Marquês de Sade

16 Nov 2017

O ‘Nexo’ publica trecho do livro do escritor Marquês de Sade (1740 - 1814). A obra reúne cinco novelas, inéditas no Brasil, além de um ensaio teórico de Sade sobre o romance. Lançado pela editora Carambaia, com tradução de André Luiz Barros, a publicação traz ilustrações de Zansky

Faxelange

O senhor e a senhora de Faxelange, recebendo de 30 a 35 mil libras de renda, viviam frugalmente em Paris. Como único fruto de seu himeneu tinham uma filha, bela como a própria deusa da Juventude. O senhor de Faxelange servira o exército, mas fora afastado jovem, e desde então ocupava-se tão somente dos cuidados de seu lar e da educação da filha. Era um homem extremamente doce, pouco genioso e de excelente caráter. Sua esposa, mais ou menos de sua idade, ou seja, entre 45 e 40 anos, dispunha de um pouco mais de sutileza de espírito. Porém, no geral, havia entre esses dois cônjuges muito mais ternura e boa-fé do que astúcia e desconfiança.

A senhorita de Faxelange acabara de atingir seus 16 anos; tinha uma daquelas figuras românticas, em que cada traço representa uma virtude; uma pele muito branca, belos olhos azuis, a boca um pouco grande mas bem adornada, uma silhueta flexível e leve e os cabelos mais belos do mundo. Seu espírito era afável como seu caráter. Incapaz de fazer o mal, era o ainda mais de imaginar que ele pudesse ser praticado. Numa palavra, era a inocência e a candura embelezadas pelas mãos das Graças. A senhorita de Faxelange era instruída; não se economizou em sua educação; falava muito bem o inglês e o italiano, tocava vários instrumentos e pintava miniaturas com gosto. Filha única e destinada, por consequência, a herdar um dia os bens da família, que no entanto eram medianos, podia almejar um casamento vantajoso, e havia dezoito meses essa era a única ocupação de seus pais. Mas o coração da senhorita de Faxelange não esperara a autorização dos autores de seus dias para ousar entregar-se por inteiro: havia mais de três anos que ela não era mais senhora dele. O senhor de Goé, que, por ser seu parente em algum grau, ia frequentemente à casa dela, era o objeto amado por essa terna jovem; amava-o com tal sinceridade... com tal delicadeza que fazia lembrar aqueles sentimentos altivos dos velhos tempos, tão corrompidos por nossa depravação.

Foto: Michael Zansky

Ilustração do livro 'Novelas Trágicas' de Marquês de Sade
 

O senhor de Goé sem dúvida merecia uma tal felicidade. Tinha 23 anos, uma bela figura, um rosto charmoso e um caráter de franqueza inteiramente conformado para harmonizar-se com o de sua bela prima. Era oficial de cavalaria, mas nada rico. Precisava de uma moça de farto dote, assim como de um homem de renda opulenta necessitava a prima que, apesar de herdeira, não possuía uma fortuna imensa, como já ressaltamos. E, consequentemente, ambos viam bem que suas intenções nunca seriam satisfeitas, e que a chama em que ardiam um e outro se consumiria em suspiros.

O senhor de Goé jamais informara os pais da senhorita de Faxelange sobre os sentimentos que nutria pela filha deles. Pressentia uma recusa, e seu orgulho se opunha ao que ouviria nesse caso. A senhorita de Faxelange, mil vezes mais tímida, evitava igualmente dizer palavra a respeito. Assim, essa intriga doce e virtuosa, atada pelos nós do mais terno amor, era cultivada em paz na sombra do silêncio. Porém, não importa o que acontecesse, ambos tinham prometido firmemente não ceder a nenhuma solicitação e nunca deixarem de pertencer senão um ao outro.

Nossos jovens enamorados estavam nessa situação quando um amigo do senhor de Faxelange veio lhe pedir permissão para apresentar-lhe um homem de província que acabara de lhe ser indiretamente recomendado.

— Não é sem motivo que lhe faço essa proposta – diz o senhor de Belleval. — O homem de quem lhe falo possui bens prodigiosos na França e herdades suntuosas na América. O único objetivo de sua viagem é encontrar uma esposa em Paris. Talvez a leve para o Novo Mundo, é a única coisa que temo. Mas, tirando isso, se a circunstância não o assusta demais, é bem certo que, em todos os aspectos, seria o mais conveniente a sua filha. Ele tem 32 anos, sua figura não é muito agradável... há algo de um pouco sombrio em seus olhos, porém tem postura bastante nobre e educação singularmente cultivada.

— Traga-nos ele – diz o senhor de Faxelange... E voltando-se para a esposa: — O que acha, senhora?

— Há que ver – respondeu. — Se é de fato um partido conveniente, dou-lhe sua mão de todo o coração, apesar do sofrimento que possa me trazer a separação de minha filha... Adoro-a, sua ausência me deixará desolada, mas não me oporei em nada à felicidade dela.

O senhor de Belleval, encantado com esses primeiros avanços, marca um dia com os dois esposos. Concordam que na quinta-feira seguinte o barão de Franlo será apresentado à senhorita de Faxelange.

O senhor barão de Franlo estava em Paris havia um mês, ocupando o mais belo apartamento do palacete de Chartres, desfrutando de uma bela cocheira, dois lacaios, um criado de quarto, uma grande quantidade de joias, uma carteira cheia de letras de câmbio e as mais belas vestimentas do mundo. Não conhecia o senhor de Belleval, mas conhecia, segundo afirmava, um amigo íntimo desse Belleval que, estando longe de Paris por dezoito meses, consequentemente não tinha como ser de nenhuma utilidade ao barão. Apresentara-se à porta daquele homem. Haviam-lhe dito que estava ausente, mas que, sendo o senhor de Belleval seu amigo mais íntimo, faria bem em ir procurá-lo. Desse modo, fora ao senhor de Belleval que o barão mostrara suas cartas de recomendação, e Belleval, para prestar serviço a um cavalheiro, não se negou a abri-las nem a conceder ao barão todos os cuidados que esse estrangeiro teria recebido do amigo de Belleval, caso este estivesse presente.

Belleval não conhecia de forma alguma as pessoas da província que recomendavam o barão. Nem jamais escutara seu amigo nomeá-las, mas evidentemente não era obrigado a conhecer tudo o que o amigo conhecia. Assim, não surgiram obstáculos ao interesse que teve por Franlo a partir de então. É um amigo de meu amigo – não há aí mais do que o necessário para legitimar no coração de um homem de bem o motivo que o leva a prestar serviço?

O senhor de Belleval, encarregando-se do barão de Franlo, levava-o a toda parte; a passeios, a espetáculos, a negociantes, só se os encontravam juntos. É essencial estabelecer esses detalhes para legitimar o interesse que Belleval adquiriu por Franlo, e as razões pelas quais, crendo-o um excelente partido, introduziu-o à casa dos Faxelange.

No dia escolhido para a aguardada visita, a senhora de Faxelange, sem avisar a filha, a faz se paramentar com seus mais belos adornos. Recomenda-lhe ser a mais educada e a mais amável possível diante do estrangeiro que irá ver, e fazer uso sem resistência de seus talentos, caso se exija, pois o tal estrangeiro é um homem que lhe foi pessoalmente recomendado, e que o senhor de Faxelange e ela têm motivos para bem receber.

Soam as cinco horas. É o instante anunciado, e o senhor de Franlo aparece, escoltado pelo senhor de Belleval. Seria impossível estar mais bem apresentado, possuir tom mais decente, postura mais honrada, porém, como dissemos, havia um não sei quê na fisionomia desse homem que deflagrava uma imediata prevenção no interlocutor, e só com muita arte em suas maneiras e muito meneio dos traços de seu rosto ele conseguia esconder esse defeito.

A conversa se inicia. Fala-se sobre diferentes assuntos e o senhor de Franlo envereda por todos eles, como o homem mais educado da alta sociedade... o mais instruído. Fala-se sobre as ciências: o senhor de Franlo as analisa todas; as artes têm seu momento; Franlo mostra que conhece todas e que não haveria nenhuma que nunca lhe tivesse causado extremo prazer... Discute-se política: a mesma profundidade. Esse homem controla o mundo inteiro, e sempre sem afetação, sem tirar partido de sua facilidade, misturando a tudo o que diz um ar de modéstia que parece pedir indulgência e adiantar que pode estar enganado, que está bem longe de ter certeza do que ousa avançar. Fala-se de música; o senhor de Belleval pede à senhorita de Faxelange que cante. Enrubescendo, ela o faz, e Franlo, na segunda ária, pede-lhe permissão para acompanhá-la com um violão, que vê sobre uma poltrona. Apanha o instrumento com todas as graças e toda a precisão possíveis, deixando ver em seus dedos, sem afetação, anéis de um valor prodigioso. A senhorita de Faxelange toca uma terceira ária, totalmente na moda. O senhor de Franlo a acompanha ao piano com o rigor dos maiores mestres. Convida-se a senhorita de Faxelange a ler algumas linhas de Pope em inglês. Franlo emenda imediatamente uma conversa naquela língua, provando que a conhece a fundo.

Novelas trágicas

Marquês de Sade
Tradução de André Luiz Barros
Ilustrações de Zansky
Editora Carambaia
324 páginas
Lançamento em novembro