que sofreu. Suprimir as derrotas na trajetória de Barbara seria suprimir as mais belas canções de seu repertório.

Esses poucos exemplos já sugerem: no fracasso não existe apenas uma virtude, mas muitas. Há fracassos que acarretam um fortalecimento da vontade, outros que resultam em seu afrouxamento; há fracassos que nos dão força para perseverar no mesmo caminho, e os que nos oferecem o impulso para transformá-lo. Há os fracassos que nos tornam combativos, os que nos tornam mais sábios, e há também os que nos tornam simplesmente disponíveis para outra coisa.

O fracasso está no âmago de nossas vidas, nossas angústias e vitórias. Estranhamente, esse assunto não é tratado pelos filósofos. Quando comecei a trabalhar sobre este tema, fui buscar o que os grandes sábios da Antiguidade diziam sobre ele. Qual não foi, então, minha surpresa ao descobrir o pouco interesse que tinham por essa questão. Eles, tão prontos a refletir sobre o ideal e o real, sobre a “vida boa” e a luta contra os medos, sobre a diferença entre o que queremos e o que podemos, deveriam ter escrito profusamente sobre o fracasso, meditações inspiradas sobre esse sentimento. Mas não é isso que acontece. Não existe nenhuma grande obra de filosofia a respeito. Nenhum discurso cartesiano sobre a virtude do fracasso. Nenhum tratado hegeliano sobre a dialética do fracasso.  O fato é ainda mais perturbador quando se considera que a derrota parece manter uma relação bastante estreita com nossa aventura humana.

Por ocasião de minhas conferências, encontro muitos empresários ou assalariados que sofreram o ônus de concordatas, demissões, oportunidades perdidas. Em alguns casos, eles atravessaram a infância, a adolescência, os estudos, um começo de vida profissional — sem conhecer o sentimento da derrota. Observo que são estes que mais têm dificuldade de se recuperar.

Como professor de filosofia no ensino médio, vejo muitas vezes alunos atormentados por suas notas baixas. É evidente que nunca lhes disseram que um ser humano pode fracassar. Não obstante, a frase é simples: nós podemos fracassar. É simples, mas penso que ela contém algo de nossa verdade. Os animais não são passíveis de fracasso, pois tudo o que fazem é ditado pelo instinto: basta-lhes obedecer à sua natureza para não se enganarem. Toda vez que um pássaro constrói seu ninho, ele o faz com perfeição. Instintivamente, ele sabe o que tem de fazer. Ele não precisa tirar lições de seus fracassos. Quando nos enganamos, quando fracassamos, manifestamos nossa verdade de seres humanos: não somos nem animais determinados por instintos, nem máquinas perfeitamente programadas, nem deuses. Somos passíveis de fracasso porque somos homens e porque somos livres: livres para nos enganar, livres para nos corrigir, livres para progredir.

Charles Pépin nasceu em Saint-Cloud, na França, em 1973. É filósofo graduado  pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, romancista e professor. Publicou as obras “Os filósofos no divã: quando Freud encontra Platão, Kant e Sartre” e “O planeta dos sábios: enciclopédia de filósofos e filosofias”, entre outras.

 

 

AS VIRTUDES DO FRACASSO

Charles PépinTradução Luciano Vieira MachadoEditora Estação Liberdade184 páginasLançamento em março de 2018

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