‘Políticas do sexo’: a construção social do gênero


O ‘Nexo' publica em primeira mão trecho do livro da antropóloga americana Gayle Rubin, autora que é referência nos estudos de gênero. A obra, com tradução inédita no Brasil de Jamille Pinheiro Dias, é lançada pela editora Ubu e reúne dois textos: ‘O tráfico de mulheres’, de 1975, e ‘Pensando o sexo’, de 1985. Leia parte do primeiro texto, em que a Rubin escreve sobre a diversidade de sexo e gênero

O tráfico de mulheres

A literatura acerca das mulheres – tanto a feminista quanto a anti-feminista – é uma longa reflexão sobre a questão da natureza e da gênese da opressão e da subordinação social das mulheres. Essa questão não é banal, visto que as respostas dadas a ela são decisivas para o modo como vemos o futuro, assim como para se aferir se a esperança de uma sociedade sexualmente igualitária é algo que consideramos realista ou não. Além disso, é importante notar sobretudo que a análise das causas da opressão das mulheres constitui a base de qualquer avaliação do que deveria ser modificado para tornar possível uma sociedade sem hierarquia de gênero. Se a opressão das mulheres decorre da agressão e da dominação masculinas inatas, isso implicaria, logicamente, que o programa feminista buscasse exterminar o sexo agressor ou exigisse um projeto eugênico de modificação do seu caráter. Se o sexismo é um subproduto do apetite implacável do capitalismo pelo lucro, o advento de uma bem-sucedida revolução socialista poderia fazer o sexismo desaparecer. Se a derrota das mulheres, ao longo da história e em âmbito mundial, aconteceu em virtude de uma revolta armada patriarcal, é chegada a hora de guerrilheiras amazonas começarem a treinar na cordilheira de Adirondack.

Não está no escopo deste trabalho persistir em uma crítica de algumas das formas atualmente populares de explicar a gênese da desigualdade sexual – teorias como a da evolução popular exemplificada por “The Imperial Animal” (Tiger & Fox 1971), a suposta derrubada dos matriarcados pré-históricos, ou a tentativa de extrair todo e qualquer fenômeno de subordinação social do primeiro volume de “O capital”. O que pretendo, ao invés disso, é apresentar alguns elementos de uma explicação alternativa para o problema.

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