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‘O Livro da Lei’: marco do ocultismo e da cultura pop


O ‘Nexo’ publica trecho da nova edição bilíngue do livro do escritor e ocultista britânico Aleister Crowley (1875-1947), ícone pop do século 20. Lançado pela editora Chave, tem tradução de Marina Della Valle e Fernando Pessoa. O texto a seguir é o de apresentação, escrito por M.B para esta edição

Aleister Crowley é provavelmente a figura menos oculta do mundo do ocultismo. O mais famoso mago do século 20. Sua concepção de prática mágica, ou “magick”, como “a ciência e arte de causar mudanças de acordo com a vontade”, continua a entusiasmar novos discípulos e, para além do círculo de seguidores mais fiéis e rigorosos, sua influência se espalha por todo o ocultismo ocidental, sendo uma força muito importante em movimentos até antagônicos: do neopaganismo wicca à cientologia, do satanismo moderno à popularização da yoga. Fora dos templos, Crowley tornou-se uma celebridade. Sua vida de libertino pansexual, suas declarações contra o cristianismo, as polêmicas com outros magos, o uso de drogas, as orgias, as bravatas, os poemas pornográficos, a suspeita de que fosse um espião (ora do serviço secreto britânico, ora do serviço secreto alemão) ou um comunista ou um agitador anarquista ou um simples charlatão, tudo fez de Crowley um alvo da imprensa sensacionalista. Ele era o “sr. 666”, “a Besta”, “o Anticristo”, o “rei da depravação”, “um homem que gostaríamos de enforcar” (este foi o título de um editorial da popular revista inglesa John Bull, em maio de 1923) e “o homem mais perverso do mundo”. Não só os jornalistas parecem fascinados e aterrorizados por tal monstro humano, mas também escritores: “Aleister Crowley é o vilão arquetípico do século 20”, diz o romancista e roteirista inglês Jake Arnott, cujo romance “The Devil´s Paintbrush”, de 2009, tem Crowley como protagonista. O mago inspira centenas de vilões em romances de todo o tipo, dos pulps baratos a obras da alta literatura.

O poeta W. B. Yeats, inimigo de Crowley dentro da Ordem da Golden Dawn (Aurora Dourada), descreveu-o como “indescritivelmente louco” e o retratou como o Anticristo, a “besta selvagem” (rough beast), em seu poema “O Segundo Advento” (The Second Coming). O escritor Christopher Isherwood também conheceu Crowley, na Berlim dos anos 1930, e o menciona como “alguém em quem não se deve confiar” no conto “A Visit to Anselm Oakes”. Somerset Maugham faz um retrato pouco lisonjeiro de Crowley em seu livro “The Magician”, mas tem o cuidado de trocar o nome do personagem para Oliver Haddo. Crowley se vinga escrevendo um artigo para a revista Vanity Fair no qual acusa Maugham de plágio. Crowley assina o artigo com o pseudônimo Oliver Haddo. O encantamento de Fernando Pessoa (1888-1935) por Crowley fez com que ele se tornasse cúmplice em um falso suicídio, um dos tantos golpes publicitários do mago. Mas, ainda assim, apesar do encantamento, Fernando Pessoa desconfiava.

O escritor inglês Malcolm Lowry  mergulha nos ensinamentos de Crowley para finalizar seu livro mais importante, “À sombra do vulcão”. Mas escreve ao seu editor: “William James, se não Freud, certamente concordaria comigo quando digo que as agonias do alcoólatra encontram sua mais exata analogia poética nas agonias do místico que abusou de seus poderes”.

Crowley também faz uma aparição em “Paris é uma festa”, de Ernest Hemingway, e inspira dois dos vilões de James Bond: o primeiro, Le Chiffre, de “Casino Royale”, e o mais importante: Blofeld, líder da da organização criminosa Spectre. Aliás, conta a lenda que durante a Segunda Guerra Mundial, Ian Fleming, futuro criador do 007, mas na época agente do serviço secreto inglês, teria tentado recrutar o mago para a luta antinazista. O plano era que Crowley, com seus poderes mágicos, convencesse Rudolf Hess, um dos principais líderes nazistas, a se entregar aos ingleses. A história provavelmente não é verdadeira, mas a razão que levou Hess em maio de 1941 a pegar um avião e viajar sozinho para a Escócia, onde foi preso pelos Aliados, permanece motivo de especulação entre os historiadores.

As tantas denúncias e campanhas da imprensa e dos moralistas em geral fizeram com que Crowley fosse obrigado a comparecer perante os juízes diversas vezes. Mas ele gostava de ser assunto, e as acusações aparentemente não o perturbaram tanto, nem a seus admiradores. Quando a BBC, em 2002, fez uma consulta popular a respeito de quem seriam os 100 maiores britânicos de todos os tempos, Crowley perdeu para nomes como Churchill, Shakespeare, Darwin, John Lennon e Lady Di, mas ficou à frente de, por exemplo, J. R. R. Tolkien, Bono, o pioneiro da máquina a vapor James Watt, e Geoffrey Chaucer, pai da literatura inglesa. Após sua morte, em 1947, a popularidade de Crowley começou a aumentar até ele se tornar uma espécie de herói da contracultura.

Ainda que isso pudesse ser uma surpresa para os leitores dos tabloides ingleses dos anos 1930 ou qualquer dos amigos contemporâneos dele, a redescoberta de Crowley a partir dos anos 1960 parece hoje até natural quando vemos que ele foi um pioneiro da rebeldia pop, do misticismo, da revolução sexual, do orientalismo, do vestuário como fantasia e manifesto, da yoga, da louca autoconfiança da celebridade, da imagem pública como principal obra do artista, do prazer em desafiar os preconceitos pequenos burgueses e, é claro, da psicodelia. “Para me adorar, tomai o vinho e as drogas estranhas das quais direi ao meu profeta & embebedai-vos delas!” diz “O Livro da Lei”. E Crowley foi atrás de drogas estranhas. Já em 1907, depois de “se envenenar com todas as substâncias relacionadas (ou não) na farmacopeia”, Crowley escreve uma pioneira defesa da cannabis, “The Psychology of Hashish”, na qual chega à conclusão que o Elixir Vitae com o qual sonhavam os alquimistas é a “sublimada ou purificada preparação da Cannabis indica”. Em 1910, promove seus ritos de Elêusis em Londres, que alguém poderia descrever como uma festa psicodélica turbinada com mescalina. Crowley teria sido aquele que apresentou o peiote a Aldous Huxley e o haxixe a H. G. Wells. Teve uma influência muito importante sobre William Burroughs. Timothy Leary chegou a dizer que “continuava o trabalho iniciado por Crowley”. Robert Anton Wilson, bem mais sensato, diz não se entusiasmar muito pelo Crowley das drogas e nem pelo seu ocultismo, mas pelo Crowley escritor e seu método de contatar alienígenas.

Nos quadrinhos, a principal forma narrativa ficcional da contracultura, Crowley começou a aparecer aqui e ali a partir dos anos 1970. Mas a chamada Invasão Britânica, que, nos anos 1980, apresentou ao mundo uma nova geração de quadrinistas do Reino Unido, quase pode ser chamada também de Invasão Crowleyana. O “Sandman” de Neil Gaiman surge nos quadrinhos ao ser capturado por engano em um ritual desastroso do mago Roderick Burgess, criado à imagem de Crowley (de quem, na HQ, é um rival). E em “Belas Maldições”, de Gaiman e Terry Pratchett, Crowley é o nome de um dos protagonistas: o demônio que se junta ao anjo Aziraphale na tentativa de impedir o fim dos tempos.

No caso de Grant Morrison, quase toda a sua obra tem alguma influência de Crowley: “ele é o Picasso da Magia”, diz o quadrinista, que se autointitula também um mago. Na graphic novel “Batman: Asilo Arkham”, que é até hoje sua HQ de maior sucesso tanto de vendas como de crítica, Morrison menciona explicitamente Crowley ao recriar a biografia fictícia do fundador do manicômio de Gotham City. Amadeus Arkham conta que, quando jovem, viajou à Inglaterra e foi “apresentado ao ‘homem mais perverso do mundo’... Aleister Crowley”. “Pareceu-me um homem encantador e muito educado”,  diz Amadeus, “discutimos o simbolismo do Tarot egípcio e ele me venceu no xadrez... duas vezes”. Além disso, um dos personagens da graphic novel aparece diversas vezes lendo o Thoth Tarot, de Crowley. Morrison também escreveu uma premiada peça de teatro sobre o mago: Depravity, de 1990.

M. B. foi um pseudônimo escolhido pelo autor do texto de apresentação de  "O Livro da Lei".

 

O livro da Lei

Aleister CrowleyTradução de Marina Della Valle e Fernando PessoaEditora Chave208 páginasLançamento em dezembro

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