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‘Fome’: sobre a compulsão alimentar de uma escritora feminista


O ‘Nexo’ publica trecho inédito do novo livro da escritora Roxane Gay. Lançado pela editora Globo, com tradução de Alice Klesck, a obra é uma autobiografia em que a autora explora questões íntimas que a levaram a ter uma compulsão alimentar

Capítulo 1

Todo corpo tem uma história e um histórico. Aqui, eu ofereço os meus, com uma autobiografia do meu corpo e da minha fome.

(...)

Capítulo 3

Para lhe contar a história do meu corpo, devo contar o meu peso quando esteve em seu auge? Eu lhe digo esse número, a verdade vergonhosa que sempre me estrangulou? Digo que sei que não devo considerar vergonhosa a verdade do meu corpo? Ou só lhe digo a verdade, enquanto fico na expectativa, aguardando o seu julgamento?

O máximo que já pesei foi 262 kg, com 1,90 metro de altura. Esse é um número surpreendente em que mal posso acreditar, mas, em determinado momento, essa foi a verdade do meu corpo. Descobri esse número na Cleveland Clinic, em Weston, na Flórida. Não sei como deixei as coisas saírem tanto do controle, mas deixei.

Meu pai foi comigo à Cleveland Clinic. Eu estava com vinte e tantos anos. Era julho. Ao ar livre, fazia calor e estava úmido, a natureza era exuberante. Dentro da clínica, o ar era gélido e antisséptico. Tudo era elegante, com madeira cara, mármore. Eu pensei: É assim que vou passar as minhas férias de verão.

Havia outras sete pessoas na sala de reunião — uma sessão de orientações para cirurgia bariátrica —: dois caras gordos, uma mulher ligeiramente acima do peso com seu marido magro, duas pessoas com jalecos e outra mulher grande. Enquanto observava à minha volta, fiz o que pessoas gordas tendem a fazer quando estão perto de mais pessoas gordas — eu comparei o meu tamanho ao deles. Eu era maior do que cinco pessoas, menor do que duas. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesma. Por 270 dólares, eu passei boa parte do meu dia ouvindo sobre os benefícios de ter a anatomia drasticamente reduzida para perder peso. Segundo os médicos, essa era “a única terapia eficaz para a obesidade”. Eles eram médicos. Supostamente deviam saber o que era melhor para mim. Eu queria acreditar neles.

Um psiquiatra conversou conosco sobre o preparo para a cirurgia, como lidar com a comida, uma vez que nosso estômago tivesse sido reduzido ao tamanho de um polegar, como aceitar o fato de que as “pessoas normais” (palavras dele, não minhas) em nossa vida poderiam tentar sabotar nossa perda de peso por estarem acostumadas a nós como pessoas gordas. Ficamos sabendo como nosso corpo seria privado de nutrientes pelo resto de nossa vida, como jamais poderíamos voltar a comer e beber sem um intervalo de meia hora entre um e outro. Nossos cabelos iriam ralear, talvez cair. Nosso corpo estaria inclinado à síndrome de dumping, um estado que não requer muita imaginação para decifrar. E, é claro, existiam riscos cirúrgicos. Poderíamos morrer na mesa de operação ou por infecção nos dias após o procedimento.

Era um cenário de boas e más notícias. As más: nossa vida e nosso corpo jamais seriam os mesmos (se chegássemos a sobreviver à cirurgia). As boas: seríamos magros. Perderíamos 75% do excesso de peso ao longo do primeiro ano. Ficaríamos quase normais.

O que aqueles médicos ofereciam era muito tentador, muito sedutor: a ideia de que poderíamos dormir por algumas horas e, dentro de até um ano, a maior parte dos nossos problemas estaria solucionada, pelo menos de acordo com o sistema médico. Isso, claro, se continuássemos a nos enganar quanto a nosso corpo ser nosso maior problema.

Depois da apresentação, houve uma sessão de perguntas e respostas. Eu não tinha nem perguntas nem respostas, mas a mulher à minha direita, a mulher que claramente não precisava estar ali porque ela não tinha mais de 20 kg de sobrepeso, dominou a sessão, fazendo perguntas íntimas, pessoais, que me partiram o coração. Enquanto ela interrogava os médicos, seu marido estava ao seu lado, dando um sorrisinho malicioso. O motivo de ela estar ali ficou claro. Tinha tudo a ver com ele e a maneira como ele via o corpo dela. É a coisa mais triste, eu pensei, preferindo ignorar o motivo de eu estar sentada na mesma sala, preferindo ignorar que havia um bocado de gente na minha própria vida que via meu corpo antes de algum dia ter me visto, ou me levado em consideração.

Mais tarde, naquele dia, os médicos mostraram vídeos da cirurgia — câmeras e instrumentos cirúrgicos em cavidades escorregadias, cortando, empurrando, fechando, removendo partes essenciais do corpo humano. O interior tinha um tom esfumaçado de vermelho, rosa e amarelo. Era grotesco e assustador. Meu pai, à minha esquerda, estava pálido, claramente abalado pela exibição brutal. “O que você acha?”, ele me perguntou baixinho. “Isso é um show de horrores”, eu disse. Ele assentiu. Essa foi a primeira coisa em que concordamos, em muitos anos. Então, o vídeo terminou e o médico sorriu e disse que o procedimento era breve e feito por laparoscopia. Garantiu-nos que já tinha feito mais de 3 mil operações e só perdera um paciente — um homem de 385 kg, disse ele, baixando a um tom de sussurro lamentoso, como se a vergonha do corpo daquele homem não pudesse ser mencionada com força total em sua voz. Então o médico disse o preço da felicidade — 25 mil dólares, descontados os 270 dólares da taxa de orientação, uma vez que o depósito para o procedimento fosse feito.

Antes que terminasse esse tormento, houve uma consulta individual com o médico, numa sala de exames privativa. Antes que o médico entrasse, seu assistente, um estagiário, veio colher as minhas informações vitais. Fui pesada, medida, silenciosamente julgada. O estagiário ouviu meus batimentos cardíacos, sentiu minhas glândulas da garganta, fez algumas anotações adicionais. Meia hora depois, o médico finalmente entrou. Ele me olhou de cima a baixo. Deu uma olhada em meu novo histórico, rapidamente folheando as páginas. “Sim, sim”, disse ele. “Você é uma candidata perfeita para a cirurgia. Vamos agendá-la imediatamente.” Então, ele sumiu. O estagiário fez os pedidos de exames preliminares necessários e eu fui embora, com uma carta atestando a conclusão da sessão de orientação. Ficou claro que eles faziam isso todos os dias. Eu não era única. Não era especial. Eu era um corpo, um corpo que exigia reparos, e há muitos de nós no mundo vivendo em corpos profundamente humanos.

Meu pai, que estivera aguardando no átrio bem decorado, pôs a mão no meu ombro. “Você ainda não está nesse ponto”, disse ele. “Um pouquinho mais de autocontrole. Exercícios duas vezes ao dia. É só disso que você precisa.” Concordei, assentindo vigorosamente, mas, depois, sozinha em meu quarto, eu li atentamente os panfletos que havia recebido, sem conseguir desviar os olhos das fotografias de antes e depois. Eu queria e ainda quero desesperadamente aquele “depois”.

E lembrei-me do resultado, após ter sido pesada, medida e julgada, do número inimaginável: 262 kg. Achei que conhecia a vergonha, mas naquela noite eu realmente conheci a vergonha. Eu não sabia se algum dia encontraria um caminho para superar a vergonha, rumo a um lugar onde eu pudesse encarar o meu corpo, aceitar meu corpo, mudar meu corpo.

Roxane Gay é autora best-seller do New York Times, vencedora de diversos prêmios de prestígio. PhD em Comunicação pela Universidade Técnica do Michigan, Roxane, além de escritora e palestrante, é editora e professora de Escrita Criativa na Universidade de Purdue.

 

 

FOME

Roxane GayTradução de Alice KlesckEditora Globo272 páginasLançamento em novembro

 

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