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‘Poesia completa’: todos os versos de Cecília Meireles


O ‘Nexo’ publica trecho de nova edição do livro de Cecília Meireles (1901-1964). Lançado pela editora Global e dividida em dois volumes, a obra traz toda a produção poética da autora. O trecho do texto de apresentação a seguir é do poeta Alberto da Costa e Silva e, na sequência, há dois poemas da escritora carioca

O meditar místico de Cecília

Quando li os primeiros poemas de “Viagem” – eu tinha 15 anos de idade –, fui tomado de surpresa e espanto – surpresa e espanto que se repetiram no passar das páginas, diante de uma fala que era moderna porque antiga. Em contraste com o que vinham fazendo os seus companheiros de geração, Cecília Meireles valia‐se de versos bem escandidos e rimas nítidas, para se procurar no mundo.

Muitos dos poemas de “Viagem” lhe foram ditados pela solidão, a amargura e o desamparo que a afligiram durante os meses que antecederam e se seguiram ao suicídio de seu primeiro marido, o artista plástico português Fernando Correia Dias, vitimado por uma depressão sem remédio. Eu sabia da história por minha mãe, que a ouvira de meu pai, amigo de Correia Dias, e encontrei em “Viagem”, sob os mais diferentes disfarces, ressonâncias desse enredo. Raramente como elegia; quase sempre como canção. Canção triste, mas canção. E quero crer que o morto que se foi por desespero reaparece no afogado de vários momentos da obra de Cecília Meireles – e talvez seja o seu interlocutor em algumas passagens de “Solombra”.

Em fins de 1963, ao ser publicado Solombra, eu caminhava para os meus 33 anos, e a poetisa se encostava à morte. Li o livro muitas vezes, fascinado pelo novo timbre de seus versos e vencido pela beleza com que se fechavam em mistério. A cada releitura, “Solombra” me parecia, mais do que um adeus, um acerto de contas com a dor e o esplendor da vida.

Se, com “Viagem’, nascera para mim uma bela voz poética, com “Solombra” Cecília Meireles alcançava aquela altíssima área da criação que se assemelha ao meditar místico. E isso se anuncia na quadra que serve de epígrafe ao livro e lhe dá um segredo por nome:

Levantei os olhos para ver quemfalara. Mas apenas ouvi as vozescombaterem. E vi que era no Céue na Terra. E disseram‐me: Solombra.

E esta palavra “Solombra”, o que nos diz? Não basta que me ensinem ser uma forma arcaica do vocábulo “sombra”, que persiste entre os que falam o mirandês. Ao encontrá‐la como título de livro, julguei que definisse o conflito e o enlace entre o sol e a sombra, mas, depois, quis mais e pedi‐lhe que evocasse em mim a parte mais escura da mancha solar, a umbra, o centro negro da luz.

Entre “Viagem” e “Solombra”, Cecília Meireles parece ter feito a aposta de não deixar passar um dia sem a visitação da poesia. Deixou‐nos uma obra tão volumosa que nos inclina a acreditar no que então se dizia: que ela passava dias inteiros reclusa no escritório de sua casa no Cosme Velho, à espera dos poemas. Os que reuniu em “Vaga música” (o livro que se seguiu, em 1942, a “Viagem”) lhe chegavam desenhados com lápis de ponta fina, a tentar reter com precisa delicadeza o que se tem por breve e fugaz – a onda, a nuvem, a brisa, o assovio, a flor, a borboleta. São poemas de partida e de perda – e até mesmo do que se quis ou imaginou que tivesse sido e nunca foi.

Espectros

Nas noites tempestuosas, sobretudoQuando lá fora o vendaval estrondaE do pélago iroso à voz hediondaOs céus respondem e estremece tudo,

Do alfarrábio, que esta alma ávida sonda,Erguendo o olhar, exausto a tanto estudoVejo ante mim, pelo aposento mudo,Passarem lentos, em morosa ronda,

Da lâmpada à inconstante claridade(Que ao vento ora esmorece, ora se aviva,Em largas sombras e esplendor de sóis),

Silenciosos fantasmas de outra idade,À sugestão da noite rediviva,– Deuses, demônios, monstros, reis e heróis.

Defronte da janela, em que trabalho,Nas horas quietas, em que tudo dorme,Sobranceira e viril, como um carvalho,Alevanta‐se espessa árvore enorme.

O zéfiro um momento encrespa um galhoÀ sua barba: e, ou seja que a transformeO vento ou meu olhar, a árvore enorme,Erguida ante a janela em que trabalho,

Toma a feição de uma cabeça rude,Sonolenta e selvática oscilandoNuma estranha, fantástica atitude.E, posta a contemplá‐la, esta alma cuidaVer sob o azul do céu, diáfano e brando,A fronte erguer, leonina, o último druida.

 

Brâmane

Plena mata. Silêncio. Nem um pioDe ave ou bulir de folha. UnicamenteAo longe, em suspiroso murmúrio,Do Ganges rola a fúlgida serpente.

Sem ter no pétreo corpo um arrepio,Nu, braços no ar, de joelhos, fartamenteEsparsa a barba ao peito, na silenteMata, o Brâmane sonha. Pelo estio,

Ao sol, que os céus abrasa e o chão calcina,Impassível, a sílaba divinaMurmura... E a cólera hibernal do vento

Não ousa à barba estremecer um fioDo esquelético hindu, rígido e frio,Que contempla, extasiado, o firmamento.

Cecília Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro, onde morreu, em 9 de novembro de 1964. Publicou seu primeiro livro, “Espectros”, em 1919. Em 1938, seu livro “Viagem” conquistou o prêmio Olavo Bilac de Poesia, concedido pela Academia Brasileira de Letras. Além de estar entre os poetas brasileiros mais amados pelo público, foi jornalista, cronista, ensaísta, autora de literatura infantojuvenil, professora e pioneira na difusão do gênero no Brasil. Em 1965, recebeu, postumamente, o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.

 

POESIA COMPLETA

Cecília MeirelesGlobal editora970 páginasLançamento em outubro

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